31/08/2018 as 11:13

ARTIGO

O que a Educação brasileira pode aprender com a Ásia?


 

Matheus Batalha Moreira Nery [*]

 

Imagine que você está assistindo a um jogo de cartas. Na mesa estão sentados os principais formuladores de políticas públicas em educação de diversos países. Em vez de receberem cartas de baralho comuns, os jogadores recebem um série de fatores que compõem a história, a demografia, a cultura, a economia, e a disponibilidade de escolas e universidades para superarem os desafios educacionais correntes em seu país.

Esses fatores fazem parte do arcabouço de dados que devem integrar o processo de tomada de decisão em políticas públicas. Assim, os agente públicos, em posse de suas cartas fatores, precisam decidir como jogar o jogo. Eles devem esboçar e implementar estratégias a longo prazo que ajudem o seu país a superar seus desafios.

É possível que um jogador receba ótimos fatores, mas não consiga desenvolver uma estratégia coerente para desenvolver a educação de seu país e deixá-la estagnar. Por outro lado, também é possível que os fatores não sejam animadores, mas o formulador consiga traçar uma estratégia ampla e astuta para avançar as ambições de seu país.

A mesa desse jogo de cartas fatores é a arena internacional. É nela que analisamos quem conseguiu avançar em seus desafios educacionais. Atualmente, a educação brasileira passa por um momento complexo. Foram feitos cortes em áreas importantes, como financiamento estudantil universitário (FIES), e em investimentos em pesquisa científica.

Quando olhamos os fatores de nosso país, vemos que o quantitativo de jovens entre 18 e 24 anos que estão matriculados em cursos universitários corresponde a apenas 18,1% da população nessa faixa etária. Considerando o quadro atual, em que 18.697.083 de jovens não estão matriculadas em nenhum curso superior, para alcançarmos a meta de 33% de estudantes matriculados até 2024, precisaremos jogar o jogo muito bem no próximo ciclo de gestão pública. Teremos que ter em nosso time verdadeiros ninjas em estratégia educacional.

Ao passo que patinamos, do outro lado do mundo, países como Japão, Coréia do Sul, China, Taiwan e Cingapura, desenvolveram um sistema de ensino superior forte.  Eles exploraram estratégias para aumentar as matrículas e a qualidade dos cursos.

O modelo desenvolvido na Ásia caracteriza-se por Estados-Nação fortes e centralizados. Por uma tendência de participação universal no ensino superior, com a participação de 96% dos jovens na Coréia do Sul, 87% em Taiwan e 58% no Japão, em que as famílias passaram a assumir, gradativamente, o papel do Estado como financiador estudantil. Por vestibulares centralizados para todas as universidades, e pelo desenvolvimento de universidades de pesquisa, com forte investimento estatal, capazes de competir globalmente.

Para tanto, é preciso criar mecanismos para que as pessoas permaneçam matriculadas, se graduem e possam contribuir positivamente para a sociedade, em uma visão de longo prazo. O papel do Estado está em viabilizar uma constante inovação no sistema educacional. Às famílias cabe se manterem como uma força motriz que impulsiona as gerações mais jovens a atingir objetivos mais ambiciosos. É a noção disseminada na sociedade de cada país de que uma geração deve ser melhor educada do que a anterior.

O elemento fundamental deste princípio é a capacidade do Estado de traduzir o compromisso das famílias com a qualidade acadêmica em um sistema que lhes permita ter a chance de matricular seus descendentes em universidades de classe mundial. Ou seja, um sistema em que haja mérito e equidade.

No Japão, os efeitos dessa estratégia já são sentidos plenamente. A maioria dos estudantes japoneses, 72%, não recebe financiamento do governo. No Brasil, 63,5% dos estudantes recebe algum tipo de suporte do Estado. O compromisso assumido pelas famílias asiáticas em torno do financiamento estudantil foi compensado com um acelerado investimento estatal em desenvolvimento científico. O número de artigos científicos publicados cresceu exponencialmente. Além disso, as universidades asiáticas passaram a figurar em posições de prestigio em rankings internacionais.

No ranking elaborado pela Universidade de Leiden, um dos mais prestigiados, 10 universidades asiáticas figuram entre as 25 melhores do planeta. Por aqui, contamos nos dedos as universidades brasileiras que figuram em algum ranking internacional. Evidentemente, como em qualquer sistema, há problemas na Ásia. Há casos de corrupção acadêmica, além da ausência de princípios democráticos em alguns países.

O momento que a educação brasileira atravessa exige pensarmos em diferentes estratégias. Elaborar novos caminhos e mudar a racionalidade da educação brasileira será uma tarefa árdua. Mas, o desafio da Educação, antes de tudo, é um desafio humano. Precisamos criar condições para que mais pessoas estudem. Para tanto, precisaremos de propostas inovadoras.

