18/06/2018 as 09:33

TB Entrevista com Luciana Ouro

Vamos abordar dois temas palpitantes, adolescência e relacionamento pais e filhos.


A nossa entrevista hoje é com Luciana Ouro, formada em psicologia, pós-graduada em Gestão de Pessoas, também em Gestão de Processos e está atualmente fazendo mais uma pós-graduação em Avaliação Psicológica. Trabalha na área de Recursos Humanos do Hospital São Lucas há oito anos, e em seu consultório atende jovens e adultos com orientação vocacional, grupos (mulheres e adolescentes), aplicação de testes psicológicos, avaliação psicológica e atendimento clínico em depressão, ansiedade, síndrome do pânico, TOC, entre outros. Vamos abordar dois temas palpitantes, adolescência e relacionamento pais e filhos.

                                             

Thaïs Bezerra - Na sua avaliação como está a saúde mental dos jovens sergipanos?
Luciana Ouro - A saúde mental é a capacidade que temos para administrar nossas próprias vidas e emoções, e a adolescência é marcada por profundas transformações físicas, cognitivas , emocionais e sociais. Durante este período, o jovem se descobre como um indivíduo separado dos pais e procura construir sua própria identidade, expor seu senso crítico sobre o mundo, questionar regras e valores por meio de condutas contraditórias e transgressivas. No entanto, embora sinta curiosidade e desejo de liberdade, o medo, inadequação e insegurança estão presentes. Se fizermos um paralelo entre a necessidade de administração da própria vida e emoções com o sentimento de insegurança, medo e inadequação presentes na adolescência, concluiremos que a saúde mental dos jovens requer atenção e acompanhamento permanentes, pois encontra-se fragilizada. Lembramos que se para os pais, que já foram adolescentes, tem sido um desafio lidar com tantas mudanças, imagine para os adolescentes que estão se descobrindo como indivíduo e buscando um lugar de identificação.

TB - Quando os pais podem perceber que precisam da ajuda de um psicólogo?
LO - Quando a compreensão do universo do adolescente se torna um problema e a condução das suas orientações está comprometida. Os pais precisam ter cuidado para não rotular os filhos como “aborrecentes”, pois, diante do conceito já estabelecido, tendemos a ter uma postura também opositora. Aos pais mudar de opinião, rever posicionamentos e condutas é legítimo e oportuniza o exemplo da flexibilidade. Todas as vezes que nos posicionamos nas polaridades, o adolescente pode tudo ou não pode nada, estamos contribuindo para o surgimento eou agravamento dos conflitos. Ressalto que as relações são construídas no dia a dia, e dialogar, procurar entender e, principalmente, observar o comportamento dos filhos são atitudes que vão nortear a necessidade de buscar ajuda de um profissional capacitado. É importante entender que essa fase é transitória e não precisa ser tratada como algum ruim e sem solução.

TB - No seu ponto de vista, qual a maior dificuldade, hoje, na relação pais e filhos adolescentes?
LO - Nos dias atuais, os pais disputam um pequeno lugar na vida dos filhos e lutam contra a internet, redes sociais, amigos e toda sedução que a vida moderna oferece. Junto a isso, observamos uma confusão na definição dos papeis. Ouvimos muito em consultório pais relatando que são amigos e parceiros dos seus filhos e filhos estabelecendo as regras da casa. Pai é pai. Precisa orientar, passar segurança nas decisões, ser “amigo” no momento da dificuldade e acompanhar. Filho é filho. Precisa de limites, obrigações, responsabilidades, segurança dos pais e serem submetidos ao não. Na criação dos jovens não existe atalho. As orientações dadas na infância precisam ser fortalecidas, adaptadas e acompanhadas na fase da adolescência. Enquanto os pais conhecem os riscos e fazem ponderações, o desejo por liberdade do adolescente é uma necessidade vital. Em meio a tanta mudança, manter uma relação harmoniosa com o adolescente é desafiador para os adultos, que em alguns momentos perdem a paciência e experimentam a sensação da frustração, porque percebem a autoridade desafiada. Nos tempos atuais, os conflitos estão cada dia mais presente nas relações entre pais e filhos. Portanto, esclarecer os papeis de cada um, estabelecer as regras, dialogar, tentar entender os pensamentos e posicionamentos dos filhos diante das situações são atitudes que colaboram para o desenvolvimento de relações saudáveis e amorosas.

TB - Qual o problema mais frequente dos adolescentes?
LO - O desejo pela liberdade sem a maturidade necessária para enfrentar as adversidades. O adolescente vive uma infância invertida. Assim como uma criança pequena que se identifica e acha que é um super herói , o adolescente acha que pode tudo, sabe tudo e nada o coloca em risco. Sentir que pode, tomar decisões, ter liberdade para fazer o que quer faz parte do processo de busca dele, quando se percebe como indivíduo. A liberdade é associada a autonomia e independência da vida adulta.

TB - E a maior fragilidade dos pais no momento de impor limites?
LO - A maior fragilidade está associada a culpa. Se livrar desse sentimento é fundamental para os pais não se sentirem devedores. Limite é ato de amor, necessário para o bom desenvolvimento e o adolescente deseja. Lidar com as frustrações é parte do processo de amadurecimento e formação da personalidade do jovem. Gosto muito de associar limite ao cinto de segurança. O uso de cinto não nos permite total liberdade de movimentos, mas pode salvar nossas vidas em uma situação de risco. Assim é o limite, oportuniza o aprendizado com margem de segurança.

TB - Em média, quanto tempo dura um tratamento?
LO - Partindo do princípio que somos seres únicos, cada caso é um caso e o tempo de duração está associado as demandas de cada indivíduo.