15/12/2025 as 10:03

ARTIGO

Entre Luzes e Ausências: uma leitura psicanalítica do Natal

Daniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe

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Ontem me deparei com uma caravana natalina. Elfos e duendes pulavam e sassaricavam pela rua, numa coreografia alegre e ligeira. Vi o Papai Noel no alto de uma Hilux e, logo atrás, uma imensa fila de caminhões da Coca-Cola, todos iluminados. A versão moderna do bom velhinho é curiosa: embora vegana — por poupar as renas do árduo trabalho de carregar o Noel e seu saco de presentes —, está longe de ser ecológica, dado o número excessivo de veículos motorizados. Não sei explicar exatamente por quê, mas aquilo me causou uma tristeza profunda.

Falando contigo, veio-me à memória a árvore de Natal da minha infância. Lembrei-me do melhor abraço do mundo. Lembrei-me da minha falecida mãezinha.

O final do ano costuma pôr termo à sequência de projetos, sonhos, desilusões e sofrimentos — ao menos para aqueles que concebem o tempo como sucessão linear de instantes, contados segundo a métrica dos segundos. É curioso o quanto o período natalino revolve sonhos, decepções, dores e amores. Para alguns, dezembro anuncia alívio; para tantos outros, sofrimento; e, para aqueles cuja experiência do tempo não é cronológica — sujeitos eclipsados, deslocados, aprisionados na temporalidade infernal do sempre igual —, trata-se apenas de mais um mês, mais um dia, ou mesmo apenas alguns minutos no instante estático da fixação traumática.

O homem maduro, fechado em sua casmurrice, gostava do Natal, pois nem sempre permaneceu fiel a essa condição. O homem maduro já foi criança. Já conheceu, de forma intocada, a dimensão encantada do mundo.

Entretanto, desde muito cedo conheceu a dor. A dor física veio acompanhada da dor da alma. Fora rejeitado ainda quando estava imerso no líquido amniótico. A infância foi extremamente difícil e infeliz. A todo instante, era invadido por uma avalanche de informações: o contato com o mundo hostil além das grades da janela e, não menos inquietante, o estranhamento constante em relação ao próprio corpo.

Cada dia era matizado por nascimento e morte. Às vezes, o sol da manhã punha fim à série de tormentos que afastavam o sono; outras vezes, as feridas abertas durante o dia afastavam-no definitivamente. Seu mantra era simples e insistente: eu quero ser invisível. Só sair e voltar para casa despercebido. Não chamar atenção. Apenas ser invisível.

O desejo de invisibilidade, sonho infantil, tornava-se cada vez mais intenso. Todas as noites, em meio às dificuldades para instaurar o sono, o projeto de homem suplicava por ajuda para pôr fim àquele sofrimento.

Certo dia, após mais uma sessão de violência infantil, um de seus algozes — não se sabe se por pena ou por um lampejo de bonomia — comentou sobre a existência de uma paquinha mágica. A possibilidade, após muitos conflitos internos que faziam de tudo o que vinha do mundo externo algo ameaçador, tornou-se reluzente aos olhos do projeto de homem, sobretudo após a confirmação de sua existência pelas palavras da tia.
Quando criança, mainha dizia que meninos “moles” melhoravam quando passavam a paquinha na mão. O cachorrinho-da-areia servia para isso: concedia agilidade e astúcia, tornando-os mais espertos para a vida.

Um dia, em sua biblioteca, encontrou um livro de Hoffmann que descrevia a existência de um fio vermelho capaz de conceder semelhante poder. Contudo, segundo o conto, a dádiva cobrava algo imprescindível e vital em troca. O projeto de homem hesitou: se aceitasse a paquinha mágica, algo em sua vida poderia piorar — mas o quê? Diante de tanto sofrimento, o cálculo era irrisório: trocar uma dor infinita pela possibilidade de uma vida menos dolorida parecia razoável, pois ele nunca fora verdadeiramente feliz.
No livro, o fio vermelho, preso à testa, concedia invisibilidade, alimentando ainda mais os rumores encantados sobre a paquinha mágica. Se uma simples linha tinha tamanho poder, imaginava ele, o que não faria um cachorrinho de areia?

Quis Deus que uma alma carinhosa cruzasse seu caminho, pondo fim àquela condição inicial de sofrimento. O amor de uma mãe devotada acalentava e protegia o homem maduro dos perigos do mundo externo. Ainda assim, o mundo insistia em retornar sob a forma de memória. A dor e o sofrimento são o principal estofo da lembrança. Por mais árduos que fossem os esforços maternos, as feridas fixaram morada na alma.

Forjou-se, assim, uma equação do destino: os traumas, inscritos desde cedo, retornavam com força no período natalino — época em que o primeiro amor de sua vida o deixara. A morte da mãe foi sentida como choque absoluto, afásico, inominável. Com ela, o Natal perdeu por completo o sentido. A dor foi tão intensa que o homem maduro paralisou.

Tal equação encantada é também produto do espírito natalino. Como nos lembra Walter Benjamin, vemos sonhos materializados nas mercadorias. Elas revolvem esperanças, aliviam frustrações, capturam a trama inconsciente do Natal. O homem maduro sentia alívio ao comprar. Os objetos o remetiam à infância perdida, aos abraços e beijos maternos jamais reencontrados. E, tal como a paquinha mágica, o consumo atenuava — de modo igualmente mágico e ilusório — a dor da alma.

Mas toda magia tem seu preço. Assim como o fio vermelho de Hoffmann e a promessa encantada da invisibilidade, o consumo oferece apenas um alívio provisório, um consolo que não cura a ferida, apenas a anestesia. O Natal, nesse sentido, revela sua ambiguidade: tempo de luzes e promessas, mas também espelho das ausências mais profundas. O homem maduro aprende, lentamente, que não há mercadoria capaz de restituir o abraço perdido, nem objeto algum que devolva o tempo interrompido. Resta-lhe, talvez, não a invisibilidade sonhada na infância, mas a coragem de sustentar a memória, reconhecer a dor e, quem sabe, transformar o sofrimento em palavra — única forma possível de resgatar, ainda que fragmentariamente, a dimensão encantada do mundo.