23/05/2018 as 15:28

Cultura

Exposição FotoSentido fomenta uma comunicação mais inclusiva

O trabalho é fruto de uma parceria entre o Coletivo Sala de Reboco e o Instituto Pedagógico de Apoio ao Surdo de Sergipe (Ipaese) e ficará disponível em exposição no Centro Cultural de Aracaju até esta sexta-feira, 25.


A própria história da humanidade nos mostra que o homem é um ser em eterna transformação e movido a desafios. A arte feita por este mesmo homem é um reflexo dessas transformações e, também por isto, se traduz em tantos jeitos e formas e não há barreiras para as expressões. Prova disto é a exposição FotoSentido, uma mostra de fotografias feitas por jovens com deficiência auditiva. O trabalho é fruto de uma parceria entre o Coletivo Sala de Reboco e o Instituto Pedagógico de Apoio ao Surdo de Sergipe (Ipaese) e ficará disponível em exposição no Centro Cultural de Aracaju até esta sexta-feira, 25.

O projeto FotoSentido partiu de uma iniciativa do Coletivo em setembro de 2017, formado pelos estudantes de Jornalismo Caroline Matos, Clara Dias, Dayanne Carvalho, Elisa Lemos, Juliana Teixeira e Rafael Amorim. Com o intuito de incentivar uma comunicação mais inclusiva, fazendo com que causas ignoradas ganhem destaque, garantindo que as histórias de pessoas invisibilizadas sejam ouvidas e vistas, como descreve o próprio coletivo, o grupo se dirigiu ao Ipaese e fez a proposta de uma capacitação em fotografia para os jovens assistidos pelo instituto. “Entendemos que a fotografia é um mecanismo de expressão e, no nosso entender, esses jovens, mesmo com a deficiência auditiva, são extremamente capazes. Esse é o objetivo do coletivo, servir de ponte para que pessoas que costumam ser enxergadas como incapazes ou que acabam sendo marginalizadas de alguma forma, tenham a oportunidade de demonstrar o inverso do pensamento comum. Assim, começamos a capacitação com 10 alunos e, no final das contas, nós do coletivo que aprendemos muito”, contou Rafael, um dos idealizadores do projeto.

A capacitação tratou de fundamentos básicos da fotografia, no entanto, o alcance que a experiência teve foi profundo, tanto para os alunos como também para os capacitadores. Por se tratar de alunos com deficiência auditiva e os professores serem ouvintes, no início, foi proposta a presença de uma intérprete para mediar as aulas, mas, a troca foi tão intensa que, em pouco tempo, não foi mais preciso contar com os serviços da mediadora. “O interesse da comunicação é isso, sempre damos um jeito de nos fazer entender e foi isso que aconteceu. A troca entre nós e os alunos foi tanta que decidimos aprender libras por conta própria. Cada integrante do coletivo foi estudando em casa e, aos poucos, nossa comunicação com eles foi melhorando e fomos estreitando a relação, o que contou e muito para o resultado do projeto”, revelou Rafael.

A exposição FotoSentido foi justamente a conclusão dessa troca. Cada um dos alunos desenvolveu ensaios fotográficos de acordo com o que mais lhe chamava a atenção ou o que tinha mais a ver com sua percepção de mundo. Assim, no dia 9 de maio, o Centro Cultural de Aracaju, abriu os espaços para mostrar parte do projeto que, além de apresentar a fotografia e dar vazão à expressão, faz jus ao objetivo do projeto, que é justamente mostrar que não há limites para a capacidade humana e que a comunicação pode e deve ser inclusiva.

“Tivemos uma repercussão bastante positiva com relação ao projeto, mas, nossa preocupação era que eles tivessem essa resposta e pudessem se enxergar de outra maneira, com outras possibilidades e potencialidades, sem que a deficiência seja um empecilho. Agora, nosso objetivo é levar a exposição para outros lugares e os disponibilizaremos os ensaios completos no site do projeto”, afirmou Rafael.

Ensaios

Além de terem tido acesso a fundamentos básicos de Fotografia, Agnes Barreto, Bianca Leite, Dayvid Marques, John Lucas, Jonathas Silva, Letícia dos Santos, Lucas Albuquerque, Samara de Oliveira, Stefanie Bahia e Taiara Melo puderam ainda dirigir os ensaios fotográficos. Desde os ambientes escolhidos até os modelos e situações, foram de escolha deles, o que aprofundou ainda mais o olhar para as causas que eles decidiram retratar em imagem.

Os temas foram dos mais variados. As fotos retrataram o Centro de Aracaju, a feira, o cotidiano, flores, água, uma forma de expor aquilo que os alunos guardavam no íntimo. Em cada um dos espaços divididos e, ao mesmo tempo conectados, a descrição de cada ensaio e imagens em libra para facilitar a leitura dos sinais.

Um dos ensaios expostos é o de Samara de Oliveira, que escolheu compartilhar cenas de uma história criada e contada por ela, dialogando com arte e moda através da sua lente, como descreveu a apresentação do seu ensaio.

Outro ensaio é o de Dayvid Marques, que traduziu em imagens o poema “Todas as Manhãs”, de Conceição Evaristo. Nele, através da concepção do aluno, a fotografia fez uma versão de versos como “Todas as manhãs tenho os punhos/sangrando e dormentes/tal é a minha lida/cavando, cavando torrões de terra/até lá, onde os homens enterram/a esperança roubada de outros homens”.

“Para que pudéssemos realizar a exposição, contamos com a ajuda de muita gente através de um financiamento coletivo que conseguiu arrecadar a verba para cobrir as despesas. Divulgamos o projeto por meio das redes sociais e o público deu o retorno nos apoiando e incentivando a causa. Então, com a conclusão desse trabalho, nós nos sentimos gratos, sobretudo por sentirmos que conseguimos plantar uma semente que tem tudo para germinar”, concluiu Rafael Amorim.

AAN