20/05/2020 as 12:22

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Como lidar com o luto em tempos de pandemia

Com rituais religiosos impossibilitados, o processo do luto tende a ser ainda mais doloroso. A psicóloga e psicanalista Petruska Passos fala sobre o que pode e deve ser feito neste momento difícil

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Perder alguém muito querido, seja parentes ou amigos, é uma das situações mais difíceis que a vida pode trazer. Em alguns, o sofrimento é mais intensificado do que em outros, bem como o processo de aceitação pode ser mais ou menos longo a depender de cada pessoa. E com a pandemia do novo coronavírus, o luto está sendo sentido de uma maneira diferente, sendo ainda mais doloroso pelo fato de não poder realizar rituais religiosos em caso de morte pela doença.

Como uma maneira de evitar transmissão coletiva do vírus, precisou serem proibidos velórios e enterros dos pacientes que testaram positivo no mundo inteiro, e com isso, além de ter que enfrentar a dor de perder alguém, o luto se intensifica para esses familiares que sequer têm o direito de fazer um ritual religioso de despedida.

A psicóloga e psicanalista Petruska Passos explica que o processo do luto não é curto, e tem várias fases. Há, inclusive, segundo ela, algumas teorias, como a teoria das 5 fases do luto: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação. “Mas, essa é uma teoria, onde não necessariamente todas as pessoas vão seguir essas fases. E também pode haver alteração de fase, e pode não necessariamente seguir essa ordem. Pode andar ou retroceder. Há uma oscilação”, aponta Petruska.

Na visão psicanalista, conforme ressalta a psicóloga, o luto é um sentimento de perder algo ou alguém que faz parte a vida daquela pessoa, e que de repente foi embora. “Aquela pessoa investiu muito sentimento no ente querido, e que pode ser de raiva também, sentimentos integrais, de todas as formas. Então aquele espaço que era daquele ente querido, deixa de existir. A vinculação, o tempo que tinha com a pessoa, a relação, de repente fica vazio. E esse vazio a pessoa em luto pode internalizar. Quando o trabalho do luto é bem sucedido, a gente consegue guardar a pessoa querida sem dor. A gente vai sentir saudade, tristeza, mas também vai sentir alegria”, explica a especialista.

Há quem consiga passar por todo o processo de uma maneira menos sofrida e com um resultado positivo no final, mas, há aqueles que não conseguem se desprender do vazio, e Petruska norteia como isso pode ser feito por meio de algumas técnicas.

“Tecnicamente falando, o processo de luto precisa de um desinvestimento. A pessoa precisa levar o ente querido para dentro de si, para guardar e disponibilizar o querer bem para outra coisa ou outra pessoa. Perder um pai, por exemplo, não tem como substituir, mas, é possível fazer coisas que o lembre e que faça bem. A forma de se ter um luto saudável, é quando depois de um tempo se passa a realizar atividades que remetam ao ente querido para ter a lembrança dele. Quando isso não é possível de ser feito, a pessoa sofre muito. Podendo entrar numa melancolia, depressão, por não conseguir lidar com a dor”, aponta a psicóloga.

Ainda conforme Petruska, o luto não é um processo rápido, e é preciso que ele seja vivido. "É como se a gente precisasse trazer cada lembrança daquela pessoa, cuidando da lembrança e digerindo, para transformar ela em saudade e para poder lembrar esse carinho que a gente tinha, e poder delegar isso para outra esfera. E é muito demorado o processo”, ressalta.

Por se tratar de uma situação adversa, a da pandemia, onde muitos estão perdendo muitas coisas, não só pessoas, segundo Petruska, o tempo de elaboração desse momento poderá ser ainda mais longo e lento, e em esfera coletiva, já que toda a sociedade está sofrendo.

“Tem pessoas que estão sofrendo por antecedência por medo de perder alguém querido. Isso agrava o sofrimento. Além do medo de que aconteça com elas próprias, porque o medo de morrer é real, e ele se soma ao luto. É preciso passar pela dor, ressignificar, e transformar a forma como está sentindo para uma forma menos sofrida, e cada um vai ter um jeito próprio de fazer isso. Aqueles que não conseguirem, vão precisar da ajuda da psicoterapia. Se for muito doloroso a fim de inviabilizar a rotina e a vida da pessoa, aí sim ela vai precisar de acompanhamento psiquiátrico também. Nesse ponto, se a pessoa não consegue encontrar recursos dentro de si para transformar a vida e a rotina e guardar só as memórias boas e o sofrimento ir diminuindo aos poucos, aí sim, se faz uma intervenção”, explica.

A respeito dos rituais religiosos, a psicóloga acredita que esse é um momento de readaptação. Em velório e enterro, os parentes que perderam alguém têm a oportunidade de se despedirem, de olhar poder enxergar a realidade da situação, e esse processo ajuda mentalmente e psiquicamente a lidar com a perda, segundo Petruska.

“Mas, diante da situação, é preciso transformar esse processo de velar, de sepultar e de fazer todo o ritual necessário, em algo necessário. É possível fazer pela internet, por exemplo. Reunir todos os familiares para rezarem juntos, com alguma foto ou algo que tenha um significado da pessoa que foi embora, e assim poder readaptar esse processo que é muito importante, ou todos decidirem que em algum determinado horário ou dia, fazer um pensamento, ou ritual. Celebrar missas ou cultos por internet. O padre Fábio de Melo tem realizado missas aos domingos na casa dele, e transmitindo ao vivo para as pessoas. Então essa pode ser uma opção”, indica a psicóloga.

|Repórter: Laís de Melo

||Foto 1: André Moreira/Arquivo JC | Foto 2: Jadilson Simões