27/07/2018 as 07:27

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Desconfie de tudo e de todos. Mas, principalmente, dos mesmos

Ainda há quem estranhe o desinteresse demonstrado nas últimas pesquisas do eleitorado em relação à eleição de outubro.


Ainda há quem estranhe o desinteresse demonstrado nas últimas pesquisas do eleitorado em relação à eleição de outubro. Fácil: o eleitor cansou, enjoou, está exausto com os métodos políticos de sempre, apoiados nas mentiras de sempre, na prioridade do interesse pessoal frente ao interesse público de sempre, nos privilégios dos detentores de mandatos de sempre, sem falar nas falcatruas que todo dia são despejadas por potentes lava-jatos nas telas das TVs e nos jornais. A paciência esgotou.

 

O saco encheu, lotou, transbordou


E não se debite na conta dos brasileiros a falência do sistema eleitoral que emergirá das urnas de outubro. Esse desinteresse, na verdade, é um bom sinal. Demonstra que o povo acordou e consegue ver a realidade política com mais ceticismo, desconfiado das promessas de sempre, feitas pelos “líderes” de sempre. Está provado que confiança exagerada e permanente em lideres políticos – de qualquer matiz ideológica – não presta pra coisa alguma. O maior amigo do eleitor não é o político de sua confiança, mas o ceticismo que pode ajudá-lo a tirar os antolhos e ver a realidade na sua inteireza. Só a classe política, encastelada em sua redoma de conforto, ainda não se deu conta de que, se os métodos de condução do poder, de exercício dos mandatos e do usufruto dos privilégios não passar por uma reforma profunda, a situação só tende a piorar.


Na última coluna, citávamos o paradoxo dos que dizem combater a corrupção e são os primeiros a se utilizar de métodos corruptos na disputa do voto. E o eleitor, desavisado, aceita conviver com tais práticas na base do “não se pode fazer nada, é assim porque sempre foi assim, política é assim mesmo, não tem como mudar”. Pois tem. Pois deve. Pois precisa mudar.

 

Ir-res-pon-sa-bi-li-da-de


Impossível admitir que a classe política, a quem caberia em primeiro lugar dar o bom exemplo de austeridade em relação ao dinheiro dos impostos dos contribuintes, rasgue descaradamente maços e maços de notas num plenário cercado por câmeras de televisão. Foi o que aconteceu no apagar das luzes antes do recesso, quando nossos dignos (ou indignos) representantes aprovaram pautas-bombas que jogam na fogueira alguma coisa próxima dos 100 bilhões de reais, com a criação de novos municípios, autorização para reajustes de salários e isenções que simplesmente não cabem no orçamento de um país que há muito tempo está no cheque especial. O nome disso é ir-res-pon-sa-bi-li-da-de. E o eleitor está percebendo. Embora se justifiquem dizendo que tais medidas vão beneficiar o povo, é bom lembrar que governar rima com educar. O bom pai sabe que, por ser bom, tem às vezes de dizer não aos filhos. O bom governante igualmente precisa ter a coragem de aplicar o remédio amargo, quando isso é necessário, mesmo que isso lhe custe desgaste e impopularidade. Ninguém gosta de tomar injeção, porque dói. Mas o médico sabe que será xingado até o dia em que o paciente retornar ao consultório para lhe agradecer pela injeção que o curou.

 

Desconfie. Desconfie. Desconfie


O economista Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda de Bolsonaro, aconselhou-o a incluir a reforma da previdência em seu programa de governo. O capitão-candidato concorda que a reforma é necessária, mas já avisou que vai se posicionar contrariamente durante a campanha para garantir os votos. Aí, se for eleito, vai por a reforma em pauta. Ou seja: desde a largada, o candidato já assenta sua campanha na mentira. Uma prática antiga e que não tem ideologia. Dona Dilma dizia que na campanha “a gente faz o diabo pra ganhar os votos”. Na última, reduziu o valor das contas de energia e depois de eleita teve de elevá-las pra cobrir o rombo. Outro dia, o rico presidente do Senado, Eunício Oliveira, pegou um jatinho da FAB e foi ao seu Ceará tratar de assuntos particulares. Citei uns exemplos bem simples. Mas, como explicar que cada senador disponha de um caminhão de dinheiro para pagar salários aos mais de cem servidores, muitos deles fantasmas “conhecidos” porque nem aparecem no gabinete pra receber o salário, depositado diretamente em suas contas bancárias, como mostrou uma reportagem muito boa feita pela Globo News? Quando o Senado ainda era no Rio de Janeiro, cada senador tinha dois funcionários. Dois. Vou repetir: dois.


Claro que o eleitor está desencantado. Claro que está desinteressado. E claro que corre o risco de enveredar pelo caminho mais fácil: o de acreditar num desses líderes de ocasião, que sempre aparecem nessas horas. Um bom antídoto para isso é ceticismo. Na veia. Como se diz no WhatsApp, divulgue esta mensagem, passe pra frente. Ceticismo não vende em farmácia. É remédio caseiro: basta desconfiar. De tudo e de todos. Mas, principalmente, dos mesmos.

 

Paulo José Cunha
professor, jornalista e escritor