10/09/2018 as 07:52

Entrevista

“Todos sabem quem são os candidatos com bala na agulha”

Em busca do seu quarto mandato de senador, Antônio Carlos Valadares (PSB) aparece liderando as pesquisas na corrida eleitoral. Ele não economiza críticas aos seus agora adversários André Moura (PSC) e Jackson Barreto (MDB), critica o presidente Michel Temer (MDB) e faz elogios ao ex-presidente Lula (PT). Valadares falou ainda que a força do poder econômico estará presente nesta eleição e avaliou que seus eleitores não vão achar ruim uma dobradinha na chapa com o seu primogênito, Valadares Filho (PSB), que disputa o Governo do Estado. Confira a seguir.


“Todos sabem quem são os candidatos com bala na agulha”Foto: Agência Senado

JORNAL DA CIDADE - Como está a campanha para o Senado? Por liderar as pesquisas, o senhor se sente em situação confortável?
ANTÔNIO CARLOS VALADARES - As pesquisas animam, mas o que anima mesmo qualquer candidato é voto na urna. Melhor aguardar o dia da eleição.

JC - Dá para confiar nas pesquisas eleitorais que estão sendo divulgadas?
ACV - Algumas sim, batem com a realidade. Outras deixam a gente de barbas de molho.

JC - O senhor tem feito campanha pedindo voto para o outro senador da sua coligação, Henri Clay? Algumas lideranças votam no senhor e em senadores de outra coligação, porque isso acontece?
ACV - Peço votos para Henry Clay, não apenas por ser da nossa coligação. É que eu tenho certeza que a sua candidatura preenche todos os requisitos para o exercício do cargo: é ficha limpa, é jovem e novo na militância partidária, tem sensibilidade social e preparo para chegar no Senado e representar com muita dignidade o nosso Estado. Quanto a eleitores que votam comigo e não votam com ele, faz parte da escolha de cada um. Se depender de mim o voto para senador sairá casado com Henry Clay, cuja campanha tem tudo para crescer pela qualidade e importância de suas propostas.

JC - Jackson Barreto e André Moura possuem algum tipo de aliança? É grande o número de lideranças que fazem a dobradinha com os dois?
ACV - No começo eu fiquei desconfiado e eles de certa forma contribuíam para isso. Ambos se preocupavam unicamente em me atacar e a relação era tão amistosa que só faltavam se beijar em público, com todo respeito que eles merecem. Como a estratégia de ambos em me isolar na disputa não deu certo, porque as pesquisas me colocam à frente, eles estão agora se arranhando numa luta de vida ou morte. Jackson perdeu o bonde da história, está sem discurso e, como fez um governo desastroso, não tendo o que mostrar, apega-se de unhas e dentes na imagem de Lula numa desesperada tentativa de se salvar de uma possível 2ª derrota para o Senado. Mas se por acaso ele perder, jamais poderá reclamar dos eleitores, aos quais pediu de público para não votarem nele se fosse candidato... E quanto a André Moura, traz em sua bagagem o peso de ser representante e líder de um governo marcado pela corrupção e pelo total descompromisso com a preservação de conquistas sociais da classe trabalhadora; o líder vem com um discurso ilusório para enganar os incautos, soando como aquele samba de uma nota só, ao apresentar-se como emérito repassador de verbas, as quais, por sinal, nunca chegam ao seu destino, ao menos no montante por ele anunciado em suas entrevistas. O suposto dinheiro repassado a Sergipe para ganhar roupagem de verdade tem sido divulgado em números e frações exatas: R$ 1,464 bilhão... Como Jackson e Edvaldo com os seus elogios a André, porque lá atrás queriam a liberação de verbas praticamente confirmavam esses números cabalísticos, fica agora difícil colocar em dúvida o anúncio estrepitoso do líder...

