28/09/2018 as 09:14

Saúde

Álcool mata mais de três milhões de pessoas por ano

De todas as mortes atribuíveis ao álcool, 19% delas estão relacionadas a doenças cardiovasculares.


Álcool mata mais de três milhões de pessoas por ano

Por Grecy Andrade 

Mais de três milhões de pessoas morreram por uso nocivo de álcool em 2016, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na última sexta-feira, 21. Isso representa uma em cada 20 mortes. Mais de três quartos delas ocorreram entre homens. No geral, o uso nocivo do álcool causa mais de 5% da carga global de doenças. De todas as mortes atribuíveis ao álcool, 19% delas estão relacionadas a doenças cardiovasculares.


De acordo com o cardiologista Antônio Carlos Sousa, o álcool é uma droga e toda droga tem um efeito, por isso o ele pode afetar o organismo e em particular o sistema cardiovascular de várias maneiras. O álcool já foi até tratado como um elemento protetor, onde “recomendava-se” certa quantidade de bebida por ele proteger o coração, mas Sousa não concorda com isso não. “Não acredito que a gente deve usar a bebida alcoólica como algo terapêutico. Pode ser usada como uma forma de lazer; tudo bem, é aceitável e não tem problema. Mas quando se usa o álcool como remédio, eu pessoalmente não prescrevo e muito menos estimulo”, coloca.


Sousa explica ainda que existem os três tipos de etilistas: o leve, o moderado e o severo. “Estudos mostram que a bebida leve não prejudica muito a parte cardiovascular. No hipertensivo, estudos mostram que o bebedor leve não vai ter alteração, mas aquele moderado e severo seguramente terá prejuízo de aumentar a pressão e dificultar os efeitos dos remédios. O grande problema é dizer o quanto uma pessoa pode beber. Por exemplo, o equivalente a 30mg de etanol para o homem e 15 mg para a mulher num dia não teria um efeito maior. Isso a equivale a uma tulipa de cerveja ou uma taça de vinho, uma dose de uísque. Só que existem pessoas com alturas e peso diferentes, e daí o consumo será diferente para cada um”, esclarece.


Outro problema relacionado à recomendação de bebida alcoólica é que ela não é cumulativa. Ou seja, se uma pessoa pode tomar sem prejuízos uma taça de vinho por dia, não significa que se ela não tomar nenhuma durante a semana ela poderá tomar todas no final de semana. “Isso não vale! Pois à medida que a bebida passa disso, ela vira um hipertensor. Isso quer dizer que a dose pequena não mexeria com a pressão, mas a dose de moderada a severa já passa a ter esse efeito”, reforça o médico.

Existe ainda uma doença do coração chamada miocardiopatia dilatada, conhecida popularmente como “coração de boi”. E uma das causas mais frequentes desta doença é pelo uso abusivo do álcool. E que tem muito a ver com a capacidade do indivíduo de lesar o coração. “Poderemos encontrar pessoas etilistas leves e que lesam o miocárdio, e há etilistas severos que não têm lesão no coração. Por isso dá para entender por que eu não prescrevo álcool como remédio. Nos indivíduos diagnosticados com a tendência para essa doença o álcool deve ser proscrito, proibido, não se deve usar. Na miocardiopatia não tem tolerância de consumo, na hipertensão ainda há uma tolerância”, esclarece.

Também nas arritmias, o álcool pode contribuir para a piora do paciente. “Muitas vezes o indivíduo bebe e fuma; outros bebem, fumam, usam excitantes conhecidos como energéticos, e também usam drogas. Todos esses elementos têm efeitos aditivos sobre a irritabilidade do coração. Não é raro acontecer em festas pessoas que fazem arritmias e que são fatais, ou seja, a sensibilidade do álcool potencializado com drogas”, disse Sousa, reforçando ainda a importância da procura de um médico para avaliação do sistema cardiovascular.

“O indivíduo deve procurar um cardiologista que poderá dizer qual a situação dele frente à possibilidade do uso da bebida. E nenhum médico vai recomendar álcool, pode dizer assim: beba de uma forma leve. Numa confraternização, num happy hour, uma pessoa pode usar o álcool de maneira leve e moderada. Mas cada pessoa deve consultar seu médico e ver qual seu limite e assim pode controlar e não acarretar em nada pior. Mesmo assim reforço: médico não deve incentivar mesmo mostrando que não tem problema, pois sabemos que o alcoolismo é uma coisa séria e que gera um problema social gigante. E a gente não sabe se aquele indivíduo já tem a tendência. Por isso, médico não deve recomendar o álcool como a ideia que ele vai favorecer a parte cardiovascular de alguma maneira”, concluiu Antônio Carlos Sousa.

Quantidade de álcool consumida
O consumo médio diário de pessoas que bebem é de 33 gramas de álcool puro por dia, o equivalente a dois copos (cada um de 150 ml) de vinho, uma garrafa grande de cerveja (750 ml) ou duas doses (cada uma de 40 ml) de bebidas destiladas.

Em todo o mundo, mais de um quarto (27%) de todos os jovens com idade entre 15 e 19 anos consome álcool atualmente. As taxas de consumo são mais altas entre os jovens de 15 a 19 anos na Europa (44%), seguidas das Américas (38%) e do Pacífico Ocidental (38%). Pesquisas escolares indicam que, em muitos países, o consumo de álcool começa antes dos 15 anos, com diferenças muito pequenas entre meninos e meninas.
Em todo o mundo, 45% do total de álcool é consumido na forma de bebidas alcoólicas. A cerveja é a segunda bebida em termos de consumo puro de álcool (34%), seguida do vinho (12%).