21/05/2020 as 11:53

ENEM 2020

Sintese diz ser preciso muita cautela para definir novas datas

A presidente do sindicato, Ivonete Cruz, defende o adiamento e reforça que para definir um novo calendário é necessário levar em consideração a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia, respeitando o tempo que professores e alunos precisarão na retomada

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O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) anunciou na última quarta-feira, 20, o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020. A prova, que aconteceria em novembro deste ano, deverá agora ser realizada entre dezembro e janeiro. Os sindicatos de classes e entidades governamentais de educação em todo o país já vinham se manifestando contra a realização do exame. Para o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica em Sergipe (Sintese), diante da realidade vivida neste momento de pandemia em todo o mundo, discutir calendário de realização de provas e exames é algo bastante complexo e necessita cautela. 

Como explica a presidente do Sintese, Ivonete Cruz, além de ser adiado, quando se pensa em uma nova data de realização do exame é preciso respeitar o tempo que as escolas, professores e alunos precisarão para a preparação necessária quando as aulas forem retomadas, levando em consideração a suspensão dos encontros presenciais. Afinal, boa parte dos alunos do ensino público não possuem acesso às plataformas digitais para estudar de casa, segundo aponta a sindicalista. 

“Defendemos o adiamento, e que somente seja realizado o exame no momento em que os estudantes possam de fato ter tido acesso ao conteúdo do exame, repassado pelos professores. É preciso garantir a equidade nos assuntos de todas as escolas públicas, porque de qualquer forma eles sofrem perdas”, acredita Ivonete.

As aulas escolares foram suspensas em Sergipe ainda no primeiro decreto do governo, como medida de prevenção da proliferação da doença, em 18 de março. Segundo Ivonete, havia cerca de um mês do início do ano letivo. “Os alunos do terceiro ano poderão ser muito prejudicados se não houver cautela. É preciso ter muito cuidado com qualquer construção que se faça na tentativa de paliativos”, aponta.

Ainda conforme a presidente ressalta, mais de 50% dos alunos de escolas públicas no estado de Sergipe não possuem condições de assistir aulas online, pela falta de acesso à internet banda larga de qualidade, ou por não ter nem mesmo computador.

“Por isso não estão sendo realizadas aulas online para os alunos da esfera pública, pois muitos seriam prejudicados e não podemos promover essa desigualdade. O governo do Estado de Sergipe fez uma parceria com o Estado do Amazonas, e lançou o Estude em casa, mas é como eu disse, muitos não têm nem como acessar. Isso seria muito difícil de funcionar na rede pública. Temos que discutir 2020 diante da realidade. Num ano atípico é preciso ter cautela”, reitera Ivonete.

O Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) emitiu uma nota, onde reafirma o posicionamento pelo adiamento das provas, e relata uma grande preocupação com as dificuldades que estão sendo enfrentadas neste momento pelos estudantes das escolas públicas e também privadas.

“É preciso considerar ainda as grandes desigualdades existentes na educação do país, ampliadas com a suspensão das aulas presenciais nas escolas. No caso do Enem, a preocupação é maior com aqueles mais prejudicados, os alunos do último ano do Ensino Médio, especialmente da rede pública. Dessa forma, a garantia imediata do adiamento, solicitada pelo Consed ao Inep, desde o anúncio do calendário 2020, foi um avanço e reduz um pouco a angústia e a pressão que os estudantes estão sentindo nesse contexto de pandemia”, diz o conselho, em nota.

O Consed acrescenta ainda que “é preciso considerar também o período de suspensão da aulas presenciais e a previsão de retomada das atividades nas escolas”, finaliza a nota.

O secretário de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura, Josué Modesto dos Passos Subrinho, também é a favor do adiamento, e inclusive critica a resistência do governo federal em "escutar as razões dos estudantes" da rede pública. Para ele, a pandemia atinge a todos, mas com efeitos diversos. "Enquanto os estudantes das classes de renda mais elevada têm acesso a acervos educacionais produzidos e disponibilizados em suas residências, o que vai além das atividades de ensino remoto recentemente disponibilizadas, os de renda mais baixa, em boa medida frequentando escolas públicas, deixaram de ter acesso, desde que começou o afastamento social aos melhores acervos educacionais, ao convívio com professores e colegas. Devemos dizer que todo o esforço recente de professores e técnicos para prover condições de aprendizagem não é capaz de preencher o alargamento do fosso de oportunidades", reforça. 

|Repórter: Laís de Melo

||Foto: Jadilson Simões