11/10/2018 as 07:39

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A caminho do curto-circuito


Daniel Innerarity, em seu A política em tempos de indignação, compara os políticos aos fusíveis (e aos bodes expiatórios e treinadores de futebol), pois teriam a função de “permitir que possamos culpar alguém pelos nossos fracassos em vez de dissolver a equipe ou dissolver a sociedade”. Os políticos são personagens que estão “especialmente submetidos à contingência do mundo”, colocados à beira do abismo “talvez para situar todos os demais num local menos arriscado”. O problema é antigo – Platão alertava que “todo homem sensato prefere ser obrigado por outro do que preocupar-se em obrigar outros”. Afinal, transferir culpa é algo que vem do primeiro homem, veloz em apresentar sua companheira como responsável perante um Deus irado com sua falha. São colocações interessantes e muito úteis para pensar a respeito do momento político brasileiro.


Fusíveis são dispositivos feitos para a proteção de circuitos elétricos. Quando há excesso de corrente, o material de que são feitos se funde, interrompendo o circuito. É um equipamento feito para queimar antes do sistema como um todo, protegendo-o de um grande curto-circuito, por estar posicionado na entrada dele. Sem o fusível, o sistema se torna vulnerável às oscilações da corrente e pode sofrer danos que não sofreria com ele.


Tratar os políticos como fusíveis sublinha o seu papel de intermediários nas relações entre os cidadãos. O papel deles seria o de evitar que os entrechoques entre os participantes da comunidade elevem demais a corrente que percorre o circuito elétrico-social, impedindo que as oscilações levem a um curto-circuito. A corrente elétrica não seria produzida pelos políticos, mas pelos cidadãos. Os políticos, atuando em instituições preconcebidas para tanto, apenas evitariam as oscilações excessivas que poderiam dissolver a sociedade.


De maneiras diferentes, os dois líderes das pesquisas de intenção de voto para a presidência da República na eleição que se avizinha recusam o papel de fusível. Fernando Haddad, apesar de por vezes buscar sublinhar a importância do diálogo e da tolerância, conta com um assustador item em seu plano de governo, dedicado ao que seria um novo Processo Constituinte. Jair Bolsonaro, apesar de veicular a insatisfação com um sistema político disfuncional, bebe na fonte da raiva acumulada e aposta, mais do que ninguém, na multiplicação da tensão do sistema. Com a consolidação dessas duas alternativas, parecemos caminhar, efetivamente, para um curto-circuito no segundo turno.


É interessante observar, nesse mesmo sentido, que os candidatos que se posicionam um pouco mais como fusíveis sofrem justamente pelo que têm de proteção ao sistema, que vem sendo interpretado pela sociedade como insipidez. Geraldo Alckmin e Marina Silva, por exemplo, são acusados de não assumirem posições firmes.
O primeiro é tido como oportunista, embora insista que a ampla coligação que montou busca ser o projeto de uma coalizão que permita governar e aprovar reformas, acomodando os interesses.


A segunda é apontada como indecisa por afirmar constantemente que as suas decisões serão tomadas democraticamente, após ouvir os diversos posicionamentos divergentes. Ou seja, ambos, ao seu jeito, propõem uma redução na tensão do sistema.


Haddad e Bolsonaro, por sua vez, parecem encontrar ressonâncias a partir da manifestação de suas certezas mais radicalizadas e radicalizantes. A figura do “salvador da pátria”, que normalmente é apontada como um perigo da polarização política, materializa-se justamente nos políticos que pretendem aumentar a tensão do sistema, ao invés de controlá-la.


Estendendo a analogia com sistemas elétricos, estamos falando em trocar os fusíveis por baterias. A corrente aumenta e fica-se mais perto do que nunca de um curto-circuito. Haddad e Bolsonaro se mostram como poderosas e perigosas baterias, prontas para operar num sistema sem fusíveis.


A questão é que, em democracias, o papel de produzir a corrente elétrica do sistema político não é dos políticos, mas dos cidadãos. A ideia de uma nova Assembleia Nacional Constituinte, por exemplo, tem seu locus fundamental nas ruas, e não no plano de governo de quem quer que seja – é o exercício do Poder Constituinte, e não a expressão dos poderes constituídos.


A indignação com o sistema político disfuncional, igualmente, precisa mover os cidadãos a se aproximarem uns dos outros e buscarem maneiras de evoluir como comunidade. Não deve ser tratada como matéria-prima para candidatos que defendem a canalização da indignação em forma de violência real e simbólica.


Circuitos elétricos certamente dependem da tensão, mas é fundamental que ela respeite os limites adequados. Sem corrente, o circuito não opera, mas não se pode concentrar todos os investimentos para gerar energia sem controle.


Sistemas precisam ser capazes de estabilizar a vibração, do contrário se degradam, seja na Física, seja na sociedade. Dispositivos de controle, como os fusíveis e os relés, foram fundamentais para o domínio da eletricidade e sua aplicação de forma disseminada. Na sua simplicidade e na sua passividade, é o fusível que evita o curto-circuito. Normalmente, na vida real, é ele o verdadeiro salvador da pátria.

André Rehbein Sathler* e Renato Ferreira**/doutor em filosofia e doutor em ciência política