27/05/2019 as 08:52

ARTIGOS

Um rouxinol de nome Estácio


Contemplar o panorama das palavras é como descobrir novas formas do ser. Foi mais ou menos isso o que eu li, certa feita, em Manoel de Barros; e agora, deixando-me perder no viçoso jardim dos poemas de Estácio Bahia, é que percebo o quanto estava certo o genial poeta de Corumbá.


Com efeito, para o mortal comum as palavras servem para retratar as coisas, os sentimentos, as idéias, as percepções, enfim, que são dados de uma realidade exterior a elas. Para os poetas, todavia, as palavras são como que um a priori em relação a tudo o mais. Elas existem por si mesmas, como se fossem mundos a explorar ou paisagens a descortinar. E esse modo de lidar com as palavras, significando uma total intimidade ou profunda empatia com todas elas, é que termina sendo a marca registrada dos verdadeiros poetas.


É o caso de Estácio Bahia, cuja nova produção poética estou a apresentar. Pois que se trata de um mago das palavras. Com todo o escandido rosário das metáforas e figurações com que se pode rezar no genuflexório das musas.


Os poemas são de conteúdos variados, mas o que há de dominante em todos eles é o lirismo. A sentimentalidade à flor da pele, como se cada verso fosse composto ao suave tom daquelas encantadas liras de uma antiguidade que insiste em pontuar os devaneios dos mais atualizados artistas românticos.


Sem dúvida que o meu confrade de Academia de Letras é um cantor intimista. Mas não hermético. Não piegas. Bem ao contrário, Estácio Bahia fala das coisas da vida e dos seus estados de alma com a transparência dos que não têm nada a esconder. E sem o menor complexo de orfandade perante a vida e o amor, mesmo quando registra episódicas irrealizações em ambos os planos.


Em suma, o livro que estou a apresentar é daqueles que fixam em nossas retinas imagens de cristal. “O cristal que reflete fulgurações ou tange sonoridades quando tocado ou ferido” (Manoel Cabral Machado), conforme ressai desta breve passagem do poema “Cantiga de Lua”, aqui enfeixado:

“Passeiam sobre os clarões
vultos desconhecidos
arrastando a solidão pelo braço”.

E este primor de evocação das longínquas terras do Oriente, com que termino esta aligeirada apresentação:

“Venho despertar a terra em transe
com meu sorriso de aurora.
Trago os cantos da alvorada
nos bicos dos passarinhos
cantando nas asas do vento
as aventuras radiosas
das terras do sol nascente”.

Carlos Ayres Britto/ex-ministro do Supremo e membro da ASL