06/09/2019 as 08:38

ARTIGO

A Melhor Tecnologia

Por : Matheus Batalha Moreira Nery/Doutor em Psicologia pela UFBA e Professor da UNINASSAU


O dia havia sido por demais corrido e as últimas semanas haviam passado em um piscar de olhos. Quando cheguei à sala dos fundadores da Academia Sergipana de Letras, a encontrei quase vazia. As flores colocadas na mesa onde sentaria denotavam que a atmosfera para aquela noite seria solene e elegante. Nas paredes, os retratos, em pintura a óleo, de alguns imortais, pessoas de enorme importância para o cenário educacional e cultural de nosso Estado. O mobiliário histórico permanecia impecavelmente preservado. 

Ao ver a decoração, minha esposa logo me convidou para sentar a mesa. Queria aproveitar o momento para fazer alguns registros fotográficos. Atendi a seu pedido constrangido, pois posar para fotos é uma habilidade que pouco domino. Assim que sentei à mesa, que havia sido preparada para o lançamento do meu livro, os primeiros convidados chegaram para solicitar que eu autografasse seus exemplares. É uma sensação incrível poder dedicar um livro para alguém especial. Uma publicação é, na grande maioria das vezes, o fruto de um árduo trabalho e da enorme perseverança de um escritor.   Poucos minutos depois, vi uma pequena fila se formar e, de repente, como em um passe de mágica, a sala ficou tomada de gente. Qual a abertura de uma sessão solene, o Presidente da Academia Sergipana de Letras pediu silêncio a todos e nos informou que os trabalhos daquela noite seriam abertos com uma declamação de um texto de Frei Betto. Todos se organizaram em um grande círculo e atentamente esperaram que a poetisa, neta do imortal, iniciasse sua fala. 

“Sou muito especial. Minha tecnologia é insuperável”, falou alto e em tom de autoridade. Naquele segundo, ela tomou toda a atenção da sala para si. Seus olhos brilhavam e seus braços gesticulavam a importância de cada palavra. Suas mão cortavam o ar provocando o mesmo impacto que uma nova ideia provoca em nossa mente. Ela deu um passo à frente e disse, “Trabalho em silêncio, e nunca incomodo ninguém, pois jamais insisto”. Lembrei das inúmeras horas que semanalmente passo em meu escritório escrevendo esta coluna. Em meu calendário de trabalho, nenhum segundo pode ser desperdiçado, sob pena de eu não concluir alguma das inúmeras tarefas a que me dedico todas as semanas. Trabalhar com palavras é um trabalho silencioso e temos que ter a elegância de não insistir quando as pessoas não querem nos ouvir. É preciso fazer isso sem jamais desistir de seu ideal, pois tal qual o clima, as ideias também mudam, as opiniões se arejam e o que era chato se torna interessante em algum ponto da história. A plateia não tirava os olhos e a seguia palavra à palavra. “Sem mim, a humanidade teria perdido a memória”, enfatizou como quem disseca a natureza da condição humana. Sem o registro da nossa inteligência, jamais alcançaríamos o nível de desenvolvimento que possuímos atualmente. “Livre e lido, sou livro” finalizou puxando todo o ar das palavras de volta para o pulmão. 

Fiquei sem palavras. Me limitei a agradecer a oferenda e a ressaltar a coragem de todos os presentes em defender a literatura, que, de tempos em tempos, é tão inutilmente atacada por pessoas que gostam de se vangloriar por falta de leitura. Tomei meu assento e me dediquei o restante da noite a escrever dedicatórias para todas as pessoas que compareceram à cerimônia de lançamento do meu livro. Fiz isto com a afinco, pois é preciso ser grato a quem decidiu tirar a sua noite para pegar uma longa fila em troca de um livro e um autógrafo. Tratei de personalizar com novas palavras cada um dos livros que chegou as minhas mãos. Tentei ser simples nas mensagem, mas elegante em seu conteúdo. Fiquei imensamente feliz em poder assinar livros para pessoas por quem tenho enorme admiração. Houveram amigos que se emocionaram com as palavras escritas no livro, o que me deixou profundamente tocado. Com o avanço da noite, enquanto eu dedicava um livro a um nobre colega de profissão, notei que a sala voltou a ser tomada pelos convidados. Como mais uma surpresa, um enorme bolo avançou pela sala enquanto os convidados, regidos por minha esposa, que havia planejado toda a noite nos mínimos detalhes, aplaudiam e cantavam “parabéns para você”. Foi a melhor surpresa de aniversário que já tive em minha vida.      