JC - O senhor já reclamou, em diversas campanhas, da força do poder econômico. Ele está agindo nesta eleição?
ACV - Infelizmente, o poder econômico nunca agiu com tanta força como nessa eleição. As notícias que me chegam é que a coisa está virando um mercado persa. Todos sabemos como tudo se opera e quais os candidatos que estão com bala na agulha, gastando uma exorbitância sem o menor receio de uma punição. O mundo da política se tornou uma bagaceira, não estou confiante que os melhores possam alcançar êxito na sua luta. Mas, como em toda regra há exceções, espero que alguns possam, e que eu esteja no meio deles, vencer pela vontade do povo.

JC - Candidatar-se ao Senado ao lado do seu filho disputando o Governo não atrapalha os dois? Os eleitores não acham isso ruim? O senhor acha que os dois conseguirão vitória?
ACV - Antes da decisão, se eu deveria lançar-me mais uma vez candidato ao Senado, quem mais me criticava eram meus adversários, interessadíssimos na minha desistência, porque não queriam alguém de peso, com credibilidade e serviços prestados, disputando uma das vagas. Foi somente no dia 3 de agosto que resolvi ser candidato. Valadares Filho construiu ao longo de sua trajetória o seu próprio caminho. Tem maturidade e experiência para tocar o barco. Todavia, navegar sozinho não é boa atitude. Por isso estou ao seu lado, com a minha vivência política de muitos anos para ajudar, participando de uma chapa majoritária de pessoas ainda jovens e competentes, como o próprio Valadares Filho, Silvia e Henry Clay. Todos os que, nessa aliança, buscam com coragem e firmeza uma nova alternativa para Sergipe estão convencidos de que a minha presença na chapa é importante, ajuda ao invés de atrapalhar. As pesquisas estão revelando isso.

JC - O senhor já esteve ao lado de Jackson e de Amorim em campanhas eleitorais. O que mudou, o que justifica sua candidatura fora do agrupamento onde o senhor já esteve?
ACV - Eu é que pergunto: por que não estão ao meu lado? Porque cada um buscou suas companhias. Esses dois grupos se colocavam como únicas alternativas e estavam convencidos de que poucos topariam enfrentá-los num tête-à-tête, contrapondo-se aos seus projetos hegemônicos. Foi uma surpresa para eles a candidatura de Valadares Filho. Apostavam que tudo não passava de um blefe. A pregação que se viralizou, até para nos intimidar, é que não tínhamos grupo, nem “estrutura” (dinheiro) para bancar uma campanha. De fato, se formos comparar o poderio econômico e político e o agrupamento de um (governo estadual) e do outro (governo federal) à primeira vista é acachapante a diferença. Acontece que entre um e outro tem o povo no meio, querendo distância deles, empurrando-os para fora do traçado e apostando numa nova saída para Sergipe.

JC - Seus adversários têm destacado que o senhor apoiou o governo Temer e que Valadares Filho votou pelo impeachment. Isso trará desgastes à sua candidatura?
ACV - Quem nos induziu a acreditar em Temer foi Dilma, a qual, junto com o PT, aprovou o nome dele para ser vice por duas vezes seguidas. Até então era apresentado à nação como um homem de bem. No entanto, quando assumiu o poder não demorou muito para ser tachado de corrupto, segundo denúncias da Procuradoria Geral da República, que foram enterradas pela Câmara graças a um processo vergonhoso de compra de votos. Além disso, assumiu a autoria de algumas reformas, como a trabalhista e a da previdência, que suprimem garantias constitucionais da classe trabalhadora, inclusive direitos adquiridos. Não podíamos concordar com os rumos que estava tomando este governo: rompemos publicamente em abril de 2017 e passamos a integrar a bancada da oposição. Desgaste teríamos, sim, se tivéssemos coonestando com a política desastrada do governo Temer, o qual antes de terminar o seu mandato ainda poderá ser alvo de uma terceira denúncia da Procuradoria da República, fato inédito na história do Brasil.

