06/07/2018 as 08:07

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Populismo sem povo 2: nojo e descaso das elites brasileiras

No artigo da semana passada, tratei do populismo e de algumas das suas consequências para a nação.


No artigo da semana passada, tratei do populismo e de algumas das suas consequências para a nação. Chamei de espiral populista o fenômeno em que tendências populistas provocam efeitos negativos que têm a capacidade de se encadear e sustentar mutuamente, gerando uma demanda ainda maior por líderes populistas, como resultado.


Dentre as dez principais tendências que ameaçam o fortalecimento da sociedade civil no mundo, do Relatório Anual da Civicus 2018, duas se expressam fortemente no Brasil: a polarização política, dividindo sociedades, e o surgimento de  líderes políticos que estabelecem regras próprias, o que enfraquece as instituições democráticas e, consequentemente, o poder do povo.


Alguns desses elementos estão ligados ao desespero e a compulsão pela solução rápida que brota no seio das classes populares em momentos de crise. A perda do emprego, do poder aquisitivo, do acesso a serviços e direitos, ou ainda o desamparo pela falta de representação política real, são fatores dos mais relevantes para essa equação.


Outros, no entanto, são uma reação quase primal ao deboche e desprezo com que o escol nacional trata suas baixas classes médias. Sempre rotuladas, são os “emergentes” dos tempos das vacas gordas, os “fundamentalistas” das igrejas evangélicas, os “alienados” que assistem a jogos de futebol e novelas na Tv, os “idiotas úteis” dos movimentos políticos e sindicatos, ou simplesmente aquelas pessoas “de mau gosto” que ouvem música sertaneja, tomam cerveja barata e adoram o sensacionalismo dos memes da internet.


A fonte da ridicularização não se distingue pela posição no arco ideológico. Seja de esquerda, direita ou centro, a elite não suporta a ideia de que democracia considere o voto do povo, como se ele tivesse vontade própria. A única expressão tolerada dessa opinião é aquela debaixo da influência da sua formadora “preferencial”, no caso, a própria elite. Para resumir, intelectuais, governantes e patrões não somente acham que podem decidir por todos, mas constantemente jogam isso na cara daqueles que raramente têm voz.


Se você não tem visto nada disso acontecer, que tal dar uma olhada nos quadros principais do último episódio do programa Zorra, da Rede Globo? Menções diretas a personagens idiotizados que repetem “bandido bom é bandido morto!” e “na época dos militares…” podem até ser aquelas belas intenções das quais o inferno está cheio, mas revelam também a incapacidade das nossas elites em educar e dividir.


No tripé desespero-impotência-confronto se apoiam os regimes populistas desde o nascedouro. A identificação do inimigo comum externo é um dos seus marcos distintivos. Em ambiente de polarização política extrema como o nosso, florescem as ofertas de “pacificação” pela força. Na prática, isso significa excluir os que não pensam da mesma forma. O que a população excluída desse jogo pode entregar, pelas mãos de líderes fortes, ao futuro do país, não terá sido mais negativo do que vêm recebendo ao longo dos últimos anos.


Nesse aspecto, a situação ainda pode piorar bastante e ameaça frontalmente a nossa democracia. As eleições desse ano poderiam me deixar mentir, e torço para que isso ocorra, mas confesso, lá no fundo, sinto que não será o caso. O ambiente conturbado da nossa política e economia, infelizmente, é dos mais propícios para o desastre.


A intervenção militar começa a aparecer como bandeira desse dito lado de baixo da cultura nacional. A reação das elites? Reproduzir incessantemente o preconceito que o problema do Brasil é o brasileiro, pobre e ignorante. Ela não se importa minimamente em liderar processos de transformação, nem tampouco com as causas mais profundas do que está sendo dito. Afinal de contas, “esse povinho bem merece os governos que tem”. Um país tão desigual e que tem elites absolutamente míopes está fadado a ser berço de injustiças e criadouro de “redentores”.


Para além de relativizar o embrutecimento das camadas mais populares da população, postas a seu serviço como num passe de mágica, populistas sabem bem que as elites de outrora sempre dão aquela ajudinha que falta para a instauração de novos regimes de exceção.

 

Tom Barros é fundador do Observatório Social de Brasília