05/09/2018 as 08:07

Artigos

Que eleição é essa que vem por aí?


Em seis semanas estaremos comentando o resultado eleitoral do primeiro turno. Quase tudo está definido, menos o essencial. O cenário eleitoral está constituído. A direita tem seus candidatos: Alckmin, Bolsonaro, Alvaro Dias, entre outros. A esquerda tem o candidato do PT – Lula ou Haddad –, Ciro Gomes e Boulos. Só que a variável mais importante ainda não está definida: será Lula ou Haddad a cabeça de chapa?


De qualquer forma, se aproxima o desenlace da mais longa e profunda crise da história brasileira. Uma crise iniciada com o questionamento do resultado eleitoral de 2014, que contou com a mídia, com o Congresso e com o Judiciário, para armar um impeachment sem fundamento e realizar o sonho da direita desde 2002: tirar o PT do governo.


Mas a modalidade que a direita conseguiu implicava na posse de Temer como presidente – e seus aliados – e na manutenção de certa institucionalidade, incluindo as eleições de outubro. O governo Temer foi um desastre e todos os candidatos que aparecem vinculados a ele têm uma bola de ferro amarrada nos pés. Os dois fatores – Temer e eleição – assim se mostraram fatais para a direita.


Uma direita que, voltando ao governo, demonstrou que não aprendeu nada do que aconteceu no Brasil, em particular o sucesso dos governos do PT. Acreditou nas suas próprias ideias, de que os governos do PT não tinham dado certo. E retornaram ao modelo neoliberal, duro e puro, dos anos 1990.


Deu no que deu. Só comprometido com o ajuste fiscal, o governo de Michel Temer produziu a mais profunda e prolongada recessão que o país conheceu. Com as desastrosas consequências sociais, antes de tudo o maior desemprego da nossa história, em que 27 milhões de pessoas não encontram trabalho, e um outro montante pelo menos similar trabalha de forma absolutamente precária.


Nenhuma surpresa, então, que a imagem de Lula só cresça. O que isso pode significar? Antes de tudo, uma imensa derrota para a direita, que fracassou no governo que aglutinou a todas as suas forças, confirmando que o modelo econômico neoliberal não tem nada a oferecer ao país.


Em segundo lugar, a derrota da mídia e da parte do Judiciário que promoveram e deram cobertura ao golpe e para o governo mais corrupto e mais antipopular e antinacional da nossa história. Seria um governo de luxo e foi o pior governo que já tivemos.


Mesmo os juízes não contam mais com a opinião pública de uns anos atrás. Moro tentou proteger-se, em Salvador, para participar de um seminário sobre luta contra a corrupção, mas foi vítima de manifestação contra ele. Nenhum candidato que pudesse representar a esses juízes – talvez Alvaro Dias – tem qualquer possibilidade de vitória. A grande mídia privada, por sua vez, revelou os limites da sua influência.


Em seis semanas, se a decisão se der no primeiro turno; ou em nove semanas, se for no segundo, teremos o fim do mandato mais catastrófico que o país já teve. E, em primeiro de janeiro, se reiniciará o processo de reconstrução nacional, comandado por um governo eleito de forma democrática e legítima pelos brasileiros. (Publicado no Jornal do Brasil)

Emir Sader/Sociólogo