05/06/2018 as 09:58

Editorial: Repensar o sertão

A publicação apresenta nove propostas que podem transformar o Semiárido brasileiro.


Como 2018 é ano de disputa eleitoral para a Presidência da República e os governos estaduais, será necessário colocar em pauta o Nordeste, enfocando especialmente o Sertão, região que se faz presente nos nove Estados (Sergipe, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão) e ainda em Minas Gerais (no Sudeste brasileiro), todos na área de abrangência da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).


Será preciso que todos os candidatos à Presidência e aos governos estaduais da região manifestem posições claras sobre o que pensam sobre o sertão nordestino e quais políticas desenvolvimentistas podem ser adotadas por aqui para dar fim ao atraso e à miséria.


O livro “Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?” conta a história de mais de cem anos de políticas para a seca na região. Foram feitos muitos investimentos desordenados e que melhoraram pouco as condições de vida dos nordestinos, mas não resolveu problemas como a falta de água e o abastecimento via caminhões-pipa, uma imagem muito representativa de anos e mais anos de vidas secas.

A publicação apresenta nove propostas que podem transformar o Semiárido brasileiro. São elas: desenvolver um robusto aparato de tecnologias hídricas (lembrando sempre que a água é o principal motor de desenvolvimento de uma região); priorizar a irrigação, não apenas o armazenamento de água; gerenciar a seca e minimizar os prejuízos; descentralizar a gestão das políticas para a seca (as elites políticas e econômicas do Semiárido brasileiro se beneficiam com a seca e não querem transformação);

incentivar uma economia inovativa e sustentável (o Nordeste concentra 28% da população e apenas 15% do Produto Interno Bruto nacional); promover diálogo (de fato!) entre ciência e política (em mais de um século de iniciativas para a seca no Semiárido houve diversos avanços científicos e tecnológicos que podem subsidiar as políticas públicas na região); possibilitar capilaridade às políticas bem-sucedidas (a escala das políticas hídricas no Semiárido ainda é limitada); investir na geração e democratização de conhecimentos (o Semiárido brasileiro, onde vivem quase 28 milhões de pessoas, é marcado por um conjunto de vulnerabilidades que limitam seu desenvolvimento sustentável); e distribuição justa dos benefícios da energia sustentável (as energias sustentáveis tornaram-se foco dos investimentos de empresas no Semiárido brasileiro, especialmente as fontes solar e eólica).

A mais recente seca e que durou quase seis anos (de 2010 a 2016) foi das mais graves da história e muito nos ensinou. Centenas de municípios nordestinos decretaram situação de emergência junto à Defesa Civil.

Mas vale lembrar que no período de 1995-2014 os prejuízos privados provocados por desastres naturais na economia do Nordeste brasileiro foram estimados em R$ 43 trilhões. Esse valor corresponde a cerca de 37% do total nacional nessa categoria e abrange os setores da agricultura, pecuária, indústria e serviços. Já o total de prejuízos públicos foi mensurado em torno de R$ 9 trilhões, percentual alarmante na região, que representa aproximadamente 48% do valor estimado em todo o país. Desse total, a maior parte, que corresponde a cerca de 75%, está diretamente relacionada às estiagens e secas que constantemente afetam a região.
O Nordeste tornou-se um polo da energia eólica do Brasil. Em 2015, a região representava 75% da produção nacional nesse setor. Em 2017, a geração de energia eólica chegou a abastecer 60% da demanda regional. Há, no mesmo espaço, uma mistura de elementos antigos/atrasados, com modernas tecnologias.


O Semiárido do futuro vai depender de quais dos caminhos serão escolhidos e de como a população irá participar da construção desse projeto. Há apenas uma única certeza: o processo de transformação da região envolve mudanças nas dimensões política, econômica, educacional, científica e tecnológica, com justiça social e conservação ambiental.


Os temas estão aí postos. O Nordeste pode ser a grande pauta para o Brasil e, principalmente, para os sertanejos em 2018. Basta a gente querer e cobrar.