05/06/2019 as 10:39

Música

Julico e o revivescer sonoro do Nordeste

Num projeto solo, o ‘baggios’ apresenta canções de Gilberto Gil, Alceu, Joésia Ramos e muito mais.


Sonoridade exacerbada, conhecimento e o desafio de apresentar o novo jeito de ouvir, curtir e aplaudir as letras e melodias sempre presentes no diversificado repertório musical do Nordeste. Na simultaneidade da turnê da banda The Baggios, o guitarrista e vocalista Júlio Andrade, o Julico, traça nova rota pelas influências sonoras e apresenta o projeto solo ‘Nordeste Revistado’, no próximo dia 7, às 20h, na Reciclaria Casa de Artes. E para compartilhar palco e talento, recebe os músicos convidados na companhia dos músicos Júlio Rego, Léo Airplane, Lucas Campelo e Ravy Bezerra.


Mais que ambientado na obra de ídolos como Alceu Valença, Zé Ramalho e Raul Seixas, cujas músicas já ganharam releituras em especiais, de um jeito próprio em canto e dedilhados, Julico estreia três canções do baiano Gilberto Gil e abraça (claro!) Dominguinhos. “Nunca toquei Gilberto Gil ao vivo, será a primeira vez. Ele também me serviu de referência para uma música do Jackson do Pandeiro, outro nome que admiro para caramba. E ainda tem no repertório o Alceu, Baggios, Joésia, coisas também nossas que fazem parte desse Nordeste imenso. Teremos a obra de Dominguinhos com a forma jazzística de tocar sanfona, que será com a participação de Lucas Campelo que é um discípulo dele”, revelou Julico.


Sobre essa revisita ao preservado campo musical nordestino, o ‘baggios’ apresenta a ‘secura’ pelo conhecimento do tocar, conectando-se com as inspirações artísticas que possui para então se reconhecer como uma delas, num jeito próprio e admirável de ser músico. “Nos ensaios, tenho apresentado referências da música brasileira dos anos 70, Gil, Alceu e Raul e outros nomes que não são da música nordestina, mas trazem referências muito fortes do que eu quero encontrar ali que é aquela fusão do jazz, do samba-jazz, do baião, da leitura desses músicos mais virtuose de ritmos tão populares, a desconstrução de ritmos assim. Eu não consigo tocar tão bem quanto ele, mas isso me traz um desafio de querer aprender algo, de chegar perto daqueles arranjos, perto daquelas formas de tocar. Isso para mim é o grande motivo do projeto”, afirmou.


E feito as ressignificações constantes nas leituras do ‘ser nordestino’, ele fala sobre a necessidade de desbravamento de sons de ‘ontens’ no hoje, sem ‘apartheid’, mas sim, vastidão sonora. “Esse projeto solo parte muito da busca de reinventar e estudar mais a fundo algumas influências que tenho. Isso traz um desafio pra mim, traz uma linguagem que possa soar diferente da ‘Baggios’, pois ela tem algo muito meu e meio que estou tentando me dividir um pouco e tentando, ao mesmo tempo, me revelar mesmo dentro desse universo com uma versão também. É um universo muito amplo da música, a música brasileira tem uma riqueza imensa e você consegue vários discos com várias direções diferentes. Como mais um escape de música que não cabe num projeto e cabe em um novo”, explicou.

Fascínio
É na surpreendente forma de observar e admirar cada instante, canto ou tom como novo que a criatividade e conhecimento se somam, resultando na ideia de pertencimento que se espalha sem pressa de alcançar, mas de maneira certamente encantadora. É isso que Julico deixa clarividente ao tecer um repertório que mostra e sente o Nordeste. “O que me fascina é a honestidade das canções. Quando você ouve uma música de Luiz Gonzaga, você sente cada sílaba uma emoção, pois ela fala sobre sua gente, valoriza o que é nosso. Quando uma galera de outra região ouve a música nordestina, eles também valorizam isso, o quanto a gente é apegado com nosso o universo e traz a nossa leitura do dia a dia, da nossa forma de viver simples. E com a riqueza musical tão espontânea. Muitas vezes tem técnica envolvida, mas tem esse ‘feeling’, que toca as pessoas e acaba gerando um jeito único de compor e soar”, declarou o artista.

E foi nas vivências pelo mundo afora que Julico (sempre cedo!) evidenciou a percepção sobre si, a música e os dois. “Percebi que a música nordestina tem muita ligação do que costumava ouvir do blues e, aos poucos, comecei a ligar essas duas histórias. As duas tão sofridas da parte do Mississippi, na região Sudeste dos Estados Unidos, com os estados aqui, com o nosso Sertão, as colheitas de algodão com a roça. Isso me fez apaixonar ainda mais, pois minha primeira grande referência da guitarra foi o blues e só descobri o xote e baião, xaxado, ciranda e tudo daqui depois. Tardei um pouco, mas uma vez que descobri, estou aqui estudando e me aprofundando nisso”, disse.