11/02/2019 as 11:25

Entrevista

Amorosa :

É sobre a montagem, as lembranças, a saudade, as vontades e muito mais de Araripe Coutinho que Antônia Amorosa conversou com o JORNAL DA CIDADE. Boa leitura!


Amorosa :

A exposição ‘No Coração de Alguém de Esteve Aqui’, em homenagem ao cinquentenário do poeta Araripe Coutinho, acontece na Galeria Jenner Augusto, até o dia 30 de março. Para a construção do caminho que coloca toda nudez revelada do poeta, da palavra ao corpo, um esforço coletivo da amiga Antônia Amorosa e do trio de profissionais Ana de Cáscia Martins, Hélio Aguiar e Luciana Galvão. É arte, cor, arquitetura e design de interiores na concepção e materialização do pensamento despido, do brilho intenso da ‘Estrela’, do ser humano leve de passagem breve, marcante e ensino permanente. É sobre a montagem, as lembranças, a saudade, as vontades e muito mais de Araripe Coutinho que Antônia Amorosa conversou com o JORNAL DA CIDADE. Boa leitura! 

JORNAL DA CIDADE - exposição ‘No Coração de Alguém que Esteve Aqui’ despe em letras, ambientes e cores a presença do poeta Araripe Coutinho?
Antônia Amorosa - Sim. Ela traz a força da sua poesia, a generosidade do seu coração, a intensidade das suas ações, o calvário de uma história escrita com risos e lágrimas, que merece ser revisitada para ser melhor compreendida.

JC - Como se deu a construção do caminhar aos passos do poeta?
AA - Desde o dia em que seu pai me pediu para cuidar do seu acervo, que disse a ele do meu desejo de fazer uma exposição que desse às pessoas, a oportunidade que eu tive: conhecer seus múltiplos talentos, seus defeitos como suas virtudes, e entender por que seus aparentes excessos diziam mais sobre uma criança abandonada do que sobre um poeta. Quis montar esta exposição sob o olhar técnico e criativo de arquitetos e design de interiores, para revelar o menino, o poeta, o jornalista, o filho, o religioso, o cidadão comprometido com ações sociais e o ser humano que foi mal interpretado, merecendo ser realmente conhecido em sua nudez real.

JC - Inclusive, é pelo transitar e vivenciar vida e obra dele que a visitação é limitada?
AA - Não há limitação - apenas organização para promover um melhor conforto aos visitantes. Mas, qualquer pessoa que chegar de quarta a sábado, das 18h às 21h, no Espaço Semear, terá livre acesso, seguindo uma ordem de chegada.

JC - Feita a várias mãos, a mostra vai desde o que era público e notório ao que era reservado a amigos. Como foi e tem sido esse (re) encontro com as lembranças?
AA - Construir esta exposição ao lado de profissionais como Ana de Cáscia Martins, Hélio Aguiar e Luciana Galvão, tendo também a participação de Marianna Albuquerque foi, de fato, um profundo e emocionante mergulho, onde choramos várias vezes, sonhamos com ele, tivemos inspirações surpreendentes que resultaram em tudo que está presente nesta exposição. O mercado de arquitetura e design de interiores abre um novo caminho em Sergipe através deste emocionante trabalho.

 JC - Toda a ‘nudez’ (do corpo ao pensamento liberto!) de Araripe Coutinho se faz presente e respeitada em cada ambiente?
AA - Poucas pessoas sabem que Araripe era filho de uma índia, portanto, não encarava a nudez como nós! Para ele era tão natural como beber água. Andava nu em casa e recebia os amigos apenas com um lençol sobre seus ombros. Sobre o polêmico ensaio, o público se surpreende quando coloca os olhos numa fechadura e se depara com doze modelos seminus, usando a flor amarela, para questionar se as pessoas viram a arte ou o seu preconceito. O nu humano é lindo! Nós é que temos que aprender a enxergar com leveza.

JC - Há pretensão de levar a exposição para outros lugares, seja em Sergipe ou em outros estados?
AA - Somente Deus, eu e meus bons amigos sabemos do quanto renunciei ao meu trabalho de sobrevivência para realizar esta exposição porque fazer arte é missão, não é lucro. Bati em muitas portas, mas nem todos me apoiaram. Os que o fizeram estão registrados na entrada da exposição ou no livro de depoimentos. Matei um leão por dia, para esta exposição sair. E os profissionais caminharam lado a lado, cada um dando sua contribuição. Porém, quando Deus está num projeto, se Ele diz sim, quem não soma, perde uma grande oportunidade de se revelar grande. Quer conhecer alguém? Observe como trata com a cultura, o alto nível da educação. Quanto à continuidade, o acervo literário será doado ao Centro Cultural para que as pessoas possam ter acesso. Não tenho forças para manter esta exposição de forma permanente ou itinerante. Quem visitar, verá o tamanho da luta que foi travada, mas também verá o tamanho da nossa fé! A boa vontade muda qualquer coisa de lugar. Os homens é que têm sido frios com os homens. E o amor precisa mudar isso! Esta é uma exposição que prova o significado de uma verdadeira amizade.

JC - O que ainda vem por aí na celebração ao cinquentenário do poeta?
AA - A exposição segue até dia 30 de março. Após isto, faremos o procedimento oficial de entrega do acervo literário. A mobília terá um destino solidário, como sei que ele faria. Também lançaremos o site oficial com todas as suas obras, artigos e fotos que dispomos. Pretendemos também, se Deus me der forças, lançar o Concurso Literário Virtual “Araripe Coutinho”, no próprio site, para estimular novos escritores. Após isto, poderei olhar para o céu, procurar a primeira estrela e dizer: poeta, tudo que eu pude fazer para que nosso povo entendesse sua passagem pela terra, eu fiz. Agora, irei cuidar de mim e levar seu pai, de vez em quando, para ver o rio. Porque amar é uma escolha. E eu não acredito em nenhum amor que não sobreviva à morte.











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