15/08/2018 as 10:34

Teatro

A modernidade da desordem de ‘Hamlet’ em Aracaju

De 17 a 19, a Armazém Companhia apresenta o premiado espetáculo no Teatro Tobias Barreto.


A modernidade da desordem de ‘Hamlet’ em AracajuFoto: João Gabriel Monteiro

“Hamlet, apesar de ter sido escrita há tanto tempo, é uma peça que coloca a gente em diálogo direto com o nosso tempo, sem exigir que sejamos ilustrativos ou literais”. Essa é a afirmação de quem, através da dramaturgia, deseja falar sobre como é estar no mundo de hoje. Paulo de Moraes é o afirmador e diretor da Armazém Companhia de Teatro, que sobe ao palco do Teatro Tobias Barreto, no período de 17 a 19 deste mês, para a apresentação do premiado espetáculo ‘Hamlet’, baseado na obra-prima de William Shakespeare.


Num alinho entre o contemporâneo e as características clássicas da obra, Paulo exibe em cena os conflitos de ‘ontens’ e a desordem moderna de ‘hojes’. “Shakespeare faz uma radiografia tão detalhada do homem, que continua valendo até hoje. Parece que mudamos muito pouco com o passar da história. Questões levantadas por ele em 1600 continuam valendo para nós. É uma peça incrível, inesgotável, infinita. E muito popular. Isso é surpreendente. A nossa montagem tem muito esse mérito de trazer essa história tão conhecida e mostrar Hamlet como se a gente estivesse ouvindo isso tudo pela primeira vez. Isso só foi possível com um conjunto muito ajustado. Uma tradução que se mantém fiel, mas que traz para o agora, consegue uma comunicação direta, mas sem perder a beleza do bardo. Um trabalho lindo de todos os atores, que se apropriam das palavras de Shakespeare como se fossem suas. E uma contemporaneidade na forma, com as músicas, o visual, os vídeos, esse jogo de esconde e revela que o cenário propõe”, destacou o diretor Paulo de Moraes.


Já tendo colecionado os palcos das cidades do Rio de Janeiro (RJ); Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG) e Recife (PE), depois de Aracaju (SE), o espetáculo que está em cartaz há mais de um ano ainda tem como destino as capitais nordestinas Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Natal (RN), entre outras. “O Brasil é muito diverso. Mas o que a gente tem percebido em todas as cidades é a força do texto de Shakespeare e dos atores. É incrível como essa peça consegue ser popular ainda hoje, 400 anos depois de ter sido escrita. Queremos apresentar Hamlet por muito tempo e estamos fechando uma turnê pela China no ano que vem”, afirmou.


Na montagem da Armazém Companhia, sete atores dão vida aos personagens de Shakespeare. São eles, Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Marcos Martins, Lisa Eiras, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost. Na história, assassinato, traição, manipulação e sexualidade são as armas usadas na guerra para preservar o poder. E no centro disso está Hamlet, um homem desesperadamente preocupado com a natureza da verdade, um homem notável que quer ser mais verdadeiro do que, provavelmente, é possível ser. E que exige do resto do mundo que sejam todos verdadeiros com ele. Mas é possível conhecer a si mesmo integralmente? É possível conhecer integralmente as pessoas a seu redor? Hamlet se fragmenta, nossa época o faz assim, um sujeito destrutivo, atormentado e letal.


Trinta anos
A Armazém Companhia de Teatro foi formada em 1987, em Londrina, em meio à efervescência cultural vivida pela cidade paranaense na década de 80 – de onde saíram nomes importantes no teatro, na música e na poesia. Liderados pelo diretor Paulo de Moraes, o senso de ousadia daqueles jovens buscando seu lugar no palco impregnaria para sempre os passos do grupo: a necessidade de selar um jogo com o seu espectador, a imersão num mundo paralelo, recriado sobretudo pela ação do corpo, da palavra, do tempo e do espaço.


Patrocinada pela Petrobras desde 2000, a companhia completou 30 anos de existência no final de 2017, travando um complexo diálogo criativo com um dos melhores materiais dramatúrgicos da história. E para celebrar a marca balzaquiana, a escolha por ‘Hamlet’ se deu em virtude do desejo de dialogar sobre a atual realidade do País. “Escolhemos montar Hamlet porque queríamos falar sobre como vemos o mundo hoje. Queríamos uma peça incrivelmente atual. E Hamlet, apesar de ter sido escrita há tanto tempo, é uma peça que coloca a gente em diálogo direto com o nosso tempo, sem exigir que sejamos ilustrativos ou literais. Não preciso falar do Brasil ou colocar um Trump em cena. Tudo o que é dito conversa claramente com o que estamos vivendo no Brasil, no mundo. Queremos falar sobre como é estar no mundo hoje”, disse.

Prêmios
‘Hamlet’ recebeu o Prêmio Cesgranrio de Teatro 2017, na categoria de Melhor Iluminação, além de ter sido indicado nas categorias de Melhor Espetáculo, Direção, Cenografia, Iluminação, Figurino e Categoria Especial (pela Trilha Sonora Original). Também recebeu o Prêmio Shell 2017 de Melhor Cenário, além de indicações para Melhor Direção e Melhor Iluminação.


No Prêmio APTR, o espetáculo recebeu os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante (Lisa Eiras) e Melhor Cenário, além de indicações nas categorias de Melhor Espetáculo, Direção, Atriz, Iluminação e Figurino. ‘Hamlet’ também recebeu o Prêmio Cenym 2017 de Melhor Atriz (Patrícia Selonk) e Melhor Companhia de Teatro.

Gilmara Costa/Equipe JC