02/08/2018 as 08:55

O Brasil no espelho do funk

Assim como (presumo) 99% dos refinados leitores do Congresso em Foco, nunca tinha ouvido falar do cantor de funk.


Um acaso me levou dia desses a assistir um show do MC Kekel. Assim como (presumo) 99% dos refinados leitores do Congresso em Foco, nunca tinha ouvido falar do cantor de funk. Paulistano, Kekel adota uma linha mais romântica, inspirado na antiga dupla Claudinho e Bochecha, e alguns de seus vídeos já têm mais de 200 milhões de visualizações. As novinhas que invadiram a pista quando o cantor subiu ao palco indicam que a moral dele tá em alta no meio.

Nunca tinha assistido a um show de funk e o que vi era de uma indigência a toda prova. Kekel, que de longe parecia um clone do Ronaldinho Gaúcho, cantou suas músicas por uns 20 minutos em cima de uma base pré-gravada que parecia se repetir ad aeternum. Sua performance em cima do palco era tão empolgante quanto um discurso de Geraldo Alckmin. Por sorte, não entendi uma palavra do que ele cantou, pois o MC paulistano faz parte de uma tradição de artistas do gênero que: a) ou são fanhos; b) ou tem a língua presa, c) ou simplesmente não sabem cantar; d) ou todas as alternativas anteriores.

Promessa e decepção
Enquanto suportava a minha via crúcis musical, fiquei pensando da minha decepção com o funk. Quando mais jovem, acreditava que o estilo nascido nas favelas cariocas poderia tornar-se a principal contribuição brasileira para a música pop eletrônica mundial. Nascido de uma autêntica prática antropofágica, canibalizando influências do Hip-Hop, do Miami Bass e até do EBM, o funk carioca era não só dançante e alegre como fazia parte de toda uma cultura autêntica nascida na periferia. É só lembrar o Rap da Felicidade (“eu só quero é ser feliz / andar tranquilamente na favela em que nasci”) para entender o quanto o estilo era promissor.

Mas, os anos se passaram e a promessa nunca se concretizou. O funk abdicou de qualquer ambição estética e, a se levar em conta o que anda tocando nas rádios atualmente, parece eternamente fixado na fase anal, com as letras versando sobre um mesmo tema: a-novinha-que-rebola-até-o-chão. Musicalmente, tudo se parece, seguindo as tendências minimalistas da música contemporânea: a batida do tamborzão, o vocal e um ou outro elemento melódico. E dá-lhe chão!, chão!, chão!


O funk opera com uma lógica similar à da exploração mercantilista na época colonial: ao visar apenas o lucro fácil e imediato, dedica-se a promover apenas uma sequência de hits e artistas descartáveis. Não há investimento em pesquisa de novos timbres, batidas, temas; não há espaço para a experimentação nem para artistas que queiram desenvolver uma obra. Assim, o gênero vai intercalando períodos de sucesso e de ostracismo, sem nunca romper ou superar seu modo de produção predatório. Parece familiar? A tragédia do atraso brasileiro segue seu caminho ao ritmo do tamborzão.