09/07/2018 as 10:15

Copa do Mundo

O hexa ficou para depois, mas nas mãos de quem?

Tamanho do espaço aos veteranos será a chave até o Qatar.


O hexa ficou para depois, mas nas mãos de quem?Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

O Brasil foi à Rússia atrás do hexa e voltou de lá sem ele. A nova aventura em busca da sexta taça tem data marcada, no Qatar, em 2022. Mas quais dos homens de Tite estarão lá? Será mesmo Tite a comandar a seleção no próximo ciclo? Depois de assumir no meio do caminho e equilibrar opção pessoal com necessidade e tempo exíguo, quais seriam as opções do treinador em uma jornada mais longa? Em um cenário de muitas perguntas, o primeiro passo é a avaliação do que aconteceu.

De que forma a queda diante da Bélgica impactará o futuro de quem esteve na Copa?

A convocação de Tite teve cinco jogadores acima de 30 anos e outros 12 que terão mais de 30 quando o planeta bola for ao Oriente Médio. Nomes como Neymar Com só um jogador de 21 anos, Gabriel Jesus, o Brasil de 2018 tem grandes chances de não se repetir em quatro anos, quando completará duas décadas sem levantar o torneio mais importante do futebol.

Essa pressão por conquistas deve enevoar ainda mais o horizonte. A Copa América de 2019, no Brasil, se avizinha quase como ameaça para quem não vence nada além de Copas das Confederações em 12 anos. Há talento no horizonte, com Vinicius Jr., Rodrygo e Arthur atraindo gigantes europeus precocemente, mas esses nomes criam dilemas. Tite, ou seu sucessor, apostará nos novatos ou seguirá investindo em experiência?

A análise da campanha na Rússia, somada à decisão sobre o futuro dos veteranos, se coloca como a grande questão da seleção brasileira até o Qatar.

Que caminho tomará Neymar?

Neymar fez a sua segunda Copa e não conseguiu decolar como todos esperavam. A expectativa era que o camisa 10 assumisse a liderança técnica do time e se candidatasse ao cargo de melhor do mundo. O que se viu foi um atleta longe de justificar o status de mais caro de todos os tempos, que sai da Copa como alvo de piadas em todo o mundo por simulações em campo.

No Qatar, Neymar terá 30 anos e, definitivamente, não poderá ser chamado de “menino”, fora ou dentro de campo. O estilo driblador e as 175 arrancadas da Rússia podem não se repetir, assim como a tolerância da seleção para suas atitudes. Na eterna perseguição contra Cristiano Ronaldo e Messi, ele precisa aprender a se reinventar como os dois para, quem sabe, sucedê-los.

Na seleção, já são oito anos de protagonismo absoluto. Se seus números só crescem e ele ameaça gigantes na artilharia histórica, a falta de protagonismo da equipe no futebol de seleções pede companhia. Neymar é, desde 2010, a única super estrela do Brasil. O próximo ciclo pode definir se é o bastante.

Quarteto passa no teste e começa ciclo como indiscutível

Casemiro, Philippe Coutinho, Douglas Costa e Roberto Firmino. Quatro nomes de destaque no futebol europeu, quatro estreantes em Copas do Mundo. Se em algum momento a inexperiência fez público e crítica desconfiarem deles, a resposta diante do maior teste de todos mostra que qualquer seleção brasileira começa por Neymar e os quatro.

Casemiro sai da Copa como líder em desarmes entre aqueles que foram até as quartas, segundo o site WhoScored. Philippe Coutinho somou dois gols e duas assistências e foi o melhor jogador do Brasil contra Suíça e Costa Rica. Douglas Costa mudou os dois jogos em que entrou e provavelmente teria virado titular não fosse uma lesão muscular. Já Firmino, tão questionado no caminho para a Rússia, foi favorecido pelo torneio ruim de Gabriel Jesus, correspondeu quando acionado e também sai em alta.

Com boa idade para a próxima Copa, eles conseguiram algo raro, confirmando o status de jogadores de ponta no cenário mundial ao se provarem no palco maior. Mandam um recado para qualquer crítico, deixando claro que estão aptos para o desafio que vem a seguir. Com experiência ainda maior, ajudarão a seleção na transição para o próximo ciclo.

Veteranos que foram bem são o maior desafio de Tite

Thiago Silva, Miranda, Filipe Luís e Renato Augusto foram, em diferentes medidas, bons nomes do Brasil de Tite. A questão é que os quatro estão acima dos 30 anos, e a história mostra que são raros os jogadores que conseguem chegar à Copa do Mundo na casa dos 35. Em forma e em alta, no entanto, eles podem perfeitamente seguir defendendo seu espaço.

É aí que está o maior dilema de Tite, que já enfrentou desafio parecido depois de ter vencido o Mundial pelo Corinthians. Se seguir dando espaço aos homens de confiança, vai minar o espaço para a entrada de novidades que muito provavelmente farão falta adiante. Por outro lado, como abdicar de alguns dos principais destaques no começo do ciclo, ainda mais com um desafio como a Copa América em menos de um ano?

Thiago Silva já disse que pretende buscar a Copa no Qatar. Capitão em 2014 e talvez o melhor do time quatro anos depois, ele dificilmente será batido em campo. Miranda, também impecável, admite que chegar ao Qatar será difícil, mas igualmente não descarta a ideia. Renato Augusto e Filipe Luis, com histórico de lesões e mais discretos que a dupla de zaga, podem perder espaço com mais facilidade, mas ainda assim prometem dar dor de cabeça a Tite.

