Outro ritmo
No palco da Fonte Nova, Gil tocou guitarra, mas também esteve com seu violão, como em Se eu quiser falar com Deus, acompanhado por um quarteto de cordas, um dos pontos altos da noite.
"Foram vários os elementos que ponderei para chegar na decisão da realização de uma última turnê. Houve reflexão sobre este mercado e também sobre a exigência física necessária para esses grandes shows", disse Gil no site oficial da turnê. "Quero continuar fazendo música em outro ritmo, mas, antes, teremos essa celebração bonita junto do público e da família. Transformai as velhas formas do viver", completou Gil, citando um verso da sua canção Tempo Rei.
Da mesma geração dourada dos anos rebeldes, Paul McCartney não fala em parar de fazer turnês e prometeu um disco novo para esse ano. Outro daquela leva, Chico Buarque também segue na ativa, e apareceu no telão da Fonte Nova contando sobre sua parceria com Gil na música Cálice, que foi censurada pela ditadura militar.
Enquanto Chico falava no telão, o público no estádio puxou o coro de "sem anistia", numa referência ao movimento que busca a anistia aos presos pela tentativa de golpe de Estado e invasão da sede dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.
Quando Gil começou a cantar a canção, imagens de vítimas da repressão durante a ditadura eram mostradas no telão, entre elas a do ex-deputado Rubens Paiva, que foi ovacionado.
Ainda durante Cálice, fotos de Gil e Caetano quando estavam presos pela ditadura mexeram com o público, que os aplaudiu e voltou a puxar o coro de "sem anistia" para os golpistas.
Emoção, convidados e encontro de ministros
Logo nos primeiríssimos momentos de Não chore mais, versão de Gil para No woman, no cry, de Bob Marley, o público já começou a vibrar. O reggae jamaicano e a Fonte Nova têm história antiga na vida de Gilberto Gil. Em 1980, Gil foi um dos pioneiros em shows em grandes estádios de futebol ao se apresentar com Jimmy Cliff na Fonte Nova.
"Creio que o primeiro artista que fez show num estádio no Brasil foi Frank Sinatra, no Maracanã. E o primeiro artista brasileiro foi Gilberto Gil, na sua turnê junto com Jimmy Cliff", diz José Walter Lima, que foi um dos produtores daquele show em 1980.
Na vez da música Realce, o telão mostrava purpurinas virtuais para combinar com o verso "Quanto mais purpurina, melhor", enquanto um show pirotécnico com labaredas reais fazia o público das primeiras fileiras sentirem o calor das chamas.
Em mais um momento marcante da noite, Gilberto Gil disse que o show era para todos, mas especialmente para sua filha, Preta Gil, que estava na Fonte Nova. Depois, começou a cantar Drão, canção que ele fez para sua ex-mulher Sandra, mãe de Preta.
Em 1967, conhecer a Banda de Pífanos de Caruaru mexeu com a cabeça e as ideias musicais de Gil, influenciando o que viria a ser a Tropicália. Em 1972, ele gravou Pipoca moderna, do grupo pernambucano, em seu disco Expresso 2222, o primeiro após a volta do exílio.
Na noite que marcou o início do fim na Fonte Nova, o instrumental de Pipoca Moderna – que em 1975 ganhou letra de Caetano Veloso – foi tocado no palco enquanto Gil trocava de instrumento para poder tocar a canção Expresso 2222.
"Gil, para mim, dos compositores, é o que tem mais atributos", diz Paquito. "Ele é um excelente cantor, um excelente violonista, ele tem uma noção de ritmo absurda, ele é um harmonizador também absurdo, ele também é um excelente band leader", enumera o crítico. "É um super letrista também. As pessoas não falam tanto disso porque essa coisa da música em Gil é muito exuberante."
Para cantar com ele a canção Emoriô, Gil recebeu no palco o vocalista da banda BaianaSystem, Russo Passapusso. Em seguida, a cantora Margareth Menezes se juntou aos dois em Toda menina baiana, promovendo um encontro entre ela, atual ministra da Cultura, e Gil, que esteve no comando da pasta entre 2003 e 2008.
No bis, Gil tocou Aquele abraço, música que compôs quando estava de partida para o exílio, e que na noite de estreia da turnê Tempo Rei teve a letra ligeiramente alterada para agradecer ao público: "pra você que não me esqueceu: aquele abraço".
O abraço seria o último momento da noite, mas Gil ainda aproveitou que a banda tocava o instrumental de Na Baixa do Sapateiro, voltou ao palco para entoar o verso "Ô, Bahia" e terminou o show dançando animado, aos 82 anos, rei de seu próprio tempo.
Autor: Lucas Fróes