03/10/2018 as 17:12

ENTREVISTA

Perda gradativa do olfato pode alterar o paladar

Anosmia pode ser consequência de outras doenças ou do hábito de fumar


Perda gradativa do olfato pode alterar o paladarFoto: Divulgação

Você já ouviu falar em Anosmia? Acredito que não. Mas se eu perguntar sobre perda de olfato, aí sim você vai se identificar ou lembrar de alguém que já tenha passado por isso. Isso porque a doença pode ser transitória, ou seja, durar por algum tempo enquanto outro problema de saúde não se resolve. É como se fosse uma doença-consequência de outras, um sintoma, um resultado também de alguns hábitos prejudiciais como fumar. Se quer saber mais sobre o assunto e entender como funciona o nosso olfato, acompanhe a entrevista abaixo com o otorrinolaringologista Dr. Ricardo Barbosa Ramos Filho

REVISTA DA CIDADE - A Anosmia (perda do olfato), pelo jeito, é bem mais séria do que a gente pensa. Por quê?
RICARDO BARBOSA - A anosmia pode ser a tradução de diversas manifestações: desde alterações mais simples e reversíveis como infecções de vias aéreas superiores (resfriado e gripe, por exemplo), até neoplasias do sistema nervoso central e cavidade nasal.

RC - Quando é que o indivíduo deve ficar preocupado? E como é possível perceber? Quais são os sinais?
RB - O ideal é que toda alteração olfatória seja avaliada por um especialista. Somente através de história clínica detalhada, associada a exame físico e métodos diagnósticos complementares é possível identificar com maior precisão a causa da alteração do olfato, já que estes sintomas podem ser causados por uma gama muito grande de enfermidades.

RC - Existem graus de perda de olfato? Quais são os mais comuns?
RB - Existem alguns tipos de alterações olfatórias: hiposmia, que significa a diminuição do olfato; anosmia, quando temos uma ausência completa da sensação olfatória; cacosmia seria a percepção (subjetiva ou objetiva) de odor fétido frequente; parosmia, que seria a interpretação errônea de um odor; fantasmia é a sensação de odores inexistentes. A diferenciação do tipo de alteração olfatória ajuda na descoberta da etiologia do problema.
RC - Em muitos dos casos, a perda do olfato é temporária. Em que casos isso acontece e como pode ser revertida?
RB - Nas infecções de via aérea superior, rinites e sinusites agudas, geralmente temos uma perda do olfato temporária, durante o curso da doença. O tratamento de uma alteração olfatória deve sempre levar em conta a causa do problema para definir qual a melhor estratégia terapêutica.

RC - A depender da doença, a perda é permanente. Quando isso ocorre?
RB - Sim. Quando a perda do olfato é causada por algo que destrua as terminações nervosas do nervo olfatória, temos uma perda permanente do olfato. Por exemplo, em traumatismo crânio cefálicos, tumor ações do sistema nervoso central e cavidades nasais, doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.

RC - Quais os perigos para quem perde o olfato? No caso, é bem mais complicado para os idosos?
RB - O olfato é importante tanto para a qualidade de vida do indivíduo quanto para a sobrevivência. Pessoas com alterações olfatórias podem não perceber um cheiro perigoso (fumaça num incêndio ou escape de gás de cozinha) ou ainda ter uma perda importante no paladar. Idosos sofrem muito mais com alterações olfatórias de fato. Estima-se que nos Estados Unidos, cerca de metade da população entre 65 e 80 anos apresenta alguma alteração do olfato. Este número sobe para 75% se considerarmos a população acima de 80 anos.

RC - É verdade que os idosos estão mais suscetíveis apenas por estarem com idade avançada?
RB - A perda do olfato está intimamente ligada ao processo de senilidade, mas não só a isto, ela também aumenta nos idosos pela prevalência de algumas doenças típicas dos idosos como Alzheimer e Parkinson.

RC - Quem não sente cheiro não tem muito paladar?
RB - Sim, boa parte do paladar está intimamente ligada ao bom funcionamento do olfato. Pessoas que estão com alterações olfatórias também apresentam diminuição importante do paladar, estando neste motivo uma importante causa de desconforto de muitos pacientes com anosmia.

RC - E os fumantes? Além de perderem o paladar, também perdem o olfato? Se parar de fumar, o organismo volta ao normal?
RB - Sim, além dos diversos malefícios que o cigarro pode trazer, a perda gradual do olfato é mais um dos problemas. A fumaça do cigarro lesa ao longo do tempo o epitélio olfatório que fica na mucosa nasal, causando perda progressiva do olfato e consequentemente do paladar. Parar de fumar causa retorno gradual tanto do paladar quanto do olfato.

RC - Como são feitos o diagnóstico e o tratamento?
RB - O diagnóstico começa sempre com uma história detalhada da queixa do paciente, associado a exame físico e exames complementares buscando encontrar a causa base do problema de cada paciente. O tratamento deve ser individualizado de acordo com a doença causadora da alteração olfatória. Em caso de alteração do olfato, o paciente deve procurar seu otorrinolaringologista para avaliação detalhada e tratamento.