31/07/2018 as 07:55

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As fake news, a Enterprise e o blá-blá-blá das “otoridades”

Todo dia alguma “otoridade” política ou jurídica aparece advertindo para os danos das fake news.


Lá na década de 80 o cacique Mário Juruna, aquele que andava de gravador em punho registrando as promessas que ouvia das autoridades de Brasília, não se conformava com a lentidão do processo legislativo. No cafezinho, nós, jornalistas, cercávamos o primeiro e único deputado índio da história do Brasil para ouvir dele as reclamações contra os discursos intermináveis em contraste com tão poucas votações. “Todo dia mesma coisa: fala, fala, fala. E nada. Depois fala, fala, fala de novo. Nada. Juruna pergunta: pra que fala tanto? Por isso Juruna diz: para de falar e vota! Fala serve nada, voto que serve!”


No que se refere ao combate às fake news, cujo potencial é capaz de comprometer o processo eleitoral a ponto de anular uma eleição, como advertiu o presidente do TSE, ministro Luis Fux, a indignação de Juruna cai como uma luva. Todo dia alguma “otoridade” política ou jurídica aparece advertindo para os danos das fake news. Um fala-fala-fala sem fim. Mas esse é o mal desse povo: muita galinha e pouco ovo. Ou seja: concretamente, quase nada tem sido feito para enfrentar de forma efetiva a pior praga digital desde o surgimento dos vírus de computador na década de 70. Se depender dessa gente, vamos continuar condenando o crime sem fazer nada para que ele deixe de ser praticado. A proverbial lentidão do judiciário brasileiro, que se move a passo de mula, é impotente para concorrer com as toneladas de mentiras circulando nas redes sociais a bordo da Enterprise, a nave espacial da série Star Trek que viajava à velocidade da luz.


Por isso, caíram como maná no deserto as notícias de que tanto o WhatsApp quanto o Facebook começaram a adotar medidas destinadas a neutralizar o poder de devastação das mentiras disparadas pelos meios digitais. O Facebook anunciou que baniu 196 páginas e 87 contas do MBL - Movimento Brasil Livre, a organização de direita que está por trás da campanha do capitão Bolsonaro à presidência da República. O próprio presidente do PSL, partido de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, pediu aos integrantes do partido que evitem a divulgação de fake news, lembrando que as punições pela justiça eleitoral podem chegar à cassação do registro de candidaturas. Pra ter feito tal recomendação, deve ter se dado conta de que os partidários do capitão andam exagerando na dose das mentiras digitais. Ainda há pouco foi posta a circular pelo WhatsApp uma fake com a informação de que Bolsonaro lidera a corrida eleitoral em todos os estados, sem exceção. A fake trouxe percentuais com a relação entre Bolsonaro e Lula, como se os demais candidatos não tivessem apoio algum. Além disso, a mensagem contém erros tão grosseiros que um pouquinho de bom senso já desmascara a farsa. Em São Paulo, por exemplo, Bolsonaro teria 71,47% de intenções de votos contra 37,27 de Lula. Uma soma simples dá conta que os dois percentuais perfazem o total de... 108,74%! Fora o fato de que em estados onde o PT tem maioria há muitos anos, como o Piauí, Lula aparece com apenas 18,45%. A propósito, uma pesquisa do Instituto Opinar, do início de julho, colocava Lula com 65% no Piauí. Indaguei ao remetente da mensagem, bolsonarista convicto, de quem era a pesquisa. Respondeu que não sabia, mas achava importante passar pra frente porque “em campanha a gente não liga para esses detalhes”. Y así pasan los dias.

 

Quem passa pra frente pode ser passado pra trás


O próprio WhatsApp, além de anunciar que está patrocinando pesquisas acadêmicas sobre as fake news, passou a adotar um procedimento profilático: toda mensagem repassada passou a ser marcada com a expressão “Encaminhada”. O objetivo, claro, é identificar a origem de informações fake, para permitir o rastreamento até chegar ao autor. E identificar quem repassa informações maliciosas a fim de oferecer à justiça elementos para aplicação de punições.


Todas as iniciativas esbarram na necessidade da preservação da liberdade de expressão para coibir censura ou discriminação. E é evidente que o Facebook precisa adotar o mesmo procedimento que adotou em relação ao MBL aos grupos de esquerda. As fake news estão em todo o espectro ideológico. O certo é que as redes sociais estão se mexendo. Enquanto isso, a justiça eleitoral ainda não ofereceu uma única providência concreta no enfrentamento das fake news. Sequer, como seria óbvio, a instituição no período eleitoral de um rito sumário para a investigação, indiciamento e punição de autores e repassadores de informações maliciosas.

 

Na Pindorama de Juruna, só fala, fala, fala...


O presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, confessou que a rede não tinha como lidar com as fake news nas eleições norte-americanas de 2016. E completou: só no fim do ano que vem, 2019, a plataforma estará pronta para enfrentar a disseminação de boatos. E somente em três anos terá sido adaptada para administrar problemas de conteúdo e de segurança. E olha que eles estão correndo!
Enquanto isso, aqui no quintal de Pindorama, as principais autoridades envolvidas com o problema, como diria o índio Juruna, só falam, falam, falam. Mas, de concreto mesmo, até agora necas de pitibiribas.

 

Paulo José Cunha
é professor, jornalista e escritor