03 de setembro de 2010 | Atualizada às 01h14m
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Síntese histórica do Grande Oriente do Brasil

Publicada: 06/07/2010

Texto: José Anderson Nascimento (Escritor, presidente da Academia Sergipana de Letras, Grau 33 da Loja Maçônica Cotinguiba e Mestre em Educação/UFS)

A Maçonaria Brasileira não nasceu propriamente com a fundação do Grande Oriente do Brasil em 17 de junho de 1822, pois os primeiros núcleos ou agrupamentos formaram-se em Minas, em 1796, na célebre Inconfidência Mineira, onde se verificou a predominância de espírito maçônico; em Pernambuco, em 1796, com a fundação do Areópago; na Bahia, em 1798, na Conjuração das Alfaiates.

No fim do século XVIII, para evitarem as perseguições impostas pela Coroa, alguns maçons portugueses emigraram para o Brasil e da união com maçons franceses e americanos, instalaram no início do século XIX, Lojas Maçônicas, umas, sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano, outras, sob o patrocínio do Grande Oriente da França, e algumas Lojas independentes, destacando-se entre elas a Loja Simbólica Astréa, no Rio de Janeiro.

Verificado o crescimento do movimento maçônico no Brasil, o Grande Oriente Lusitano nomeou em 1803, como seu Delegado, o Ir:. Francisco José de Araújo, com poderes para criar Lojas regulares. Este Delegado criou as Lojas Constância, Filantropia e Emancipação e, unindo a estas a Loja Reunião, chamou a um centro comum, todos os maçons regulares e irregulares, que existiam no Rio de Janeiro. Essas Lojas passaram a ter mais de cem membros, que se empenharam na divulgação dos princípios da Maçonaria (ALENCAR, Renato de. Enciclopédia Histórica do Mundo Maçônico, vol. II. Rio de Janeiro: Editora Maçônica, 1970, p.16).

Os maçons brasileiros, animados com o espírito de independência, reconheceram a necessidade de nacionalizar o regime maçônico, criando um ponto de apoio e de união a todos os irmãos, dando-lhes a força necessária para resistir à tirania. Para isso, convocaram as Lojas existentes e deram impulso ao grande feito, inaugurando o primeiro Grande Oriente do Brasil, e proclamando como Grão-Mestre Interino, o Irmão Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva.

Apesar desses avanços, a Ordem Maçônica passou a sofrer a partir de 1806, uma grande perseguição desencadeada pelo Vice-Rei do Brasil, Dom Marcos de Noronha e Brito, oitavo
conde dos Arcos, homem de caráter ferino e inimigo fidagal da Maçonaria.

Acredita-se que em decorrência dessas perseguições, tenham os maçons brasileiros deliberado, em 21 de agosto de 1806, suspender os trabalhos maçônicos, visto correrem perigo com comprometimento dos obreiros.

Mas nem a incompatibilidade do Vice-Rei, nem as perseguições puderam diminuir o entusiasmo dos maçons, que continuaram a reunir-se, secretamente. Nessa época algumas Lojas apareceram e desapareceram, merecendo destaque a Loja São João de Bragança Comércio e Artes, fundada em novembro 1815, que se conservou independente e que ainda existe, contando com 188 anos de trabalhos em prol da sociedade brasileira.

Em outros pontos do Brasil, também se haviam organizado algumas Lojas.
Em Campos dos Goitacases, no Rio de Janeiro, instalaram-se as Lojas independentes: a Firme União, a União Campista e a Filantropia e Moral.

Em 1817, por ocasião da Revolução Pernambucana, e quando já se tinham dado os primeiros provimentos para a reinstalação do Grande Oriente, os maçons perseguidos pelo ministro de Estado do Reino, Tomás Antônio da Vila Nova, viram-se obrigados a suspender os trabalhos, dissolvendo as Lojas.

A Maçonaria Brasileira ficou por algum tempo adormecida, até que em junho de 1819, José Domingos Ataíde Moncorvo, capitão de mar e guerra, reinstala a Loja Comércio e Artes, a fim de dar força e vigor aos seus trabalhos. Na reinstalacão, juntaram-se as Lojas Maçônicas adormecidas, restaurando-se, com dedicação e vigor, os estudos filosóficos da Arte Real e ampliando-se a ação política da Maçonaria Brasileira.

A Loja Comércio e Artes era, então, a única existente e regular no Rio de Janeiro e os seus obreiros resolveram, em assembleia geral do dia 17 de junho de 1822, presidida pelo Venerável João Mendes Viana, reinstalar o Grande Oriente do Brasil, que foi logo reconhecido e saudado pelos Orientes da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos.

O Grande Oriente do Brasil teve como seus primeiros mandatários José Bonifácio de Andrada e Silva, ministro do Reino e de Estrangeiros e Joaquim Gonçalves Ledo, Primeiro Vigilante. A 4 de outubro do mesmo ano, já após a declaração de independência de 7 de setembro, José Bonifácio foi substituído pelo então príncipe regente e, logo depois, Imperador D. Pedro I (Irmão Guatimozim). Este, diante da instabilidade dos primeiros dias de nação independente e considerando a rivalidade política entre os grupos de José Bonifácio e de Gonçalves Ledo - que se destacava ao lado de José Clemente Pereira e o cônego Januário da Cunha Barbosa, como o principal líder dos maçons - mandou suspender os trabalhos do Grande Oriente, a 25 de outubro de 1822 (CAMINO, Rizardo da. Introdução à Maçonaria, 2º vol. Rio de Janeiro: Editora Aurora, p. 47).

