07/05/2018 as 09:52

Planejamento, a ciência do pensar o futuro, com a visão no desenvolvimento rural

Fernando de Andrade Engenheiro Agrônomo e Presidente da AEASE


Reconhecidamente, em tempos de escassez de recursos materiais, humanos e financeiros, mais do que nunca o planejamento deve estar na ordem do dia. Planejar é em essência romper com a lógica do improviso ou, ao menos, restringi-lo ao mínimo possível. Quando planejamos, estamos exercitando a nossa capacidade de pensar o futuro a partir de analises da realidade presente e da avaliação das experiências passadas, definindo onde se deseja chegar e que objetivos alcançar.


É sabido que com a sua prática, minimiza-se a possibilidade de erro. Diante da premência de satisfação das necessidades crescentes da sociedade em processo de aperfeiçoamento, cabe ao gestor, seja ele público ou privado, auscultá-la à luz das suas carências e demandas, planejar as ações, melhor definindo o caminho a seguir, estabelecendo prioridades, maximizando o aproveitamento dos recursos e aprimorando a capacidade de decisão.


Diante deste contexto, o que se esperar de uma atividade onde não há planejamento? É o que ocorre com o segmento agropecuário em Sergipe, onde, infelizmente, de há muito, não existe o pensar e muito menos acompanhar, controlar e avaliar as suas ações. Como consequência, falta o elaborar de estudos e projetos, de forma a alavancar recursos para o Estado, em áreas estratégicas, para maximizar o desenvolvimento rural.
Como nos demais estados brasileiros, principalmente os do Nordeste, Sergipe integrou na década de setenta, o Sistema Nacional de Planejamento Agrícola, estratégia formulada com o objetivo de estudar e equacionar os problemas da agricultura e do universo rural, orientando-se por ações que se baseavam no planejamento, que, à época, despontava como instrumento de trabalho de reconhecido valor para a promoção do desenvolvimento estadual.


De caráter inovador e diferente da atuação improvisada e desarticulada hoje adotada, as chamadas ações “apaga fogo”, o antigo modelo de planejamento buscava orientar-se pelo estudo e conhecimento sistemático da questão agrária, onde a ação pública pautava-se, essencialmente, pelo ordenamento da operacionalização de programas e projetos fundamentados no conhecimento científico e na integração interinstitucional, de modo que os investimentos viessem a ter mais efetividade junto ao público-alvo mais carente, usualmente fora do alcance dos serviços ofertados pelas instituições públicas.

Quem não se lembra da Coordenadoria Estadual de Planejamento Agrícola - CEPA? Unidade vinculada a Secretaria de Estado da Agricultura, criada nesse contexto, focada para identificação de áreas prioritárias, sintonizadas com as reais prioridades do universo rural sergipano, reorientando os investimentos. A CEPA teve como instituições de apoio, dentre outras, o Banco Mundial, Ministério da Agricultura, SUDENE, OEA e a FAO.

A rigor, o meio rural sempre viveu grandes transformações em sua dinâmica produtiva e social. Em maior ou menor escala, essas mudanças sempre ocorreram devido a intervenções, mais ou menos planejadas por agentes que estavam, de alguma forma, vinculados a esse universo denominado rural. Concomitantemente, ao longo do tempo, o conceito de desenvolvimento rural foi se transformando. Até a década de 1960, desenvolver era sinônimo de crescer. O desenvolvimento era mensurado pelas taxas de crescimento econômico. A partir da década de 1970, a nova concepção de desenvolvimento foi acrescida da dimensão social; desenvolver transcendia, portanto, a noção restrita de crescimento.


Nesse caso, estava em evidência a necessidade de se melhorar a qualidade de vida das populações, e isso se conjugava com distribuição de renda e melhoria nos serviços sociais. Em tempos atuais, o conceito de desenvolvimento vê-se associado aos princípios de sustentabilidade, como resposta à necessidade de se incorporar as preocupações contemporâneas com o meio ambiente às dimensões econômicas e sociais.


Portanto, uma política de desenvolvimento rural refere-se a um conjunto de ações articuladas entre si e dirigidas conscientemente por diversos atores sociais para produzir uma intervenção positiva em uma determinada realidade rural. Em situação de escassez de recursos e de tempo, o planejamento e o pensar estratégico, são ferramentas decisivas e indispensáveis para otimizar o uso de tais limitantes.


Cabe ao segmento agrícola, para fazer face aos desafios do mundo moderno e cumprir com eficiência a sua missão, faz-se mister mais do que pensar e planejar a atividade agrícola, incorporar procedimentos e práticas de inteligência estratégicas e gestão de riscos, no sentido de que responda com eficiência os desafios do universo agrícola, cada vez mais mutável, sendo imperativo incorporar a capacidade de antecipação e previsão de cenários futuros, minimizando os riscos e perigos da atividade.


A história de luta desencadeada pela AEASE, ao longo dos seus 68 anos de existência, em favor do profissional engenheiro agrônomo e a defesa da agricultura, nos credencia a fazer estes registros, não em tom de crítica pela crítica, mas no sentido de criar um ambiente favorável ao debate, à renovação de ideias, à reciclagem do conhecimento de seus associados, envolvendo a sociedade sergipana, na busca do aperfeiçoamento do processo produtivo e das políticas públicas.


“Assumir uma atitude responsável perante o futuro sem uma compreensão do passado é ter um objetivo sem conhecimento. Compreender o passado sem um comprometimento com o futuro é conhecimento sem objetivo.” (Ronald T. Laconte, Professor de educação pela Universidade de Connecticut, USA)