05/04/2026 as 10:34
ARTIGODaniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe
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Há um ditado alemão que diz: se há dez homens sentados à mesa e um fascista se senta com eles, e nenhum se levanta, então há onze fascistas sentados.
No retorno para casa, o psicanalista pensava em tudo o que havia se passado na sessão do senhor P. Precisava, urgentemente, encontrar sua analista. Era necessário trazer os conteúdos inconscientes à ordem do dia. Algo daquele material encontrara eco no mais íntimo de seu ser — também inconsciente.
Um ídolo do futebol, quase aposentado, voltava a ganhar destaque nos noticiários. Dessa vez, como tem ocorrido com frequência, o que repercutia era mais um comentário infeliz, no qual expressava, novamente, machismo e uma indolência cúmplice com a ignorância — matéria-prima bruta da misoginia.
Somada a essa notícia, o algoritmo lhe lançou outra: um ano antes, dez mulheres haviam sido assassinadas, vítimas de feminicídio, exatamente no feriado da Semana Santa. O que esperar daquele feriado em 2026?
O psicanalista pensou em sua juventude. Pensou nos modelos de homens que o inspiraram — e naqueles que abandonara ao longo do amadurecimento.
Lembrou-se da graduação em Psicologia. Lembrou-se de seu brilhante professor de Filosofia. Uma figura pitoresca: cachimbo sempre à mão; na outra, um cetro que mais parecia um cajado. Caminhava a passos lentos, seguido por um séquito de admiradores. Parecia uma figura mítica guiando um rebanho.
Dotado de memória prodigiosa, suas aulas eram uma imersão em erudição: Antiguidade Clássica, Romantismo alemão, literatura russa. Quem quisesse acompanhá-lo deveria, como ele próprio insinuava com ironia, reencarnar ao menos três vezes para começar a engatinhar nas leituras que, aos dois anos de idade, já havia devorado — como dizia Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Havia quem dissesse, entre seguidores mais fervorosos, que ele lia dois livros ao mesmo tempo: um com cada olho.
Suas aulas eram lotadas de jovens mentes ávidas por conhecimento.
Esse mesmo homem, brilhante tecnicamente, era, no entanto, deplorável como ser humano. Qualquer questionamento dirigido a ele era classificado como “filosofia menor”, ignorado ou obscurecido por categorias abstratas e retórica vazia — opacas para os atentos, mas deslumbrantes para os embasbacados.
Amava Martin Heidegger. Amava Richard Wagner.
Qualquer crítica era abafada pelo coro feroz dos admiradores:
— “Você não entendeu direito.”
— “Quem é você para questionar o professor?”
Mas nem isso, por si só, o tornava totalmente deplorável. O que o definia era algo mais profundo: ele era contrário ao que temos de mais humano. Era cruel, pérfido, egoísta, manipulador — um ilusionista, replicador de falsas consciências.
Algo impensável de conceber naquela figura imaculada, santificada, adorada por todos.
Fora do ambiente acadêmico, retirava o pano que cobria o autorretrato de horror. A vilania imperava.
Foi difícil, para o jovem psicanalista, desfazer-se de tamanho encantamento.
Em uma de suas idas à biblioteca, passou pela escondida seção de obras de referência. Sempre lhe chamara atenção um tipo curioso que, no mesmo horário em que ele estudava, descia as escadas que levavam aos andares inferiores da biblioteca.
Nesse dia, porém, a curiosidade venceu. Seguiu o sujeito escada abaixo. Ao perceber a aproximação, o homem desapareceu como num passe de mágica.
Diferentemente do salão superior — onde o barulho das conversas paralelas, jogos de carta, roncos e ladainhas de todo tipo traziam uma dificuldade a mais para a concentração e a leitura —, as dimensões do salão inferior eram inimagináveis. Longas prateleiras, com escadas corrediças, compunham um espaço que parecia intocado — como a Biblioteca de Alexandria. O silêncio era total. Ali, ele ouvia não apenas o pulsar do sangue ao percorrer suas veias, mas também seus pensamentos e desejos mais obscuros, íntimos, soterrados por camadas daquela cultura e “educação” rasteira, imbuída de superficialidades, adornos e leviandades.
Passou a frequentar aquele lugar. Dedicou manhãs e tardes à exegese de textos clássicos.
Fazia uma espécie de ritual. Seguia sempre o mesmo caminho até chegar à biblioteca, com um copo de café na mão, ansioso, realizado e inteiro. Sabia que havia encontrado algo precioso naquele lugar. A partir de então, não dependia mais de ninguém na gestação de sua razão. Sua mente havia se libertado — e nada mais o amarraria novamente.
E, à medida que avançava no conhecimento, a figura imponente do professor tornava-se cada vez mais desinteressante.
Um dia, o professor tentou constrangê-lo em público, lançando-lhe uma pergunta em tom provocativo.
Mas o mosquito do pensamento crítico já havia inoculado o antídoto. O jovem psicanalista permaneceu sereno. Compreendeu que tudo aquilo era apenas um espetáculo narcísico — e que não era obrigado a responder a todos os questionamentos.
— Não faço a mínima ideia, professor.
Respondeu com calma, firme, inabalável.
O professor sentiu um frio na espinha.
“Será que ele sabe?”, pensou.
Talvez fosse melhor deixá-lo em paz.
Voltamos ao ponto de partida.
O ídolo do futebol retorna aos noticiários. Alguns dizem: “Mas ele tem talento — deve ser tolerado.”
Não podemos criticá-lo.
Será mesmo?
Nessa mesma linha, devemos separar, no caso de Martin Heidegger, a filosofia do filósofo? E, no caso de Richard Wagner, a música do compositor?
Será que o apelo a categorias abstratas — ou às melodias sublimes, supostamente alheias à política — basta para absolver?
Será suficiente para uma “passada de pano” geral?
Ignorar e seguir em frente?
Será que, ao não criticarmos sujeitos eticamente deploráveis, não nos tornamos cúmplices de suas barbáries?
Talvez Karl Popper estivesse certo: a tolerância não pode ser ilimitada. Uma tolerância irrestrita conduz à sua própria destruição.
Não se trata de interditar obras, nem de negar a complexidade humana — mas de recusar o conforto da dissociação moral conveniente. Separar obra e autor pode ser, em certos casos, um exercício crítico legítimo; mas também pode funcionar como mecanismo de defesa, uma forma sofisticada de recalcamento coletivo.
O psicanalista, agora, já não ignora o incômodo. Ele sabe: aquilo que não é simbolizado retorna — muitas vezes sob a forma da repetição.
E a repetição, quando não interrogada, torna-se cumplicidade.
Talvez o verdadeiro gesto ético não seja levantar-se da mesa apenas quando o fascista se senta, mas recusar-se a naturalizar sua presença.
Pois o silêncio, nesse caso, não é neutro.
É posição.