26/08/2019 as 10:03

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O Relicário

Por Matheus Batalha Moreira Nery- Doutor em Psicologia pela UFBA e Professor da UNINASSAU.


O frio havia tornado a noite mansa. No táxi, avistávamos um pouco da paisagem da Roma antiga, embaralhada por prédios e monumentos que foram construídos ao longo dos séculos. A brisa gelada corria pelo rio Tibre e entrava pela janela do carro nos lembrando que o inverno ainda não havia terminado. Seguimos margeando o rio, passamos pela Corte Suprema di Cassazione, a suprema corte de justiça italiana, e contornamos o Castelo de Santo Ângelo, quando de relance avistamos o Vaticano. O carro ganhou velocidade e rapidamente alcançamos uma das entradas principais do Trastevere, charmoso bairro italiano em que a boemia impera, e que sempre acolheu bem nas mesas de seus restaurantes a classe artística local e internacional. 

O motorista parou algumas ruas antes da Piazza Santa Maria e nos indicou que dali em diante teríamos que seguir a pé. Nos aconchegamos um no outro e andamos pelas ruelas, cheias de turistas e moradores locais, até alcançar o átrio que compõe a praça. Avistamos logo de imediato a belíssima fonte que torna o espaço público especialmente agradável cercada por pessoas que conversavam alegremente, e ao fundo, os cinco arcos que dão acesso à Basílica de Santa Maria. Tudo ao nosso redor lembrava um cenário digno do filme a La Dolce Vita de Frederico Fellini. Um verdadeiro convite para viver a vida.  Caminhamos um pouco pela praça e resolvemos nos acomodar na varanda do Ristoranti Sabatini, um charmoso e tradicional restaurante italiano, fundado ainda nos anos cinquenta, que costumava ser frequentado por Fellini e outras celebridades. A fachada do prédio, desgastada pelo tempo, abarcava uma bela varanda que oferecia uma excelente visão para todo o conjunto arquitetônico da a praça. Chamamos o garçom, que gentilmente nos acolheu trazendo um aquecedor para próximo da nossa mesa e, de imediato, nos recomendou uma bela garrafa de vinho branco. Ao nos entregar os cardápios, nos disse, “apreciem os nossos peixes”. 

Após servir a garrafa de vinho, pedimos que ele nos explicasse o preparo de alguns pratos e perguntamos, sutilmente, em um italiano carregado de inglês e português, a origem dos peixes. Pensamos ser justo os questionamentos, uma vez que os preços no cardápio eram bem salgados, acima da média dos estabelecimentos que estávamos frequentando naquela temporada, e queríamos ter certeza de quê o que comeríamos teria uma enorme qualidade. Diante da pergunta, o garçom nos pediu licença e, quando retornou à nossa mesa, segurava uma enorme bandeja em que trazia todos os peixes oferecidos pela casa. Fez questão de nos explicar, um por um, as diferenças, o seu modo de preparo e de mostrar que estavam mais do que frescos e excelentes para um belo jantar romântico. Apreciamos a aula qual uma pessoa que precisa esquecer, momentaneamente, certos vícios de comportamento. Passado o constrangimento, pedimos o jantar e tratamos de engatar em um clima romântico. Após um Prosciutto e Melone como entrada, minha esposa pediu que lhe preparassem um pesce rosso, uma autêntica vermelha italiana cozida com tomates, camarões e mexilhões, e, eu, que sou alérgico as delícias do oceano, tive que me contentar com um saboroso fettuccine al pesto

Aquela varanda parecia ser um universo paralelo. As pessoas que frequentavam aquele restaurante aparentavam ter, com certo grau de certeza, uma boa condição de vida. Eu e minha esposa havíamos trabalhado muito para alcançar a possibilidade de desfrutar, por alguns momentos, daquelas possibilidades. Sabíamos que aqueles eram momentos especiais, que surgiam, de tempos em tempos, para adoçar a nossa vida e nos dar um contraste para algumas experiências amargas que sempre tivemos que superar. Esta realidade contrastante é vívida também quando observamos o cenário educacional mundo afora. A preocupação corrente quando pensamos em áreas importantes no ensino superior é justamente como tornar os caminhos acadêmicos mais igualitários para todos os nossos alunos. As melhores oportunidades devem estar acessíveis para todos aqueles que possuem condição de competir por elas e precisamos superar cenários em que a ausência de recursos financeiros impede o real progresso de excelentes estudantes. As pesquisas mais recentes em internacionalização da educação superior demonstram quão importante é superarmos as desigualdades. Somente uma parte muito pequena da população global de estudantes, cerca de 2%, é capaz de fazer algum tipo de mobilidade acadêmica para experimentar a cultura e ter uma experiência estudantil no exterior, e o fluxo de estudantes entre países que enviam e recebem estudantes é extremamente desequilibrado. Assim, há sempre um destino certo partilhado por poucas pessoas que conseguem, através do mérito ou de condições financeiras, progredir para melhores oportunidades de formação. Além disso, em muitas instituições este processo é visto como estratégico e se consolida como parte de sua missão, sem que, necessariamente, esta visão se transforme em uma ampliação significativa de oportunidades para os seus alunos. Em Educação, precisamos trabalhar muito para tornar sonhos em realidade, que se caracterizam por um avanço no conhecimento, nas habilidades e competências de nossos estudantes, que deve estar acessíveis a todos.   