Jesus puxa fila de potenciais estrelas ainda sem brilho

Gabriel Jesus foi chamado de “trator” pela comissão técnica e ganhou elogios por seu papel tático ao longo da Copa, embora tenha sido muito criticado pela ausência de gols. Se não há unanimidade na avaliação, é um fato que o camisa 9 não foi o Ronaldo que se esperava dele. Mais novo da seleção, o ex-palmeirense não foi o fenômeno precoce que pintou ser na chegada ao futebol europeu.

Se sua continuidade não está em xeque, seu status pode, sim ser revisto. Um dos artilheiros da Era Tite, ele terá de se provar para não ficar para trás na disputa com Firmino e outros jovens atacantes. É o mesmo desafio de Alisson e Marquinhos, outros candidatos a estrelas que não conseguiram se destacar.

O goleiro sai da Copa do Mundo sem nenhuma falha, pouco acionado que foi – cinco defesas em cinco jogos. Também não leva da Rússia, no entanto, nenhum grande mérito, e o novo ciclo pode reabrir a disputa com Ederson, titular no City. Já Marquinhos foi um dos pilares defensivos de Tite ao longo do trabalho, mas perdeu a vaga em cima da hora e também não pôde ser provado no grande palco. Por isso, corre o risco de sair atrás de Miranda e Thiago Silva na disputa por um lugar no time titular.

Destaques europeus, coadjuvantes na seleção brasileira

Marcelo e Willian têm carreiras consolidadas e indiscutíveis na Europa. O lateral é multicampeão e um dos capitães do Real Madrid, enquanto o meia é uma referência técnica do Chelsea que, aparentemente, desperta interesse até do Barcelona. Na Copa do Mundo, no entanto, ambos brilharam muito menos do que se esperava.

Com 30 e 29 anos, respectivamente, os dois dificilmente perderão espaço imediato na seleção, ainda mais se ela seguir na mão de Tite, admirador desse tipo de carreira consolidada na Europa. A questão é que, além dos desempenhos abaixo do esperado na Rússia, eles precisam lidar com o surgimento de bons nomes em suas posições.

Nomes como Vinicius Jr., Paulinho e Rodrygo, além de David Neres, Richarlyson e Malcom, são jovens que pedem passagem para serem ao menos testados como “atacantes” de lado, como Willian. Na lateral esquerda a oferta é menor, mas Alex Sandro é um nome consolidado na Europa e Wendell, Alex Telles e Jorge também podem ganhar uma chance se Tite seguir e investir em uma renovação.

Paulinho, Fernandinho e os experientes que serviram na crise

Paulinho completou sua segunda Copa sem brilho e optou por trocar de novo a Europa pela China. Fernandinho, por sua vez, foi o vilão da eliminação e também carrega consigo o trauma do 7 a 1. Experientes, os dois representam uma parte do elenco de Tite que serviu bem ao propósito do treinador, contratado com a corda no pescoço por resultados rápidos.

A idade avançada, a necessidade de soluções que ofereçam mais e a Copa pouco brilhante oferecem pouco horizonte. Como no caso dos veteranos que foram bem, aqui Tite terá de escolher entre manter homens de confiança ou abrir espaço para jovens que possam fazer a diferença, com a diferença que Paulinho e Fernandinho não tiveram atuações que sirvam como escudo.

A lógica se aplica também a Cássio, Taison, Geromel e Fagner. Opções que ganharam espaço em um cenário de pouca concorrência e tempo exíguo para testes mais ousados, eles não comprometeram. O lateral, inclusive, chegou a ocupar espaço no time titular com méritos. Com um ciclo inteiro pela frente, no entanto, é natural que a comissão técnica busque soluções mais duradouras e completas para as necessidades da seleção.

Pouco utilizado, trio de Manchester também é incógnita

Ederson foi um dos queridinhos da comissão técnica e teve o nome confirmado abertamente por Tite antes da convocação final. Por saber sair jogando com os pés, sempre foi colocado como um dos melhores do mundo pelos mais diferentes técnicos, como Pep Guardiola, por exemplo.

Danilo, lateral que começou a Copa e agradou a comissão técnica, também tem a confiança do técnico catalão e joga com frequência na elite europeia. Hoje no United, Fred estava tão bem cotado com Tite que o treinador se arriscou a mantê-lo no elenco mesmo lesionado.

Três dos brasileiros de Manchester, eles ainda buscam uma consolidação da carreira na elite europeia e não tiveram grandes chances de se destacar na Rússia. É natural que permaneçam na seleção, mas a ida ao Qatar depende muito do desenvolvimento deles na cidade inglesa.

Arthur, Vinicius Jr., Paquetá e o futuro do Brasil

Desde que assumiu a seleção, em 2016, Tite lamenta o pouco tempo que teve para testar de verdade novos nomes do futebol brasileiro. Ele esperava que Vinicius Jr., por exemplo, estourasse antes no Flamengo e colocasse uma “dúvida” em sua cabeça, mas esse crescimento só ocorreu às vésperas da Copa do Mundo, quando o grupo já estava praticamente fechado.

Se topar seguir até o Qatar, ele terá espaço para finalmente desenvolver talentos como o da revelação flamenguista. Arthur, outro talento jovem, esteve muito perto de ir à Copa e certamente está na mira, assim como Lucas Paquetá, lembrado para a lista de substitutos enviada à Fifa.

Paulinho, Rodrygo, David Neres, Richarlyson e Malcom são outros nomes abaixo dos 23 anos que podem ganhar espaço, dependendo do grau de renovação que a comissão técnica quiser implantar.

UOL