13/06/2018 as 10:16

Greve de faz-de-conta nem faz nem conta

Paulo José Cunha é professor, jornalista e escritor


A greve dos caminhoneiros foi a mais bem-sucedida manifestação da nossa história recente. Ao cruzar os braços e bloquear as rodovias, os caminhoneiros imobilizaram o país, puseram o governo de cócoras, impuseram suas reivindicações e ganharam até mais do que exigiram. Tudo por uma razão simples, direta e óbvia: não tiveram receio de causar prejuízos.

Sim: prejuízos. Ah, mas houve exageros! Sim, e muitos. Como os riscos impostos a quem estava internado em hospitais dependendo de medicamentos retidos nas estradas. Ou de insumos básicos para cirurgias ou procedimentos como hemodiálises. Deveria ter havido mais cuidado para evitar tais riscos. Eram vidas que estavam em jogo. Ainda assim, a manifestação causou prejuízos. Doeu nos calcanhares de quem precisava doer. E dessa forma alcançou os resultados almejados.

Greve que não dói é fake
Paralisações de trabalhadores são recursos extremos destinados a causar algum dano ou fazer com que a sociedade se torne parceira de suas reivindicações. Greve de faz-de-conta nem faz nem conta. No setor privado, paralisações influem diretamente nos lucros dos patrões. Por isso funcionam.

Mas as paralisações no setor público, como as de professores e estudantes, têm pouco ou nenhum impacto social, reduzido impacto político e nenhum impacto econômico. Raramente atingem seus objetivos e seus efeitos e, ao contrário, se voltam contra os próprios grevistas.  Calendários de aulas são abalados, com perdas irremediáveis à formação dos estudantes. Quem atua na área sabe que reposição de aula é meia-sola. Não repõe um décimo das perdas. Sem falar no contrassenso de se deflagrar uma greve já admitindo a reposição. Como se dissessem: – Olha, nós vamos parar mas prometemos compensar as faltas e deixar tudo arrumadinho! Professores e alunos sofrem com a desorganização de agendas pessoais e familiares. Os estudantes aderem às paralisações na crença de que estão participando de uma atividade política que vai sensibilizar as autoridades do setor educacional do município, do estado ou do país. E, na verdade, sensibilizam bem pouco, porque poucos se sentem efetivamente atingidos. Na última paralisação de professores e estudantes da UnB indaguei a alguns parlamentares sobre a greve. Poucos sabiam sequer que a universidade pública da capital da república estava parada.

Já viu índio ocupando oca de cacique?
Não há quem se oponha neste momento à pauta de reivindicações dos professores e estudantes, sobretudo o corte de recursos fundamentais ao funcionamento das instituições. São reivindicações mais do que justas. Justas e urgentes. Devem, sim, ser defendidas com todo o vigor. O que se questiona é a FORMA das manifestações e sua pouca ou nenhuma efetividade. Ultimamente institucionalizaram-se as chamadas “ocupações”, que igualmente têm efeito discutível na sensibilização das autoridades responsáveis, pelo fato de ocuparem o lugar errado, como as reitorias. Nunca se viu índio ocupar oca de cacique para exigir demarcação de terras. Índio ocupa é o escritório da Funai. Atrai mídia e chama a atenção das autoridades. Da mesma forma, estudantes e professores acampados em frente ao MEC durante três dias teriam muito maior visibilidade do que um mês ocupando a reitoria de SUA universidade. É duro ter de admitir, mas depois de pouco tempo ninguém se dá conta de que a universidade está ocupada.

As greves precisam se reinventar
As greves do setor público precisam passar por um upgrade e se reciclar, se revisar, se reinventar. Vamos a alguns exemplos. Quando realizam operações-padrão nos aeroportos, policiais federais reinventam o instituto da greve. Não param de trabalhar, pelo contrário, trabalham em dobro. E, portanto, não podem ser acusados de negligência. Mas criam um enorme problema ao desnudar a falta de estrutura para a realização de uma revista em profundidade nas bagagens dos passageiros.

Ônibus rodando com as catracas liberadas dão prejuízos enormes aos patrões, mas os motoristas ganham o apoio da comunidade. Já tive notícia de países onde professores se mantêm trabalhando mas não enviam as notas à direção das instituições. Com isso, não podem ser acusados de preguiçosos, a formação dos estudantes não é atingida e eles se solidarizam com as causas dos mestres. Claro que cada caso é um caso e devem ser analisadas todas as condições para a aplicação de uma forma alternativa como as listadas acima. Há enormes questões jurídicas a serem avaliadas. Certo é que, com imaginação e atrevimento, é possível inaugurar novas e eficazes formas de pressão. É só botar a cachola pra funcionar.