Quando pagamos a conta, o garçom nos trouxe uma caixa e nos ofereceu um toscanello, um pequeno charuto toscano. Ao nos ver hesitar, nos disse “vai estar frio lá fora”. Aceitamos de bom grado sua oferta, pois sabemos que na vida o sucesso é sempre passageiro e experimentar certas “preciosidades” com liberdade não faz mal a ninguém.     

 

The Reliquary

The cold had made the night mild. In the taxi, we could see a little of the landscape of ancient Rome, shuffled by buildings and monuments that were built over the centuries. The cold breeze drifted across the Tiber River and through the car window reminding us that winter was not over yet. We continued along the river, past the Corte Suprema di Cassazione, the Italian Supreme Court, and rounded the Castel Sant' Angelo when we glimpsed the Vatican. The car sped up and we quickly reached one of the main entrances of Trastevere, the charming Italian quarter where bohemia reigns, and which has always welcomed local and international artists to its restaurant tables.

The driver stopped a few streets before Piazza Santa Maria and told us that from now on we would have to walk. We huddled together and walked the alleys, filled with tourists and locals until we reached the atrium that makes up the square. We immediately spot the beautiful fountain that makes the public space especially pleasant surrounded by cheerfully chatting people, and in the background, the five arches that give access to the Basilica of Santa Maria. Everything around us resembled a setting worthy of Frederico Fellini's La Dolce Vita. A real invitation to live life. We walked a little through the square and settled on the balcony of the Ristoranti Sabatini, a charming and traditional Italian restaurant, founded in the fifties, which used to be frequented by Fellini and other celebrities. The weathered facade of the building covered a beautiful veranda that offered a great view of the entire architectural complex of the square. We called the waiter, who kindly welcomed us bringing a heater near our table and immediately recommended us a nice bottle of white wine. Delivering the menus, he told us, "Enjoy our fish."

After serving the bottle of wine, we asked him to explain the preparation of some dishes and subtly asked, in an Italian laden with English and Portuguese, the origin of the fish. We thought the questions were fair, since the prices on the menu were very expensive, above the average of the establishments that we were attending that season, and we wanted to make sure that what we would eat would be of tremendous quality. In the face of our question, the waiter excused us, and when he returned to our table, he was holding a large tray with all the fish offered by the house. He made a point of explaining to us, one by one, the differences, their preparation and showing that they were more than fresh and excellent for a beautiful romantic dinner. We appreciate the class as a person who needs to momentarily forget certain behavioral vices. After the awkwardness, we ordered dinner and tried to engage in a romantic mood. We ordered a Prosciutto and Melone as a starter, and my wife asked them to prepare a pesce rosso, an authentic Italian redfish cooked with tomatoes, shrimps, and mussels, and I, who are allergic to the delights of the ocean, had to settle for a tasty fettuccine al pesto.

That balcony seemed to be a parallel universe. The people who frequented this restaurant seemed to have, with a certain degree of certainty, a good life. My wife and I had worked hard to reach the possibility of enjoying those possibilities for a few moments. We knew these were special moments that came from time to time to sweeten our lives and give us a contrast to some bitter experiences that we always had to overcome. This contrasting reality is also vivid when we look at the educational scene around the world. The current concern when we think of important areas in higher education is precisely how to make the academic paths more equal for all our students. The best opportunities must be accessible to all those who can compete for them, and we need to overcome scenarios where a lack of financial resources hinders the real progress of excellent students. The latest research on the internationalization of higher education shows how important it is to overcome inequalities. Only a very small part of the global student population, about 2%, is capable of some kind of academic mobility to experience the culture and have a student experience abroad, and the flow of students between sending and receiving countries is extremely unbalanced. Thus, there is always a certain destiny shared by a few people who can, through merit or financial means, progress to better training opportunities. Moreover, in many institutions, this process is seen as strategic and is consolidated as part of their mission, without necessarily turning this vision into a significant expansion of opportunities for their students. In education, we need to work hard to make dreams come true, which are characterized by an advance in the knowledge, skills, and competencies of our students that must be accessible to all.

When we paid the bill, the waiter brought us a box and offered us a toscanello, a small Tuscan cigar. Seeing us hesitate, he told us "it will be cold outside". We gladly accept his offer because we know that in life success is always fleeting and experiencing certain “precious moments” with freedom is not harmful to anyone.