12/07/2018 as 07:52

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Na confusão do Judiciário, a vitória da derrota


Quem ganhou e quem perdeu no domingo que sacudiu a política brasileira? No teatro de absurdos que transformou magistrados em lutadores de telequete, o Judiciário foi arrastado para a lama de vez. A Praça do Três Poderes afundou sob o olhar assombrado da patuleia.


O PT conseguiu marcar um gol na derrota. Esperou o recesso para colocar o pedido de soltura de Lula nas mãos de Favretto. Jogada ensaiada, obviamente. Vale também. Moro cansou de marcar gols em jogadas assim com a Globo e com seus companheiros do TRF4.


Não havia esperança de que o ex-presidente ficasse muito tempo solto. Se tivesse saído, Lula voltaria provavelmente no dia seguinte. Seria um fato político que repercutiria no mundo. Algumas horas de declarações que fortaleceriam o muro que o partido tenta erguer em volta dos votos lulistas.


Não iria além disso. Quem conhece Luiz Inácio sabe que o petista dificilmente cederia aos apelos para que fugisse e se refugiasse numa embaixada “amiga”.


O desfecho foi mais uma derrota da defesa de Lula, apesar do gostinho de vitória. Fustigar o inimigo num cenário de imensa defensiva mantém a tensão e o combate vivo.


O Judiciário teve uma vitória com gosto de derrota. Moro atuou como militante afoito do movimento estudantil. Errou feio no seu “ativismo ideológico”. Os neopositivistas de Curitiba e Porto Alegre foram dormir abraçados com o rei Pirro.


O presidente do TRF4 e o relator do caso expuseram as vísceras da parcialidade. O pavor de ter Lula livre, mesmo que por algumas horas, foi um “recibão”.


O STF assistiu tudo meio escondido, como o Joselino Barbacena da escolinha do professor Raimundo: “Já me descobriu eu aqui de novo, sô?”
O povo apenas contemplou a torre de babel. Um terço quer Lula livre. Um terço quer Lula preso. O outro terço quer todos presos. O eleitor médio olha a política e as instituições com cada vez mais desesperança.


Bolsonaro é o outro vitorioso da derrota de domingo. A radicalização eleva a tensão social, aprofunda os conflitos e joga a disputa eleitoral para os pólos. O Capitão, jogando certinho, fez um pronunciamento curto e grosso sobre o episódio.


Marina deu uma declaração envergonhada de apoio à Lava Jato. Alckmin se posicionou na centro-direita sem ataques diretos ao PT, agarrou-se à defesa da democracia e da ordem. Ciro fez uma fala na centro esquerda, defendendo princípios, sem fulanizar.


O tucano e o pedetista disputam o apoio do Centrão, tentam conquistar o eleitor médio e pescam votos na direita e na esquerda, respectivamente. Qualquer escorregão quando a temperatura sobe pode custar caro.


Manter Lula vivo é decisivo para que o PT prepare o desembarque do lulismo no plano B quando a hora chegar, evitando a dispersão. O fato criado atendeu a este objetivo. Os ataques ao suposto silêncio de Ciro são parte da estratégia de manter o “cercadinho do lulismo” forte.


O Partido dos Trabalhadores mira num segundo turno entre seu plano B e Bolsonaro. Uma aposta de alto risco com consequências imprevisíveis. O fascista sonha com o mesmo. Um cenário possível que, caso se concretize, levará a uma avalanche de “não votos”.


Neste jogo, o Brasil segue derrotado, um país dividido, em frangalhos. Faltando cerca de 30 dias para o desfecho das chapas que disputarão as eleições, o dia 7 de outubro vai ganhando ares de uma simples escala rumo a uma crise que parece estar muito longe do fim.

Ricardo Cappelli/ Ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)