Somente em novembro de 1831, após a abdicação de D. Pedro I - ocorrida a 7 de abril daquele ano - é que os trabalhos maçônicos retomaram força e vigor, com a reinstalação da Obediência, sob o título de Grande Oriente do Brasil, que nunca mais suspendeu as suas atividades.

Instalado no Palácio Maçônico do Lavradio, no Rio de Janeiro, a partir de 1842, e com Lojas em praticamente todas as províncias, o Grande Oriente do Brasil logo se tornou um participante ativo em todas as grandes conquistas sociais do povo brasileiro, fazendo com que sua História se confunda com a própria História do Brasil Independente.

Através de homens de alto espírito público, participantes da atividade política, principalmente em segmentos formadores de opinião, como os profissionais liberais, jornalistas e militares, especialmente do Exército, o Grande Oriente do Brasil iria ter, a partir da metade do século XIX, atuação marcante em diversas campanhas sociais e cívicas da nação.

Assim, distinguiu-se na campanha pela extinção da escravatura negra no país, obtendo leis que
foram abatendo o escravagismo, paulatinamente; entre elas, a "Lei Euzébio de Queiroz", que extinguia o tráfico de escravos, em 1850, e a "Lei Visconde do Rio Branco", de 1871, que declarava livre as crianças nascidas de escravas daí em diante. Euzébio de Queiroz foi maçom graduado e membro do Supremo Conselho do Grau 33; o Visconde do Rio Branco, como chefe de Gabinete Ministerial, foi Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. O trabalho maçônico só parou com a abolição da escravatura, a 13 de maio de 1888.

A Campanha republicana, que pretendia evitar um terceiro reinado no Brasil e colocar o país na mesma situação das demais nações centro e sul americanas, também contou com intenso trabalho maçônico de divulgação dos ideais da República, nas Lojas e nos Clubes Republicanos, espalhados por todo o país. Na hora final da campanha, quando a república foi implantada, ali estava um maçom a liderar as tropas do Exército com seu prestígio: Marechal Deodoro da Fonseca que viria a ser Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil.

Durante os primeiros quarenta anos da República - período denominado "República Velha" - foi notória a participação do Grande Oriente do Brasil na evolução política nacional, através de vários presidentes maçons, além de Deodoro: Marechal Floriano Peixoto Moraes, Manoel Ferraz de Campos Salles, Marechal Hermes da Fonseca, Nilo Peçanha, Wenceslau Brás e Washington Luís Pereira de Souza.

Durante a 1ª Grande Guerra (1914 - 1918), o Grande Oriente do Brasil, a partir de 1916, através de seu Grão-Mestre, Almirante Veríssimo José da Costa, apoiava a entrada do Brasil no conflito, ao lado das nações amigas. E, mesmo antes dessa entrada, que se deu em 1917, o Grande Oriente já enviava contribuições financeiras à Maçonaria Francesa, destinadas ao socorro das vítimas da guerra, como indica a correspondência, que, da França, era enviada ao Grande Oriente do Brasil, na época.

Mesmo com uma cisão, que, surgida em 1927, originou as Grandes Lojas Estaduais brasileiras, enfraquecendo, momentaneamente, o Grande Oriente do Brasil, este continuou como ponta-de-lança da Maçonaria, em diversas questões nacionais, como: anistia para presos políticos durante períodos de exceção, com estado de sítio, em alguns governos da República; a luta pela redemocratização do país, que fora submetido, desde 1937, a uma ditadura, que só terminaria em 1945; participação, através das Obediências Maçônicas europeias, na divulgação da doutrina democrática dos países aliados, na 2ª Grande Guerra (1939 - 1945); luta pela anistia geral dos atingidos pelo Movimento Militar de 1964; trabalho pela volta das eleições diretas, depois de um longo período de governantes impostos ao país.

E, em 1983, investia na juventude, ao criar a sua máxima obra social, a Ação Paramaçônica Juvenil, de âmbito nacional, destinada ao aperfeiçoamento físico e intelectual dos jovens - de ambos os sexos, filhos ou não filhos de maçons.

Presente em Brasília - capital do país, desde 1960 - onde se instalou em 1978, o Grande Oriente do Brasil tem, hoje, um patrimônio considerável, e em diversos Estados, além do Rio de Janeiro, e na Capital Federal, onde sua sede ocupa um edifício com 7.800 metros quadrados de área construída.

Com aproximadamente 2.000 Lojas, cerca de 61.500 obreiros ativos (31.12.1999), reconhecido por mais de 100 Obediências regulares do mundo, o Grande Oriente do Brasil é, hoje, a maior Obediência Maçônica do mundo latino e reconhecido como regular e legítimo pela Grande Loja Unida da Inglaterra, de acordo com os termos do Tratado de 1935.

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