04/06/2018 as 10:00

EDITORIAL: E a gasolina? Quem paga a conta?

Os protestos dos caminhoneiros, com reflexos profundos na economia e turbulências que vão durar por meses, tratou de um tema que era de interesse da categoria: o preço do diesel.


Os protestos dos caminhoneiros, com reflexos profundos na economia e turbulências que vão durar por meses, tratou de um tema que era de interesse da categoria: o preço do diesel. A gasolina ficou de fora. O governo não tocou no assunto, a ponto de aplicar um reajuste em pleno caos causado pela parada dos caminhoneiros. E foi esse reajuste inoportuno que certamente levou o presidente da Petrobras, Pedro Parentes, a pedir demissão.

Todo mundo sabe que a saída de Pedro Parente da Presidência da Petrobras colocou em foco a política de preços da estatal. Não é possível suportar reajustes quase diários e o preço do combustível batendo na casa dos R$ 5,00. A política de reajustes ajudou na recuperação da estatal, mas gerou aumentos sucessivos para o consumidor final.

O que está claro é que a atual política não é compatível com uma empresa que detém o monopólio, que deve seguir um plano de abastecimento do país e não de pagamento de dividendos para acionistas. Não se deve tabelar, mas aumentos progressivos são inaceitáveis.


Especialistas defendem uma alteração progressiva dos preços, mas em prazos que devem se aproximar de 30 dias. Essa decisão, inclusive, foi oferecida aos caminhoneiros, apesar de ser temporária.


Não é justo vincular os preços a uma política de governo, seja para conter a inflação ou para atender acionistas. O que se vê é a Petrobras perder valor de mercado e prestígio internacional, a queda no valor da empresa acaba também prejudicando a sociedade brasileira e a própria economia.

A Petrobras precisa ser mais transparente e abrir seus tentáculos ao capital privado. Deve manter, sim, o monopólio de serviços estratégicos, mas é salutar que outras empresas passem a atuar no mercado de petróleo no Brasil de forma mais ampla.
Desde 2016 a Petrobras segue uma política de variação do preço dos combustíveis que acompanha a valorização do dólar e o encarecimento do petróleo no mercado internacional. A variação dos preços dos combustíveis é o principal alvo da manifestação dos caminhoneiros.

Com os reajustes, no início de maio a Petrobras anunciou um crescimento do lucro líquido de 56,5% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano passado, atingindo R$ 6,96 bilhões. O crescimento expressivo surge depois de quatro anos seguidos de prejuízos e de um processo de reestruturação e de redução do endividamento da companhia, que teve início após as denúncias da Operação Lava Jato.


O Brasil torce para a recuperação da estatal, mas é preciso achar um meio termo: saneamento da empresa sem onerar tanto o combustível. É preciso criar uma forma de previsibilidade dos preços ao consumidor, o que não é cabível é ser surpreendido com reajustes praticamente diários.


O saneamento da empresa deve prosseguir, mas com a sensibilidade necessária em relação aos impactos da política de preços na vida cotidiana dos brasileiros.