01/12/2025 as 19:52
ARTIGODaniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe
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O despertador me chama às 5h40 com a mesma melodia maviosa de sempre. A camisa de botão verde e a calça marrom são boas sugestões de uma vestimenta clean e neutra, típicas de um psicólogo.
O engarrafamento é convidativo para o início das divagações.
Os gritos e a grande agitação dos torcedores rompem, mais uma vez, a cadeia dos meus pensamentos. Instantes de alegria, comoção nacional. Será mesmo a vida uma coleção de instantes, como nos diz Goethe, e a felicidade algo ilusório?
Ainda é possível visualizar o resto do lixo vermelho e preto das comemorações do título da Libertadores no final de semana. Contudo, os fragmentos da sessão de sexta à tarde não me deixavam em paz.
Dizia o senhor P:
“Não havia me dado conta da repetição até senti-la, na minha cabeça e no meu coração, em toda a sua força. As ideias — ou melhor, os mandamentos — agem de maneira imperativa, coordenando as minhas ações, o meu discurso, forjando ideias fixas, e não tenho nenhum poder sobre elas. Travo batalhas inglórias, já há muito perdidas no seu nascedouro.”
Assim o senhor P seguia o encadeamento de suas ideias, sempre muito fiel à associação livre. A psicanálise tem dessas coisas, não é? Não sei se a compreensão das minhas questões me ajuda na vazão das minhas angústias ou se me enreda ainda mais na trama inconsciente.
“Era só mais uma garota em meio a tantas outras, e no final das contas todas são iguais”, dizia, com aspereza, o senhor P. “Não preciso me preocupar com nada! Não quero ninguém me aperreando. Não quero ver você aqui quando acordar!” — assim a mandei embora.
“Antes ela do que eu!”
O sabor do expresso indiano trouxe à tona tais fragmentos clínicos. O curioso é que, nesse ínterim entre a última sessão do senhor P e o gole do saboroso café, já haviam se passado três dias, e aquilo ainda se mantinha plasmado em minha memória.
A cafeteria Cristovão permitia a observação de tipos curiosos, daqueles que só conseguimos notar no fracionado tempo do acaso. Enquanto uns passeiam pelas seções de um lado para o outro, ao modo de flâneur, tantos outros comem rápido para chegar a tempo ao embarque do transporte.
As fisionomias são demasiadamente interessantes. Um jovem apaixonado reúne, em uma cesta, os itens para o preparo de uma quiche de morango com queijo e avelã, para surpreender sua amada.
Um homem maduro recolhe, em seu carrinho, itens descartáveis de higiene pessoal, fraldas geriátricas, água mineral e lenços umedecidos, abastecendo o arsenal necessário para mais uma rotina semanal de visitas hospitalares.
Novamente, o celular informa mais uma triste notícia: duas funcionárias do CEFET do Rio de Janeiro foram assassinadas de maneira brutal.
Lembro-me de que, certa vez, fui surpreendido por um questionamento em sala de aula:
“Professor, o senhor prefere a redpill ou a bluepill?”
No início não entendi do que se tratava. Talvez uma referência a Matrix, pensei. Porém, o alunado era muito jovem para conhecer o filme, apesar da fama e do sucesso que alcançou.
No intervalo entre as aulas, pesquisei para saber do que se tratava a oferta das pílulas azul e vermelha. Vi que, juntamente com termos como incel, a redpill se refere a um fenômeno que agrega, em seu cerne, misoginia, racismo, machismo, homofobia etc.
Prontamente entendi o que os alunos queriam dizer. De imediato compreendi todo o contexto que permeava e alimentava não só as conversas daquele grupo específico, mas também a repetição comportamental que meu paciente tentava tratar em terapia. Tais ideologias, reproduzidas nas redes sociais, retroalimentam e reproduzem comportamentos agressivos — ora abertamente violentos, ora travestidos de discurso irônico, “de brincadeira”, mas sempre marcados pela mesma matriz de ódio.
Como explicar tamanho ódio às mulheres? A caixa de Pandora foi aberta, mas raramente nos perguntamos por que motivo Pandora a abriu. Dito de outro modo: o que fez Pandora abrir a caixa?
Qual o papel da educação nesse contexto? Que reflexão tirar da barbárie perpetrada dentro de uma instituição federal de ensino?
E, sobretudo, qual é o nosso papel enquanto educadores, psicólogos, trabalhadores de uma cultura em ruínas que ainda assim insiste em produzir sentido?
São 6h45 da manhã. Minha agenda semanal se inicia às 8h, e eu já vi elementos suficientes para me capturar da minha paz de espírito. Minha supervisão clínica vai render na próxima quarta-feira.
Concluo respirando fundo.
Entre o tumulto das ruas, o café quente, o desabafo de um paciente e as notícias brutais que atravessam o cotidiano, percebo que a vida segue em sua trama paradoxal — frágil, intensa, repetitiva, e, ainda assim, aberta ao trabalho paciente da palavra.
Talvez seja nisso que resida nossa tarefa: sustentar o humano onde o humano parece faltar, e continuar escutando, mesmo quando o mundo grita.