11/03/2019 as 07:53

Entrevista/Albano Franco

“Sergipe não faliu, mas precisa de reformas”

“Não diria que é um estado falido, diria que, como o Brasil, Sergipe precisa de reformas, de ajuste nas suas contas, de um projeto de desenvolvimento. Certamente, o governador Belivaldo Chagas e sua valorosa equipe encontrarão os caminhos que conduzirão ao crescimento e à geração de empregos e renda para os sergipanos”. O comentário é do ex-governador Albano Franco, que fala também sobre a desativação/hibernação da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (FAFEN-SE) e a crise que atinge a SABE, um empreendimento familiar.


“Sergipe não faliu, mas precisa de reformas”Foto: Assessoria

JORNAL DA CIDADE - A Crise econômica continua forte no Brasil? Por quê?
ALBANO FRANCO - Já estagnada em 2014, a economia brasileira sofreu uma brutal recessão nos anos 2015 e 2016 quando o PIB decresceu em 3,5% e 3,6%, respectivamente, o que gerou uma das maiores taxas de desemprego da história, correspondente a 12% da população economicamente ativa, ou cerca de 12,3 milhões de desempregados. Com a chegada de Temer à presidência, duas importantes reformas foram realizadas – limite para os gastos públicos e flexibilização das relações trabalhistas –, além de adoção de uma política monetária austera que reduziu a inflação de 6,3%, em 2016, para 3,75%, em 2018, enquanto a economia, que vinha em queda livre, cresceu 1%, em 2017, e 1,2% em 2018. Nesse período, a taxa básica de juros caiu de 13,5%, em 2016, para os atuais 6,5%.
Esses dados recentes do desempenho da economia brasileira atestam que a retomada do crescimento a taxas elevadas e de forma sustentável só será possível com o aprofundamento das reformas iniciadas no governo Temer. Daí a decisiva importância da reforma da Previdência, considerada pelos especialistas a locomotiva que irá acelerar o crescimento do país, já que é a principal causa do elevado déficit público e, consequentemente, dos baixos níveis de investimentos na infraestrutura e no aumento da produção. Em suma, sem reformas o país não voltará a crescer com a robustez capaz de gerar empregos produtivos e reduzir o elevado desemprego vigente.

JC - Há condições do país sair da crise em quantos anos? Por quê?
AF - Difícil prever quando o país voltará a crescer em velocidade de cruzeiro! Uma coisa é certa, como diz aquele velho provérbio chinês, “uma longa caminhada começa com o primeiro passo” e, no meu entender, esse primeiro passo começa com a reforma da Previdência, que irá equilibrar as contas públicas e sinalizar para os investidores privados a disposição do governo em modernizar a economia do país. Considerando essa disposição governamental e a do Congresso Nacional em aprovar as mudanças econômicas que se fazem necessárias no mais breve espaço de tempo, creio que o país inaugura um crescimento acima de 4% a partir de 2021, se começar agora. O tempo urge!

JC - Quais os segmentos da economia mais atingidos no Brasil? E em Sergipe?
AF - Tanto no Brasil como em Sergipe o setor industrial vem caindo sua participação na composição do PIB. Segundo estudo realizado pela Fiesp em 2016, com dados do IBGE, em 1985, a indústria de transformação representava 21,8% do PIB e, em 2016, caiu para 11,7%. Além da recessão, que reduziu sobremaneira a produção de máquinas e equipamentos, a avalanche dos produtos chineses no mercado brasileiro decretou o fechamento de muitas indústrias de bens de consumo. Se fala, inclusive, numa desindustrialização do Brasil.
Em Sergipe, o encolhimento do setor industrial também foi muito significativo. Despencou de uma participação de 30,1%, em 2006, para 20,1% em 2016, considerando os subsetores da construção civil, serviços industriais de utilidade pública, extração de petróleo e gás natural, produtos alimentares e minerais não metálicos. Já o estudo publicado pela Federação do Comércio mostrou que, em 2016, a construção civil, juntamente com a indústria de transformação, desempregaram 9.806 trabalhadores, o que mostra o encolhimento desses setores; isso sem mencionar a redução das atividades do setor de extração mineral, notadamente petróleo, gás natural e cloreto de potássio.

JC - O desemprego é o lado mais grave da crise? Por quê?
AF - Sem dúvida! A estagnação econômica tende a ampliar os índices de desemprego. Só o crescimento gera empregos. E o crescimento continuado só ocorre com investimentos na infraestrutura e na produção. E, por sua vez, a geração de empregos produtivos eleva a renda das famílias que irão consumir mais e assim o ciclo virtuoso se fecha com mais investimentos na produção e na infraestrutura.

