05/09/2018 as 08:08

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EDITORIAL: Sem memória, sem história

O incêndio abriu um debate salutar sobre o descaso com a memória.


O Brasil assistiu estarrecido as chamas destruírem o Museu Nacional do Rio de Janeiro, considerado um dos mais completos do país. O incêndio abriu um debate salutar sobre o descaso com a memória. O museu estava perdendo recursos e não tinha sequer brigada de incêndio e nem estrutura para combater o fogo. A falta de verbas nunca permitiu a troca da fiação antiga e perigosa.


Sabe-se agora que os valores pagos pela União para o total de despesas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, caíram mais de dez vezes de 2011 a 2018, conforme estudo da ONG Contas Abertas – feito a partir de dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) do Governo Federal.


Até 31 de agosto (sexta-feira passada) foram pagos R$ 98.115,34. Desse valor, R$ 17,8 mil foram gastos com “investimentos” e R$ 80,2 mil com “outras despesas correntes”. Nenhum real foi gasto este ano com aquisição de equipamento de proteção segurança e socorro; material de proteção e segurança; material elétrico e eletrônico; e nem com material para manutenção de bens imóveis/instalações.


Na verdade, o incêndio no Museu Nacional mostra bem a falta de atenção com nossa história, com os museus e instituições sociais no Brasil. Além da falta de recursos, falta prioridade. No ano passado, o Governo Federal gastou R$ 643,5 mil com o Museu Nacional. O valor é quase um milhão a menos do que foi gasto pela União com veículos – ambulâncias, carros de combate e despesas com pagamento de pedágios e IPVA.


A grande piada agora é que o Governo Federal, que engessou o museu, deixando-o sem recursos, anuncia recursos vultosos para recuperar o Museu Nacional. Recuperar o quê? Reconstruir o prédio para qual acervo? O que sobrou para ser guardado?


A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgou nota afirmando que vem sofrendo redução no orçamento recebido nos últimos anos. Segundo a universidade, a “significativa redução orçamentária” ocorre desde 2014. Naquele ano, o orçamento foi de R$ 434 milhões e os cortes desde então aconteceram todos os anos, chegando ao orçamento de R$ 388 milhões em 2018.


O governo, que tantas críticas sofre com a perda do museu, afirma que houve aumento de 48,9% na verba destinada à universidade entre 2012 e 2017. Do total [de R$ 3 bilhões empenhados para a UFRJ em 2017], apenas R$ 373 mil foram destinados ao Museu Nacional, com redução de 43,1% no repasse feito da universidade ao museu.


O Brasil perdeu sua memória, sua história, sua identidade nas chamas do descaso. O incêndio no Museu Nacional é uma tragédia sem igual no mundo, jamais um museu tão completo como o Nacional virou cinzas desta forma. Perdemos livros, artefatos, áudios, imagens, fósseis que sobreviveram a milhares de anos, décadas de pesquisa, de conhecimento acumulado para a humanidade.