09/01/2018 às 15h51 - Cultura

O feminino no encontro instrumental com o Membrana

A dupla estrangeira Anais e Isis compartilha da música livre com o grupo sergipano.

Por: Gilmara Costa/ Equipe JC

O experimento em coletivo, cada um com o instrumento de domínio, individualidades sensoriais a se transformar em vibrações sonoras complementares, numa sinergia de sons – por vezes, estranha para quem não compartilha da sensibilidade musical ali apresentada – que ao tempo que encanta, desafia os limites do ‘fazer música’, inclusive do tempo de gravação. Assim, foi o encontro simbiótico entre as artistas internacionais Anais Maviel e Isis Giraldo (Colômbia/Canadá) e o grupo sergipano Membrana Instrumental, formado por Dudu Prudente, Júlio Rêgo e Pedrinho Mendonça, em que os experimentalismos se juntaram e que, em algum momento, irão se dispersar pelo mundo afora. 

 

Foto: Ana Paula Salmeron/Divulgação

 

Em turnê pela América do Sul com o projeto ‘Diáspora’, a dupla de Anais Maviel e Isis Giraldo se apresentou no palco da Reciclaria Casa de Artes, onde o primeiro tête-à-tête com o Membrana Instrumental instigou a parceria musical. “O contato com as meninas incialmente foi através da internet, e quando ouvimos o som delas achamos interessante e muito similar ao que fazemos no Membrana, que existe há 15 anos e cujo formato não é exatamente um grupo, mas um experimento, um projeto que faz música livre, espontânea, sem nada programado ou ensaiado, apenas para exercitar a mente a criatividade, a testar coisa. Um eterno laboratório. No palco da Reciclaria, elas se apresentaram, depois o Membrana em seguida, fizemos um set juntos e vimos a possibilidade de fazer algo mais juntos e fizemos gravações, experimentado”, explicou Dudu Prudente. 

 

E foi no comando percussivo de tambores, flauta, bateria eletrônica, gaita, voz e efeitos, que por horas a fio a sonoridade masculina do Membrana encontrou o ‘seu feminino’ com a dupla estrangeira e vice-versa. “Cada um tem um set particular. Cada um toca instrumentos diferentes, possui técnicas diferentes, e a gente achou que é uma formação que se complementa em termos de som. O Pedro faz muita percussão experimental de som e efeitos, com berimbau, pífano, uma infinidade de sons; eu faço umas coisas mais com tambores, fazendo as marcações rítmicas. A Ísis tem um set de teclado mix sintetizador com ‘onmachine’ que é uma bateria eletrônica. Enquanto isso, Anais faz uns experimentos com surdo e voz. Julio com gaita, efeitos e flauta. Isso tudo são vários elementos que saem a conversar e se complementam, não tem muita coisa chocando com a outra”, destacou Dudu. 

 

Ao ressaltar a liberdade musical, em que o improviso se faz presente a cada nota ecoada, a cada som ressignificado em ‘instrumentos’ nada convencionais, Pedrinho Mendonça fala sobre a empatia do estar e fazer música livre. “Parece que a gente se já conhecia já, porque o estilo de música que é a música contemporânea agora. Não é uma música pensada antes para fazer agora, é uma música de fazer na hora. E para isso tem que estar seguro para o que está fazendo e relaxar. Não precisa ficar tenso, basta soltar as melodias, ritmos e ideias na hora. A ideia é que a gente é música. E gente faz os instrumentos falar através da gente, o que é bom, sendo o prazer mediato. Elas parecem uma outra parte da gente, é o feminino do Membrana”, afirmou Pedrinho Mendonça. 

 

Para Anais Maviel, ao tempo em que a turnê do projeto ‘Diáspora’ se concretiza como uma experiência musical, é também um momento de comunicação social. “É mágico e interessante porque somos duas mulheres e três homens com o mesmo pensamento. Essa experiência de turnê, duas mulheres, temos encontrado muitos homens e mulheres, mas a relação é diferente. A maneira de comunicar é muito diferente, creio que socialmente, temos muito que aprender durante a viagem. E nos despertou bandas que tem um grande poder, especialmente tocando muito tempo, trabalhando vocabulários juntos por muitos anos, sempre livres, experimentando linguagens de improvisações. Tem muito valor para mim isso e esse encontro tem sido assim”, declarou Anais. 

 

Uma certeza


Após experimentalismos e muitas horas de gravação, a exposição de uma trabalho ainda é uma incógnita, mas os curiosos podem acompanhar um pouco do resultado através das redes sociais do artistas envolvidos. E mais. A livre tempo de todos eles, a música se dispersará, num livramento de encontros sonoros, com a certeza de que o laboratório de sons do Membrana Instrumental há de ter vida longa e promissora. “As meninas nos fortaleceram e deram mais a certeza do nosso som. Porque a mesma comunicação através da música, dos instrumentos, do modo de pensar, livre. E elas fizeram o lado feminino presente”, disse Pedro Mendonça. 

 

E sobre a amplitude do compartilhar atividades laboratoriais de música, Dudu Prudente destaca a leveza do ser membrana. “Como é um tipo de música, que é além da música instrumental, é uma música de pensamento de espirito é livre, a gente fazendo esse tipo de música a gente sente meio só, porque é algo que não é compreendido por todo mundo. A gente gosta e faz. Se alguém for curtir que bom e, se não, vamos continuar fazendo. Quando a gente vê um grupo com um pensamento bem parecido, que a gente nunca teve contato, e vem e faz algo que a gente faz também, é legal ter a certeza de que não estamos sozinhos. E o Membrana é uma ameba, é uma membrana, entre e sai, oscilando vai para um canto e outro, a membrana é leve, solta e ela vai.  Temos um material bacana, gravação em vídeo também e vamos apresentar sim, em breve”, garantiu Dudu Prudente.

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