20/06/2018 as 14:54

Cultura

Forró Caju 2018 dá ‘Vozes da Restinga’

Tributo às Catadoras de Mangaba sobe ao palco Clemilda no próximo dia 22.


Num ecoar de sonoridade diversas, o Forró Caju 2018 leva ao palco Clemilda, inserido no Marco Zero da cidade, ali na Praça General Valadão, o show ‘Vozes da Restinga: Tributo às Catadoras de Mangaba’, na próxima sexta, 22. Na interpretação de Patrícia Polayne e Mary Barreto, acompanhada dos músicos Dami Doria (violão), João Mário (contrabaixo), Danyel Nanume (bateria e percussão) e Pedro Mendonça (percussão), os cantos de comunidades extrativistas que, na lida diária, ressoam musicalidade, brincam com a cantiga e atravessam o tempo. A apresentação acontecerá às 20h.

Aos 22 anos de carreira artística, essa será a primeira vez que a cantora Patrícia Polayne participará do tradicional festejo junino, numa representatividade de vozes, por vezes silenciadas; por vezes, nem mesmo conhecidas, mas que carregam empatias, estendem expressivas notas, compartilham esperanças. “Estou me sentindo uma estreante, com um frio na barriga, pois nunca fui convidada, sendo essa a primeira vez em que canto no evento junino da minha cidade. Nós entramos na programação a partir do edital, que foi concorrido, muito difícil, mas que, graças ao esforço da equipe, conseguimos e nos faremos presente no palco Clemilda. Considero esse show um legado musical, um verdadeiro tesouro sonoro, pesquisa sonora da restinga sergipana”, afirmou.

Numa amplificação dos sons das catadoras, Polayne ressalta a possibilidade de ‘dar voz’ às mulheres de canto e luta. “Esse show é uma reverência às vozes dessas mulheres, catadoras de mangaba, de aratu, sereias do mangue. Ou seja, catadoras não só de mangaba, mas que pescam e fazem artesanato, têm uma lida muito feminina, muito matriarcal na comunidade. Então, a gente está homenageando essas mulheres que cantam enquanto trabalham. E elas são arquétipo de todas nós. Me identifico com essas mulheres, assim como me identifico com Nadir da Mussuca. Essas vozes que não têm lugar, não têm voz, não têm espaço. Então, estamos tendo essa oportunidade de levar esse show com o cancioneiro de mulheres que têm dois discos gravados”, destacou.

Com arranjos e direção musical de Dami Doria, o show contempla as canções de domínio público dos dois discos Canto das Mangabeiras, (2011) e Quero Ver Rodar... Com as Griôs na Restinga Sergipana (2016); sendo este último; indicado ao XXVII Prêmio da Música Brasileira, na categoria grupo regional, daquele ano. No repertório, baiões, galopadas e xotes, sob uma atmosfera brincante e feminina.

“Sou muito feliz e grata pela Mary Barreto trazer essa pesquisa para a gente, em ter esse insight com a Cláudia, que também participou da pesquisa. Agradeço à minha equipe formada por Ana Paula Salmeron, Kamilla Colansat, Fabio Viana e Bárbara Brandão, pois também inscrevemos o projeto no edital da Secult, mas por burocracia e edital obscuro não conseguimos participar. Mas, faremos essa apresentação de canções de domínio público, dando visibilidade ao trabalho dessas mulheres. E a sensação é maravilhosa em imaginar que as vozes serão ouvidas finalmente e que o público vai se deliciar porque algumas dessas canções já podem ser ouvidas no Youtube. É um deleite. Um frio na barriga, sensação de vitória por conseguirmos levar ao Forró Caju um projeto tão complexo no sentido estético”, disse Polayne.

Pesquisa

Concebido a partir da pesquisa etnomusical da arte educadora Mary Barreto, o show é um verdadeiro ‘tesouro sonoro’ descoberto durante o desenvolvimento de um trabalho de mapeamento socioambiental, nas cooperativas e comunidades extrativistas, cujas práticas, envolvem atividades de produção agrícola, artesanato, coleta de mariscos e frutos da restinga sergipana.

Estas mulheres, cantoras da restinga, tem no seu canto a presença do brincar, nas figuras do Reisado, das cantigas de roda, das danças, das rezas e dos folguedos, retratados nas canções que atravessam o tempo, e servem como o alento da lida diária.

Por difundir e dar visibilidade aos saberes das comunidades tradicionais da região costeira sergipana, o show Vozes da Restinga contribui com um importante legado musical de registro e pesquisa para esta e as futuras gerações, que se interessam por valores alinhados ao sentimento de pertença e identidade cultural. Esta identidade tem como símbolo o fruto da mangaba, por sua singularidade, delicadeza, abundância e um forte sabor agridoce.

Gilmara Costa/Equipe JC