JC - Qual é a situação do empresariado instalado em Sergipe neste momento da crise?
AF - Tanto o empresariado sergipano, como o brasileiro, de uma forma geral, estão na expectativa das mudanças estruturais defendidas pelo candidato Bolsonaro na sua campanha para a Presidência da República. Agora, no governo, espera-se que as realize tempestivamente. O Brasil precisa dar passos importantes, rumo ao futuro, não pode mais esperar. É hora de o presidente governar para todos, arregaçar as mangas e estreitar relações com o Congresso que, em última instância, é que irá aprovar as mudanças indispensáveis. Essa atitude proativa animará os investidores, o empresariado e a população no seu todo.

JC - Sergipe é um estado falido? Por quê?
AF - Não diria que é um estado falido, diria que, como o Brasil, Sergipe precisa de reformas, de ajuste nas suas contas, de um projeto de desenvolvimento. Certamente, o governador Belivaldo Chagas e sua valorosa equipe encontrarão os caminhos que conduzirão ao crescimento e à geração de empregos e renda para os sergipanos.
Como governador, enfrentei situação semelhante, de forte descompasso entre receita e despesa, mas com muito trabalho, uma equipe afinada e tomando decisões impopulares, todavia importantes para o equilíbrio das finanças públicas e da retomada dos investimentos, a exemplo da privatização da Energipe e da criação do Funaserp – Fundo de Aposentadoria do Servidor Estatutário do Estado de Sergipe –, conseguimos com essas e outras medidas estruturantes superar as dificuldades e, no meu governo, o Estado cresceu a uma taxa média anual de 4%, acima das médias regional e nacional.

JC - Que fim terá a Fafen?
AF - A Fafen é uma empresa de fundamental importância para Sergipe e para o Brasil. Fechá-la, como pretende a Petrobras, no meu entender é um enorme erro estratégico, na medida em que, juntamente com o encerramento das atividades das fábricas da Bahia e do Paraná, o Brasil ficará na total dependência de importações de um insumo básico para o crescimento da agricultura, especialmente do agronegócio, que vem ser a ser o carro-chefe das exportações brasileiras.
No caso de Sergipe, diria que o fechamento Fafen é desastroso, pois implicará na liquidação de todo um polo de fertilizantes composto de indústrias misturadoras que empregam e geram renda para apreciável número de empregados, além dos impostos que recolhem e demais efeitos diretos e indiretos nos setores de transportes, combustíveis, alimentação e hospedagem, oficinas mecânicas, etc. Some-se a isto os efeitos deletérios que serão causados sobre a exploração da Carnalita, projeto de grande magnitude para a economia sergipana.
Tenho, pessoalmente, sem exercer qualquer cargo público, na medida do possível, dado a minha contribuição para que o fechamento, ou a hibernação da Fafen, como denomina a Petrobras, não aconteça. No governo Temer, em diversas audiências, batalhei para que a Petrobras recuasse dessa decisão, até conseguir a garantia do presidente de que no seu governo a Fafen não seria hibernada e continuaria operando normalmente, o que de fato aconteceu.
Recentemente, participei, juntamente com autoridades estaduais, de reunião com o vice-presidente Mourão, que afirmou sua posição contrária à hibernação da Fafen e das demais fábricas estatais produtoras de nitrogenados, entretanto esta não é a posição da Petrobras e da equipe econômica do governo. Mudá-la, só com o presidente Bolsonaro! Entretanto, sem perda de tempo, caberá aos três estados, conjuntamente, encontrar compradores ou arrendatários para essas fábricas, com fundamentados estudos técnicos de viabilidade.

JC - O que motivou essa situação em que se encontra a Sabe? Quais as saídas em avaliação?
AF - A Sabe é uma empresa moderna com capacidade para processar 250 mil litros de leite/dia. Os estudos iniciais que motivaram a sua implantação indicavam um firme crescimento das economias de Sergipe, do Nordeste e do Brasil e do mercado de produtos lácteos, entretanto essas projeções não se confirmaram. Muito ao contrário. A economia entrou em profunda recessão em 2015 e até hoje se encontra estagnada. Foi exatamente nesse período de estagnação e recessão que a Sabe entrou em funcionamento, na expectativa de a economia voltar a crescer e a empresa operar acima de seu ponto de nivelamento, o que não ocorreu. Decidimos então dar uma respirada e estamos avaliando a possibilidade de uma composição societária com grupos interessados ou mesmo arrendá-la.