19/08/2019 as 08:56

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O Futuro é Já!

Por Matheus Batalha Moreira Nery/Doutor em Psicologia pela UFBA e Professor da UNINASSAU.


“Eu tenho uma coisa do Brasil”, me disse enquanto caminhava em direção a um armário de madeira, bem rústico, que havia sido, precariamente, afixado à parede da pequena casa em que nos encontrávamos. Eu e minha esposa havíamos levantado cedo e deixado Barnstable, em Cape Cod, nas primeiras horas da manhã em direção à Plimoth Plantation, um museu em que atores interagiam vividamente com os visitantes como se estivessem no século XVII, período histórico em que os primeiros colonos ingleses se assentaram em Massachusetts. A atriz que nos recebia abriu o armário e, com todo cuidado, tirou um objeto coberto por um tecido rústico, que carregava como um bebê, e, em sequência, para nossa surpresa, nos mostrou o torrão de açúcar que tratava como uma preciosidade. Nós ficamos espantados com aquele objeto que mais parecia ser uma pedra de mármore branca. Ao mostrá-lo, nos explicou que as tensões entre os ingleses e os espanhóis andavam altas naqueles tempos e todo cuidado era pouco quando se tratava de açúcar e outras especiarias. 

Embora tudo tivesse uma ordem e uma organização teatral, aquela pequena casa era uma manifestação plena de como aquele período histórico foi difícil para as pessoas que embarcaram em direção ao novo mundo. Nossa anfitriã nos contou que aquela era apenas uma residência provisória, pois todos ali aguardavam acesso a um assentamento definitivo. Sua família somente iria investir suas economias na construção de uma residência definitiva. Tudo estava meio indefinido, pois a empresa que havia financiado aquele empreendimento havia falido em Londres. Questionamos porquê eles haviam deixado a Inglaterra e imigrado para a colônia e ela nos deu uma resposta impactante: “sentíamos que a pobreza estava vindo em nossa direção”, nos contou como quem tenta explicar como evitar um desastre social. A imigração era a única saída, mesmo que fosse para um local distante, desconhecido e pouco explorado. A pequena casa ficcional abrigava sua família e outras três, que, corriam riscos constantes. Na porta da casa, ela nos mostrou um pequeno forte, que ficava no topo da pequena colina que formava a rua principal do assentamento dos colonos e nos indicou que de lá teríamos uma bela vista do mar. 

Ao chegar lá, vi a imensidão do Atlântico Norte que contornava toda aquela costa. Naquele momento, compreendi o quão desafiador foi a constituição daquele país. Ali foi o início de um longo processo de transição e de inúmeras lutas que convergiram para o momento atual. Muitos destes desafios ainda estão presentes quando pensamos o cenário internacional. Constantes crises de imigração em várias partes do mundo, adoção de retóricas políticas nacionalistas e isolacionistas, e sucessivas crises econômicas dão tons de dramaticidade às necessidades humanitárias em muitos países. Se analisarmos bem, as coisas estão difíceis em diversos setores da vida em sociedade e precisaremos superar desafios homéricos nos próximos anos. Em um lugar privilegiado nesta discussão estão as universidades que investiram massivamente em processos amplos de desenvolvimento científico e em internacionalização. A tônica desta última década, prevista em um relatório de tendências globais publicada pela Unesco, foi marcada por mudanças advindas do ritmo acelerado da globalização, que gerou um aumento significativo da mobilidade acadêmica de estudantes e professores, a necessidade de instituições se movimentarem para além de suas fronteiras, um impacto crescente do desenvolvimento de tecnologias educacionais e uma tentativa de massificação de muitos programas acadêmicos.

Todo este cenário de transformações no ensino superior levou a mudanças mundiais nos padrões de matrículas, através de uma ampliação significativa do acesso à educação superior que, em muitos países, passou a atender a um público mais diverso. A uma busca por novos modelos de financiamento educacional, em uma tentativa de abarcar a crescente necessidade de desenvolvimento e a ampliação das expectativas sociais em torno das funções das instituições educacionais. E a uma ampliação das preocupações com a qualidade acadêmica, que vão desde a necessidade de incorporar no dia a dia novas práticas pedagógicas e tecnologias educacionais, até a manutenção de um bom nível de ensino em um espectro de massificação nas universidades mundo afora. No Brasil, em particular, estes desafios são sem precedentes. As políticas educacionais estabelecidas no últimos 20 anos pelo governo brasileiro visaram à expansão do ensino superior. Foram feitos investimentos significativos em universidades públicas, bem como uma forte ampliação do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), disponível para estudantes de universidades e faculdades privadas, que conjuntamente com o Programa Universidade para Todos (PROUNI), representou aproximadamente 15% do orçamento brasileiro para a Educação no ano de 2015. No entanto, desde lá, convivemos com uma forte crise econômica que impactou muito dos investimentos em Educação e, até o momento, ainda não conseguimos tirar o setor da paralisia em que se encontra. O desenvolvimento de ambas esferas da Educação, pública e privada, são de extrema  importância para o desenvolvimento nacional. É importante perceber que, em um mundo pautado pela disrupção e pela inovação, mesmo em um cenário adverso, há possibilidades significativas para novos entendimentos e desenvolvimentos. Um desafio chave na próxima década para as universidades brasileiras será encontrar formas de ampliar seu engajamento internacional como uma possibilidade para fazer emergir, continuamente, oportunidades de desenvolvimento. Esta tarefa é inadiável e terá que ser executada enquanto ainda lidamos com os efeitos da crise que abateu o nosso sistema educacional. Para além das suas funções científicas e educacionais, as universidades são instituições culturais de enorme importância para o esclarecimento público. Assim, é preciso mover o debate para as questões centrais que mais afligem o cerne do ensino superior.

