08/05/2019 as 07:36

ARTIGOS

O que nos reserva o futuro imediato?


O perfil cultural brasileiro - fruto de séculos de sincretismo, miscigenação, diversidade e originalidade – acumulou, dentre várias outras tradições, o apego a algumas crendices, mitos, dogmas e superstições.


Uma delas reflete o nosso atávico otimismo. Afinal, “Deus é brasileiro”, “O brasileiro não desiste nunca” e o “O Brasil é o país do futuro”. Acreditamos sempre que, independente de nossas ações conscientes e concretas, alguma coisa transcendental ou divina irá sempre nos salvar de nossos erros ou desvios.


Realmente, o Brasil foi o país que mais cresceu no pós-guerra até 1980. O fantástico desempenho da economia brasileira no período autorizou a visão ufanista sobre nosso futuro. Mas o segundo choque do petróleo, a moratória da dívida externa e a hiperinflação crônica puxaram o freio de mão.


Os últimos 40 anos configuraram o “voo de galinha” na economia e o agravamento dos desequilíbrios fiscais. A Constituição Cidadã de 1988, ao lado de grandes avanços democráticos, deixou inequivocamente uma bomba de efeito retardado no plano fiscal que se tornou insustentável com a mudança de cenário em relação ao crescimento e com a lentidão das reformas que refundassem o desenvolvimento capitalista no Brasil. Compare leitor a variação da renda per capita do Brasil, do Chile e da Coréia do Sul entre 1975 e 2018.


Todas as iniciativas reformistas, como as de FHC – Plano Real, responsabilidade fiscal, PROER, privatizações, reforma da previdência – enfrentaram imensas resistências e produziram resultados aquém dos necessários.


Outra crença difundida e que tem razões verdadeiras é de que há uma “Lua de Mel” dos governos com a sociedade em seus primeiros seis meses. A força herdada das urnas deve embasar uma ação enérgica e transformadora na implantação das diretrizes governamentais.


Daí, a fundada e crescente preocupação de lideranças políticas, sociais e empresariais com a deterioração do cenário nacional e os descaminhos do governo Bolsonaro.


Chegamos aos quatro meses de governo com decepcionantes e insuficientes resultados. O governo se perde na falta de coordenação e na energia gasta com assuntos secundários e polêmicos. A disputa entre os grupos econômico-liberal, militar, ideológico e familiar orientada pelo “Bruxo da Virgínia” e os ministros técnicos e políticos tem produzido um jogo de soma zero e realçado a falta de um plano estratégico. O exemplo maior dos “gestos inúteis” foram os ataques do Zero 2 e seu guru ao vice- presidente General Hamilton Mourão.


Enquanto isso, a reforma da previdência leva três meses para a votação da admissibilidade, houve queda de 179 mil postos formais de trabalho no primeiro trimestre denotando uma tendência recessiva e assistimos à queda súbita e consistente da popularidade do presidente, medida pela pesquisa CNI/IBOPE.


Se as reformas não avançarem e rápido pode haver uma reversão radical das expectativas em relação à economia do país, a “Lua de Mel” chegar ao fim com a erosão da força política do governo e o mau humor da população explodir com a falta de resultados apresentados pela “nova política”.


Neste caso o futuro será nebuloso e, infelizmente, começaremos a desconfiar dessa estória de que “Deus é brasileiro” e o “Brasil é o país do futuro”.


Mãos à obra, líderes dessa pobre e sofrida Nação!

Marcus Pestana/deputado federal do PSDB de Minas Gerais