08/01/2018 às 13h44 - Artigos

O Silêncio das Panelas Vazias

Uma das histórias mais conhecidas da filosofia está relacionada à morte de Sócrates, acusado de corromper a juventude que teria cometido o crime de ateísmo ao recusar o culto aos deuses do Estado.

Por: LUIZ EDUARDO OLIVA ADVOGADO, POETA E PROFESSOR.

Uma das histórias mais conhecidas da filosofia está relacionada à morte de Sócrates, acusado de corromper a juventude que teria cometido o crime de ateísmo ao recusar o culto aos deuses do Estado. No inquérito que levou Sócrates à morte, obrigado a beber a mortal cicuta, um tribunal de 501 jurados condenou o célebre réu depois de receber uma queixa de três medíocres atenienses: um poeta de pouca projeção Maleto e, curiosamente, os outros acusadores eram políticos: Anito e Lincon. Dois deles, tempos depois, morreram apedrejados pela multidão, acusados de caluniadores. Lincon morreu no esquecimento. E só são raramente referidos na posteridade, como neste artigo, graças à glória que a história reservou a velho Sócrates, considerado um dos mais sábios homens da antiguidade. A história reserva ao lixo muito mais os acusadores que as vitimas. E neles, inclui os traidores. Cite-se alguns: Judas Iscariotes, o acusador de Jesus; Silvério dos Reis, o acusador de Tiradentes; Brutus, o assassino de Júlio Cesar. Dante Alighieri, o grande poeta fiorentino reservou na Divina Comédia, um dos círculos do inferno aos traidores. E lá, listou vários.

 

Mas os gestos de traição ou equívocos como os descritos acima muitas vezes só se consolidam porque a multidão inconsequente, ou determinados grupos sociais forçaram à decisões que se traduziram em mortes como as de Só- crates, Jesus, Tiradentes ou o imperador Júlio Cesar. No Brasil dos dias atuais o exemplo de ações no mínimo incoerentes demonstra como a multidão, ou determinado grupo social está reservada ao lixo da história. Quando as ruas se encheram de verde e amarelo sob o símbolo da bandeira nacional anticorrupção e à noite, não raro, ouvia-se o bater das panelas, sobretudo nas zonas residenciais mais sofisticadas, onde a hipocrisia dizia que se queria extirpar a corrupção do país houve quem acreditasse que de fato se queria extirpar a corrupção e não era uma opereta de golpe. Até parecia que uma velha canção de Chico Buarque preconizara aquelas manifestações:

 

Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela


Eu achei que era ela puxando o cordão


Oito horas e danço de blusa amarela


Minha cabeça talvez faça as pazes assim


Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas


Eu pensei que era ela voltando pra mim


Minha cabeça de noite batendo panelas


Provavelmente não deixa a cidade dormir.(1) 

 

Mas o Chico Buarque não fora o profeta daqueles momentos senão o grande arauto de outro em que o país vivia sob o manto da ditadura e a mordaça da censura. E seu canto ajudou na preciosidade que foi a redemocratização brasileira.

 

Os paneleiros recentes, não os de que falava Chico Buarque, juraram que queriam afastar a corrupção do país. Levaram, todavia, a um país bem pior. Foi o apoio fundamental a um golpe travestido de “impeachment” desembocando em uma crise sem precedentes, sobretudo moral, a partir do principal mandatário que certamente Dante, na Divina Comédia, teria dúvida em que circulo do inferno colocar, porque aquele está para além dos traidores: uma presidência e seus ministros, aquele e estes em grande quantidade, sendo processados ou investigados. Um judiciário cada vez mais desacreditado, infelizmente; um legislativo que se comporta somente como um balcão de tenebrosas transações. A perda a cada dia de direitos fundamentais, como os trabalhistas, e a ameaça à aposentadoria. O aumento da gasolina e o gás de cozinha talvez na mesma proporção do aumento da corrupção. Sem falar em outras ações que o tempo demonstrará o tamanho do estrago.

 

Tudo isso podia ter uma aná- lise à crise econômica, ética e moral. Mas o que instiga é justamente o silêncio das panelas que recentemente repicavam noites e mais noites em protestos inconsequentes, sob o argumento que se estava lutando para extirpar a corrupção. E porque então o silêncio se a elite que dirige a nação é corrupta às escâncaras? Não se dizia que primeiro tiraria o PT e depois os outros? Onde andam os camisas amarelas? E porque as panelas não mais repicam? Enquanto isso, as panelas dos mais necessitados, sobretudo, estão ameaçadas cada vez mais ao vazio dos alimentos, da falta de perspectivas, até mesmo ao vazio de direitos que custaram tão caro para que fossem conquistados.

 

Infelizmente neste início de ano, ao analisar o saldo de 2017 o que ficaa patente é que foi o ano das panelas vazias e silenciosas. Pelo menos a certeza que a histó- ria é implacável. Como um carro alegre, atropela indiferente todo aquele que a negue. A lição é do poeta cubano Pablo Milanez. História que reservará ao lixo aqueles que pregavam uma moral que não possuíam.

 

“Pelas Tabelas” música de Chico Buarque de Hollanda. 

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