[*] Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia, estudou Direito Internacional na The Hague Academy of International Law, sediada no Palácio da Paz (ONU). Atualmente, é professor da UNINASSAU. Seus interesses de pesquisa incluem Psicologia, Relações Internacionais e Ensino Superior. Nos últimos anos, participou de diversos programas internacionais, incluindo o Erasmus Mundus e o 100,000 Strong in the Americas, tendo sido premiado pelo fundo de inovação em educação internacional da Casa Branca (EUA), além de ter liderado os esforços que resultaram na criação do Tiradentes Institute na Universidade de Massachusetts, Boston. Twitter: @mbmn ; Instagram: @matheusbatalha

 

What can Brazilian Education learn from Asia?

 

Imagine that you are watching a card game. At the table are sitting the main policymakers in education of several countries. Instead of receiving ordinary playing cards, players are given a number of factors that make up the history, demographics, culture, economy, and availability of schools and universities to overcome the current educational challenges in their country.

These factors are part of the data framework that should integrate the decision-making process into public policies. Thus, policymakers, in possession of their playing cards, need to decide how to play the game. They must outline and implement long-term strategies that help their country overcome its challenges.

It is possible for a player to receive great factors but cannot develop a coherent strategy to develop his country's education and let it stagnate. On the other hand, it is also possible that the factors are not encouraging, but the policymaker can devise a broad and astute strategy to advance the ambitions of his country.

The table of this card game factors is the international arena. It is in this table that we analyze who has managed to advance in its educational challenges. Currently, Brazilian education is going through a complex period. Cutbacks were made in important areas, such as the government student loans program (FIES), and investments in scientific research.

When we look at the factors of our country, we see that the number of young people between 18 and 24 who are enrolled in university courses corresponds to only 18.1% of the population in this age group. Considering the current situation, where 18,697,083 young people are not enrolled in any higher education program, in order to reach the goal of 33% of students enrolled by 2024, we will need to play the game very well in the next cycle of public management. We will have to have on our team true ninjas in educational strategy.

As we walk backwards, on the other side of the world, countries such as Japan, South Korea, China, Taiwan and Singapore have developed a strong higher education system. They explored strategies to increase enrollments and academic quality.

The model developed in Asia is characterized by strong and centralized nation states. By a trend towards universal participation in higher education, with the participation of 96% of young people in South Korea, 87% in Taiwan and 58% in Japan, where families gradually assumed the role of the state as a student financier. For centralized entrance exams for all universities, and for the development of research universities, heavily funded by the State, capable of competing globally.

Therefore, it is necessary to create mechanisms for people to stay enrolled, to graduate and to contribute positively to the society in a long-term vision. The role of the State is to enable a constant innovation in the educational system. Families are expected to remain a driving force that drives younger generations to achieve more ambitious goals. It is the widespread notion in the society of each country that a generation should be better educated than the previous generation.

The key element of this principle is the state's ability to translate the commitment of families to academic quality into a system that allows them the opportunity to enroll their descendants in world-class universities. That is, a system in which there is merit and equity.

In Japan, the effects of this strategy are already fully felt. Most Japanese students, 72%, do not receive government funding. In Brazil, 63.5% of the students receive some kind of funding from the State. The commitment made by Asian families to student funding was offset by an accelerated state investment in scientific development. The number of published scientific paper has grown exponentially. In addition, Asian universities have come to be present at prestigious positions in international rankings.

In the ranking prepared by the Leiden University, one of the most prestigious, 10 Asian universities are among the 25 best on the planet. Around here, we count in the fingers the Brazilian universities that appear in some international ranking. Evidently, as with any system, there are problems in Asia. There are cases of academic corruption, in addition to the absence of democratic principles in some countries.

The moment that Brazilian education is passing requires us to think about different strategies. Elaborating new paths and changing the rationality of Brazilian education will be an arduous task. But the challenge of Education, above all, is a human challenge. We need to create conditions for more people to study. To do so, we will need innovative strategies.

 

[*] Ph.D. in Psychology from the Federal University of Bahia, he studied International Law at The Hague Academy of International Law, headquartered at the Peace Palace (UN). He is currently a professor at UNINASSAU. His research interests include Psychology, International Relations and Higher Education. In recent years, he has participated in a number of international programs, including Erasmus Mundus and 100,000 Strong in the Americas, having been honored by the White House's international education innovation fund, and has led efforts to create Tiradentes Institute at the University of Massachusetts, Boston. Twitter: @mbmn; Instagram: @matheusbatalha