18/07/2018 as 09:29

Cultura

Sopros em palhetas livres e outras conversas

‘Falando em Gaita’ reúne músicos na próxima sexta, 20.


Sopros em palhetas livres e outras conversasFoto: Lúcio Telles

É sopro, é beiço, é tempo no caminho. É mão em concha para dar intensidade à sonoridade do ar em baile por entre palhetas livres, invisíveis para quem tem o ouvido como único guia de notas a serem sopradas e aspiradas. É a gaita no universo das brincadeiras de menino, é a harmônica no mundo da música e de quem leva a sério os ‘bends’ (efeito sonoro). Com a boa intenção de tornar esse instrumento ainda mais conhecido e próximo à música sergipana e os sergipanos, o trio de gaitistas Igor Côrtes, Júlio Rêgo e Mateus Santana solta o ar e compartilha conhecimento no encontro ‘Falando em Gaita’, que acontece na sexta, 20, às 20h, no Blend Steakbar, no Parque do Cajueiros.


Na conversa informal e aberta ao público, será apresentada a estrutura física da gaita, tipos, técnicas, abordagens metodológicas e música (claro!) na companhia dos músicos Rodrygo Besteti, Ferdinando Santos e Lucas Pinheiro. “Cada um tem as respectivas especializações, resultados de vivências e experiências ao longo do tempo com a gaita. Da estrutura do instrumento aos diversos estilos musicais onde ele é aplicado, passando por diferentes tipos de gaita (cromática, diatônica, gaita baixo, etc), bem como abordagens metodológicas de aprendizado, esperamos abranger variados aspectos de interesse que a gaita possa levantar. O que esperamos é uma interação dos presentes, pois estaremos lá para dialogar com os participantes”, afirmou Igor Côrtes, músico e professor de gaita.


Segundo Mateus Santana, gaitista e luthier de harmônica, o encontro resulta do amadurecimento de um desejo latejante em colocar a gaita no lugar de destaque que ela merece estar. “É uma ideia já meio antiga que eu, Júlio e Igor já discutíamos e amadurecemos com objetivo de divulgar mais a gaita em Sergipe. Quantitativamente, a gaita tem se destacado muito pouco no estado. Há muitas pessoas interessadas nesse instrumento, porém, há por aqui um déficit em popularização e em informações sobre ele”, afirmou Mateus.


Numa ‘partitura’ desigual em relação a outros instrumentos, a harmônica ocupa o lugar de ‘participação especial’, sendo minoria no protagonismo musical, especialmente quando se trata de Sergipe. “A gaita ainda é um instrumento “extra” no ambiente musical sergipano. Ela aparece na maioria das vezes como uma participação em algum trabalho de artistas daqui. Há poucas formações musicais (bandas, instrumentistas, etc) onde ela aparece como principal protagonista”, ressaltou Mateus.


Para o gaitista Júlio Rêgo, a visibilidade da harmônica enquanto instrumento musical como violão, bateria, baixo, entres outros, estaria relacionada a um misticismo que faz ‘faltar o ar’ para a contemplação sonora das palhetas livres à palma da mão. “Parece-me que há uma certa mística em torno da gaita e ela é considerada meio que um instrumento de brinquedo, não sei, algo que não se leva muito a sério quando comparada aos outros instrumentos citados. Para se ter uma ideia do que falo, o gaúcho Edu da Gaita (1916-1982), considerado internacionalmente como um gênio do instrumento, tinha o seu registro da Ordem dos Músicos como “músico excêntrico”. Em sua época a gaita não era considerada mesmo um instrumento de frente, como um violino em uma orquestra, por exemplo. Esse estigma equivocado ainda é carregado até hoje, embora a gaita seja capaz das mais expressivas possibilidades musicais”, explicou Júlio Rêgo.

 

Aprendizado


Se o obstáculo para admiradores do instrumento iniciarem os estudos e ao desfio do sopro na gaita for a dificuldade, o gaitista e professor Igor Côrtes garante que foco e dedicação são o necessário, assim como para o aprendizado de qualquer instrumento.
“A gaita pode ser um instrumento muito fácil de ser tocado, pois basta soprar ou aspirar que sai som. E com isso já há música, de uma maneira simples. Entretanto, se aprofundar em técnicas pode levar o instrumentista a incríveis descobertas, possibilidades de executar músicas mais complexas e, com isso, um grande enriquecimento musical. Penso que muita gente interessada em aprender a tocar gaita não ultrapasse certas dificuldades por falta de foco, de estímulo. De qualquer modo, gaita não se diferencia de qualquer outro instrumento. Dessa maneira, tocar gaita não é nada impossível. Basta querer e se dedicar”, afirmou.

 

Gilmara Costa/Equipe JC