04/07/2018 as 10:23

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Republicanismo às avessas: o caso Brasil


A República desembarcou em terras tupiniquins no final de 1889. Num país em tão tenra idade perto dos “colegas” europeus, a mudança poderia ter proporcionado uma nova maneira de qualificar a administração a serviço do interesse de todos, do bem comum, do “público”, como o próprio nome o define, deixando para trás a monarquia e o imperialismo. Mas em que momento de nossa história o significado puramente republicano se perdeu? Por mais que a palavra “República” tenha sido exaltada ao longo dos tempos e fielmente preservada nos livros de história, o verdadeiro sentido do termo jamais foi alcançado, perdendo-se já no final do século 19 e se configurando, no lugar do utópico sistema a serviço de todos, em um governo oligárquico, excludente e sem a mínima sensibilidade para questões sociais e humanitárias.

No artigo “Por onde anda a República? A história de uma tradição esquecida”, publicado pelo Nexo Jornal, a historiadora e cientista política Heloísa Starling faz uma viagem pelos quatro séculos que separam as primeiras discussões em torno de um novo sistema a ser instaurado no país e sua efetiva implantação.

A historiadora lembra que frei Vicente do Salvador, baiano, franciscano e apontado como o pai da historiografia brasileira, questionava frequentemente como seria possível colocar em prática no território da colônia a ideia do zelo pelo bem comum, pelo patrimônio coletivo de seus habitantes. Nada poderia ser mais atual do que esse questionamento.

Em seu livro Historia do Brazil, frei Vicente defendia a tese de que não é possível evitar que os indivíduos sigam exclusivamente seus próprios interesses se no caminho deles o projeto de colonização tem natureza predatória. Para ele, “nenhum homem nesta terra é repúblico, nela zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular”. E de que forma isso difere do que vemos hoje no mesmo Brasil, séculos depois?

Vivemos momentos instáveis, não só no Brasil, como no mundo inteiro. Nossas sociedades estão dominadas pelo pragmatismo, imediatismo e materialismo, que deveriam servir para resolver apenas o lado prático do ser humano, mas que hoje dominam as ações em diversas esferas. Em que parte do caminho nossos governantes deixaram de pensar no bem comum para se preocupar apenas com o bem particular? Em que momento a corrupção foi se instalando deixando de lado a preocupação com o coletivo pelo enriquecimento ilícito? Talvez a resposta seja a que menos gostaríamos de ouvir, e uma nova pergunta: será que algum dia os governantes trabalharam essencialmente em favor do bem comum?

Essas atitudes não são exclusivas das esferas do poder. Vivemos em uma sociedade que opta, preferencialmente, pelo mais fácil, pelo que dá retorno individual em primeiro lugar, o que, muitas vezes, ajuda apenas um em detrimento de vários. E o ser republicano acaba se perdendo pelos anos gerando uma década perdida atrás de outra.

Vivemos uma crise sem precedentes, que se espalha pela política, pela economia, pela área social. Mas momentos de crise são também oportunidades para uma reflexão profunda, para buscarmos respostas e novos caminhos para sair do turbilhão.

Talvez o caminho seja a construção de um pacto social, onde diferentes atores da sociedade, com pensamentos distintos e ideologias muitas vezes opostas se unam em defesa do bem comum. A esperança de uma pequena chama que se acende na esperança de reformar a mentalidade perversa de uma sociedade individualista e carregada de más atitudes e péssimas decisões. E não é utopia.

Recente estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresenta quais caminhos o Brasil precisa trilhar até 2035 para que consiga chegar em 2100 como uma sociedade livre, justa e solidária. O resultado está na publicação “Brasil 2035, Cenários para o desenvolvimento”. De acordo com o trabalho, apenas um amplo pacto social seria capaz de levar o Brasil a transpor os obstáculos que aguardam o país no período. Ou seja, apenas unindo o pensamento coletivo em detrimento do individual é que seria possível mudar essa realidade.

A saída precisa ser coletiva, e o que impulsiona as mudanças deve ser o pensamento pelo bem comum, a necessidade de fazer crescer nas atitudes individuais a importância das decisões pela coletividade.

Hoje, o republicanismo existe apenas na linguagem que se utiliza para defender um modelo que há muito deixou de ser realidade para todos. Quando se precisa combater ideias e ações que flertam com o autoritarismo, aí então surge a linguagem republicana. Mas a República ainda está aí e é dever de todos lutar pela coletividade, deixando o individualismo de lado e pensando no bem comum. Não custa ter esperança.

Glauco Humai/ cientista político