No fim da tarde daquele dia retornamos a Boston e pegamos o voo de volta ao Brasil. No avião, enquanto tomava um café adoçado com açúcar em sache, lembrei o quanto eu lutei ao longo de minha vida para estar ali. Foram anos dedicados a criar e manter um canal de diálogo que me permitisse aprender um pouco mais sobre Educação. É preciso encarar os desafios que nos são impostos na vida com serenidade e sagacidade. É preciso perseverar! 

 

Por: Matheus Batalha Moreira Nery/Doutor em Psicologia pela UFBA e Professor da UNINASSAU. 

The Future is Now!

“I have something from Brazil,” she told me as she walked toward a very rustic wooden cabinet that had been precariously affixed to the wall of the small house where we stood. My wife and I had woke up early and left Barnstable on Cape Cod in the early morning toward the Plimoth Plantation, a museum in which actors interacted vividly with visitors as if they were in the seventeenth century, the period when the first Englishmen settlers settled in Massachusetts. The actress who greeted us opened the closet and carefully removed an object covered in a rustic cloth that she carried like a baby, and then, to our surprise, showed us the sugar lump she treated as a precious stone. We were amazed at that object that looked more like a white marble stone. In showing this, she explained to us that the tensions between the English and the Spanish were high in those days and that they were always careful with sugar or other commercial products.

Although everything had a theatrical organization, this little house was a full manifestation of how difficult this historical period was for the people who embarked toward the new world. Our hostess told us that this was only a temporary residence, as everyone awaited access to a permanent settlement. Her family would only invest their savings in building a permanent house. We asked why they had left England and immigrated to the colony and she gave us an impactful answer: “We felt that poverty was coming upon us,” she told us as she tried to explain how to avoid social disaster. Immigration was the only way out, even if it meant to make a difficult journey to a distant, unknown and underexplored location. The small fictional house housed her family and three others who were at constant risk. At the door of the house, she showed us a small fort, which stood on the top of the small hill that composed the main street of the settler settlement and indicated that we would have a beautiful view of the sea from there.

When we got there, I saw the vastness of the North Atlantic that skirted the entire coast. At that moment I realized how challenging was to transform that land into a country. That location was the beginning of a long transition process and of countless struggles that converged on the present moment. Many of these challenges are still present when we think of the international arena. Constant migrant crises in various parts of the world, the adoption of nationalistic and isolationist political rhetoric, and successive economic crises give dramatic tones to humanitarian needs in many countries. If we look closely, things are difficult in various sectors of life in society and we will have to overcome Homeric challenges in the coming years. In a privileged place in this discussion are universities that have invested massively in broad processes of scientific development and internationalization. The focus of this past decade, as predicted in a global trends report published by UNESCO, has been marked by changes stemming from the rapid pace of globalization, which has led to a significant increase in student and teacher academic mobility, the need for institutions to move beyond its borders, a growing impact of the development of educational technologies, and an attempt to massify many academic programs.

This whole scenario of transformations in higher education has led to changes in enrollment patterns around the world through a significant increase in access to higher education, which in many countries has come to cater to a more diverse cohort of students. A search for new models of educational funding, in an attempt to address the growing need for development and the widening of social expectations around the functions of educational institutions. And to broaden concerns about academic quality, ranging from the need to incorporate new pedagogical practices and educational technologies into everyday life, to maintain a good level of teaching in a mass spectrum in universities around the world. In Brazil, in particular, these challenges are unprecedented. The educational policies established in the last 20 years by the Brazilian government aimed at the expansion of higher education. Significant investments were made in public universities, as well as a strong expansion of the Student Government Loans Fund (FIES), available to students from private universities and colleges, which together with the University for All Program (PROUNI) represented approximately 15% of the Brazilian budget for Education. However, since then, we have experienced a strong economic crisis that has greatly impacted investments in Education, and so far we have not been able to lift the sector from its paralysis. The development of both public and private spheres of education is of utmost importance for national development. It is important to realize that in a world ruled by disruption and innovation, even in an adverse scenario, there are significant possibilities for new understandings and developments. A key challenge for Brazilian universities in the next decade will be to find ways to broaden their international engagement as a possibility to continually emerge development opportunities. This task is unavoidable and will have to be performed while we are still dealing with the effects of the crisis that struck our education system. In addition to their scientific and educational functions, universities are cultural institutions of enormous importance for public enlightenment. Thus, we need to move the debate to the core issues that most afflict the soul of higher education.

In the late afternoon of that day, we returned to Boston and took the flight back to Brazil. On the plane, while drinking a coffee that was sugar-sweetened with industrial sugar in a sachet, I remembered how much I struggled throughout my life to be there. These were years dedicated to creating and maintaining a dialogue channel that would allow me to learn a little more about Education. We must face the challenges we are imposed within life with serenity and wit. We must persevere!