JC - Parece que Lula é o nome da vez na eleição em Sergipe. Todos falam nele. Qual o seu posicionamento sobre Lula e o PT?
ACV - É inegável que Lula ainda continua sendo, mesmo encarcerado, o maior líder do Brasil. Penso que o povo reclama de sua prisão por um fato muito relevante e que leva a um raciocínio cartesiano: o atual presidente da República continua governando apesar de escabrosas denúncias que nunca são apuradas porque a Câmara não deixa. Pelo fato de Lula não possuir foro privilegiado, é condenado e preso, e como está incurso na Lei da Ficha Limpa é proibido de ser candidato. Mas se Temer quisesse disputar a reeleição para presidente, governando e solto, poderia ser candidato sem qualquer impedimento, apesar das mazelas por ele praticadas. O PT soube explorar muito bem essa situação, como dois pesos e duas medidas, por culpa de uma legislação que protege pessoas num recinto político como é a Câmara, enquanto entrega outras ao julgamento da Justiça. Todos sabem das divergências que temos com o PT de Sergipe, que se mantém oficialmente apoiando o governo Belivaldo-Jackson e a chapa governista em defesa do continuísmo. Mesmo assim, esperamos algum tempo aguardando o desfecho sobre a candidatura de Lula, a quem apoiamos várias vezes para presidente e com quem temos uma relação de muito respeito. Decidimos então apoiar Ciro Gomes, por sua competência, pelo conhecimento profundo da realidade brasileira e nordestina e por causa da afinidade local e nacional de seu partido, o PDT, com o PSB.

JC - O senhor vai tentar o quarto mandato de Senador. Caso eleito e terminando o mandato, ficará mais de 30 anos no mesmo cargo. O que o senhor ainda não fez no Senado e que pode fazer, num eventual futuro mandato?
ACV - Trabalhei nesses últimos oito anos (os outros anos já prestei contas e o povo aprovou) para elaborar proposições que, entre PECs, projetos de lei, emendas individuais e coletivas, requerimentos, relatórios, resoluções, chegam perto de mil, além de centenas de discursos no plenário e nas comissões. Tenho vários projetos que foram convertidos em lei. Cito dois deles: a PEC da Alimentação, que veio assegurar aos mais pobres em nossa Carta Magna, que estejam livres da fome, enquanto o Brasil for um país injusto e desigual, com a permanência de programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família; e a nova lei lavagem de dinheiro, que está sendo utilizada na Operação Lava a Jato e outras tantas por este Brasil afora para a punição de corruptos e a devolução do dinheiro desviado dos cofres públicos, num montante superior a R$ 10 bilhões. Irei divulgá-los no horário gratuito da TV e rádio. Irei dar prosseguimento à aprovação de projetos de minha autoria que ainda estão tramitando no Senado e na Câmara. Vou direcionar o meu mandato para projetos da área social, como a saúde, a educação, a geração de empregos, a redução da violência e da criminalidade com o fortalecimento do Sistema de Segurança Pública, o combate à corrupção, a retomada do desenvolvimento econômico, a reforma política, a reforma tributária e a reforma do sistema de governo. Vou continuar a minha luta para a construção do Canal de Xingó. Pela revitalização do Rio São Francisco. Iniciativas em favor da pesquisa agrícola visando a diversificação e a melhoria da qualidade de nossos produtos, vigiar de perto o governo para evitar a privatização da Petrobras, sempre uma ameaça que ronda o Brasil, se não impedirmos a eleição de governos entreguistas e conservadores. Não à reforma da previdência que deverá ser substituída pela reforma tributária, taxação das grandes fortunas, cobrança aos devedores da fazenda pública e cerco ao contrabando. A reforma trabalhista, que precarizou as relações de trabalho, terá que sofrer alterações profundas para a retomada do emprego e aperfeiçoar entendimento que deve ser salutar, harmonioso e justo entre a classe patronal e os trabalhadores.

JC - Na corrida presidencial, qual o seu palpite? Quem vai para o segundo turno? Como avalia os principais nomes na disputa, como Lula, Haddad, Bolsonaro, Marina, Ciro e Alckmin?
ACV - O segundo turno ainda é uma incógnita. Parece que Bolsonaro tem um eleitorado que o levará ao segundo turno. Se for assim, na minha opinião, ele terá que enfrentar Ciro ou Haddad no segundo turno.

Max Augusto/Equipe JC