Respirei fundo para apagar as velas do bolo. Os pedidos foram poucos, pois a vida já tem sido demasiadamente farta em oportunidades para que eu realize meus sonhos. A noite continuou regada a muitos sorrisos e muitos momentos de alegria. As pessoas circulavam pelos ambientes clássicos da Academia enquanto uma pequena caixa de som tocava uma seleção fina de Head Bob. Quando terminaram os autógrafos, ainda tive tempo para conversar com alguns amigos, que tenho certeza que saíram da festa contentes com o que experimentaram. Para além da celebração, escrever um livro sobre educação no momento histórico em que estamos vivenciando é um enorme desafio. Os próximos anos serão complexos e os desafios são inúmeros. Alguns deles são inadiáveis, como a revalorização docente, o financiamento público para educação e pesquisa científica, e o papel das novas tecnologias e das famílias no processo educacional. Tudo isso sem perder o fôlego ou desanimar.

Quando cheguei em casa, exausto pela noite, vi que a minha mesinha da sala continua cheia de livros. Eu escolhi a literatura e a escrita. Nunca me decepcionei com eles. Para mim, ainda é a melhor das tecnologias, pois faz com que eu, constantemente, me atualize como ser humano. Quase igual a ele, somente o avião, que é a coisa mais próxima que temos da viagem no tempo. Falando nisso, está na hora de correr novamente para o aeroporto.        

 

The Best Technology

The day had been too busy and the last few weeks had passed in the blink of an eye. When I arrived at the founding room of the Sergipe Academy of Letters, I found it almost empty. The flowers on the table where I would sit denoted that the atmosphere for that night would be solemn and elegant. On the walls, the oil painting portraits of some immortals, people of great importance to the educational and cultural scene of our state. The historic furniture remained impeccably preserved.

Seeing the decoration, my wife immediately invited me to sit at a chair reserved to me. She wanted to take some photos. I responded to her request embarrassed, as being photographed is a skill I haven’t already mastered. As soon as I was seated at my spot at the table, which had been prepared for the launch of my book, the first guests arrived to ask me to sign their books. It feels amazing to be able to dedicate a book to someone special. A publication is, for the most part, the fruit of the hard work and enormous perseverance of a writer. A few minutes later, I saw a small line form, and suddenly, as if by magic, the room was filled with people. At the opening of a solemn session, the President of the Sergipe Academy of Letters asked everyone for silence and informed us that the work of that evening would be opened with a recitation of a text, written by Frei Betto. The guests organized themselves into a large circle and attentively waited for the poet, granddaughter of the president, to begin her recitation. 

“I am very special. My technology is unsurpassed,” she said loudly and authoritatively. In that second she took all the attention of the room to herself. Her eyes sparkled and her arms gestured the importance of each word. Her hands cut the air making the same impact as a new idea has on our mind. She stepped forward and said, "I work in silence, and I never bother anyone, I never insist." I remembered the countless hours I spend weekly in my office writing this column. In my work calendar, no second can be wasted, otherwise, I will not complete any of the many tasks I work on each week. Working with words is quiet work, and we have to be elegant enough not to insist when people don't want to hear us. You have to do this without ever giving up on your ideal, because like the weather, ideas change, opinions wind up, and what was boring becomes interesting at some point in history. The audience did not take their eyes off and followed her word for word. “Without me, humanity would have lost its memory,” she emphasized as one who dissects the very nature of the human condition. Without the record of our intelligence, we would never reach the level of development we currently have. "Free and read, I'm a book," she said, pulling all the air back into her lungs.

I was speechless. I simply thanked the gift and stressed the courage of all guests to defend literature, which from time to time is so vainly attacked by people who like to boast about its lack of reading. I took my seat and dedicated myself to the rest of the evening to writing book dedication to all the people who attended the book launching ceremony. I did this very carefully because I have to be grateful to those who decided to take their night off to take a long line in exchange for a book and an autograph. I tried to personalize with new words each of the books that came to my hands. I tried to be simple in the messages but elegant in their content. I was immensely happy to be able to sign books for people for whom I have great admiration. Some friends were moved by the words written in the book, which deeply touched me. As the evening wore on, while I devoted a book to a noble colleague by profession, I noticed that the room was once again taken over by the guests. As another surprise, a huge cake advanced across the room as the guests, conducted by my wife, who had planned all night in fine detail, cheered and sang "Happy Birthday". It was the best birthday surprise I've ever had in my life.

I took a deep breath to blow out the candles on the cake. I have only made few wishes, as life has already been too full of opportunities for me to fulfill my dreams. The night continued with many smiles and many moments of joy. People circled the classic Academy atmosphere while a small speaker played a fine selection of Head Bob. When the autographs ended, I still had time to talk to some friends, who I'm sure left the party happy with what they experienced. Beyond the celebration, writing a book about education in the historical moment we are experiencing is a huge challenge. The coming years will be complex and the challenges are numerous. Some of them are unavoidable, such as the increase in the value of professors’ profession, public funding for education and scientific research, and the role of new technologies and families in the educational process. All this without losing our breath or getting discouraged.

When I got home, exhausted at night, I saw that my living room table is still full of books. I chose literature and writing. I was never disappointed with them. For me, it's still the best of technologies because it constantly makes me update myself as a human being. Almost like it, just planes, which is the closest thing we have to time travel. By the way, it's time to run again to the airport.