09/07/2019 as 08:39

Entrevista/Antônio Carlos Franco

“Sergipe não é o país do Forró”

Com o término dos festejos juninos deste ano, período mais importante para o turismo de Sergipe, o JORNAL DA CIDADE entrevistou, nesta semana, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-SE), Antônio Carlos Franco, que falou sobre os números do setor e os desafios para melhorar a cadeia turística em todo estado.


“Sergipe não é o país do Forró”Foto: Divulgação

Com o término dos festejos juninos deste ano, período mais importante para o turismo de Sergipe, o JORNAL DA CIDADE entrevistou, nesta semana, o  presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-SE), Antônio Carlos Franco, que falou sobre os números do setor e os desafios para melhorar a cadeia turística em todo estado.

 

Para ele, a diminuição no número de visitantes que vem sendo registrado, ano após ano, conforme pode ser visto na redução de desembarques domésticos no aeroporto de Aracaju, confirmam  não apenas que Sergipe deixou de ser “o país do forró”, como também deflagram a falta de uma Política Pública de Estado para o turismo, independente de governo ou partido político.

 

“O turismo movimenta uma cadeia com mais de 51 setores e é um grande gerador de emprego e renda em nosso estado. Acredito que chegou a hora, principalmente com as boas notícias no campo energético, de Sergipe voltar a ser destaque no Nordeste e no Brasil nessa área. Porém, é necessário planejamento estratégico, profissionalização e vontade política, como ocorrem em outros estados”, enfatiza.

 

Antônio Carlos Franco também lamentou a falta de definição de um calendário unificado que promova os festejos e destinos turísticos de Sergipe durante o ano inteiro em cenário nacional, e não apenas nas semanas que antecedem os eventos. Além disso, ele também chama atenção para mudança no perfil da atividade turística no estado que, com o fechamento do único Centro de Convenções, deixou de ser mais empresarial, para sobreviver com o turismo de lazer, batendo de frente com destinos mais famosos como as praias alagoanas e cearenses.

 

“O Turismo de negócios representava a maior fatia da ocupação na hotelaria e o Turismo de Lazer, a menor. Hoje, essas posições estão invertidas. Devido ao fechamento do Centro de Convenções e com a crise econômica, o estado saiu do circuito de negócios e tivemos que nos adaptar ao Turismo de Lazer, onde a concorrência com outros destinos é muito maior. A divulgação do destino e a disputa por voos comercias são fundamentais para ter sucesso nesse segmento”, complementa.

 

No tocante à oferta de voos, enquanto que no aeroporto de Aracaju o número de passageiros tem diminuído, em estados como Alagoas, Ceará e Bahia o número tem aumentado. De acordo com o presidente da ABIH-SE, uma única maneira de competir de frente com esses destinos é investindo em parcerias público-privadas. “Não existe fórmula mágica. O que existe é parceria Público-Privada. Todos aliados e juntos trabalhando em torno de um único objetivo”, ressalta. “Falando especificamente na nossa, poderiam ser feitas parcerias público-privadas para o Centro de Convenções, para a Administração da Orla de Atalaia, para o São João da Orla a exemplo de cidades como Campina Grande e Caruaru, para a criação de um Calendário Turístico, para o Teatro Tobias Barreto”, complementa.

 

Ele também faz um alerta preocupante, com as quedas constantes nas taxas de ocupação hoteleira no estado, o que leva a alguns empresários a já admitirem a possibilidade de hibernação de alguns estabelecimentos. “A previsão de ocupação média para julho é de 40% em toda a rede e a perspectiva para o segundo semestre é baixa. O desemprego está aumentando no setor e já se fala em hibernação de equipamentos hoteleiros, deixando em alerta toda uma cadeia produtiva”, adverte.

Confira a entrevista completa abaixo:

JC MUNICÍPIOS-      Recentemente, a senadora Maria do Carmo Alves (DEM) criticou a falta, em Sergipe, de uma política de turismo mais agressiva e estratégica ‘para que o Estado seja colocado no roteiro nacional e atraia brasileiros e estrangeiros’. O senhor concorda que faltam ações do Governo do Estado para promover melhor as potencialidades de Sergipe em cenário nacional?

ANTÔNIO CARLOS FRANCO - O que falta é uma Política Pública de Estado para o turismo, independente de governo ou partido político. O turismo movimenta uma cadeia com mais de 51 setores e é um grande gerador de emprego e renda em nosso estado. Acredito que chegou a hora, principalmente com as boas notícias no campo energético, de o estado de Sergipe voltar a ser destaque no Nordeste e no Brasil nessa área. Porém é necessário planejamento estratégico, profissionalização e vontade política, como ocorrem em outros estados.

 

JC MUNICÍPIOS-       No final do mês de junho, em entrevista ao JORNAL DA CIDADE, o vice-presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Sergipe (Abrasel), Hamilton Santana, falou sobre a crise no comércio turístico da capital, e citou a divulgação tardia da programação junina em Sergipe como um fator prejudicial para promoção do turismo. Como a ABIH avalia os festejos juninos de 2019? Superou a expectativas?

A.C.F - Podemos avaliar com base em dados concretos. Conforme foi apurado pela Associação, a média de ocupação na rede hoteleira no mês de Junho foi de 47%. No período de São João, ou seja, durante três dias, tivemos uma ocupação de 87%. Os dois índices são inferiores aos de anos anteriores. Portanto, podemos concluir que Sergipe não é o país do Forró. A falta de um calendário unificado para os Festejos e sua divulgação, a nossa malha aérea e a crise econômica foram fatores decisivos para esse resultado.

 

JC MUNICÍPIOS-       No período do São João deste ano, a rede hoteleira de Aracaju manteve uma ocupação próxima a 90%, um resultado considerado positivo, mas que não se mantém pelo mês de julho, mês de férias escolares, quando a taxa de ocupação deve cair em média 50%. O turismo em Sergipe está restrito às festas juninas? Por que essas taxas não conseguem se manter por todo o mês de julho, a exemplo de estados do nordeste?

A.C.F - O nosso estado, turisticamente falando, passou por uma mudança nos últimos anos. O Turismo de negócios representava a maior fatia da ocupação na hotelaria e o Turismo de Lazer, a menor. Hoje essas posições estão invertidas. Devido ao fechamento do Centro de Convenções, e com a crise econômica, o estado saiu do circuito de negócios e tivemos que nos adaptar ao Turismo de Lazer, onde a concorrência com outros destinos é muito maior. A divulgação do destino e a disputa por voos comercias são fundamentais para ter sucesso nesse segmento. Estados como Alagoas, Ceará e Bahia são cases de sucesso. Enquanto em nosso aeroporto, o número de passageiros diminui ano após ano, nesses outros estados cresce. Não existe formula mágica. O que existe é parceria Público-Privada, todos aliados e juntos trabalhando em torno de um único objetivo. A previsão de ocupação média para Julho é de 40% em toda a rede e a perspectiva para o segundo semestre é baixa. O desemprego está aumentando no setor e já se fala em hibernação de equipamentos hoteleiros, deixando em alerta toda uma cadeia produtiva.  Na tentativa de reverter esse quadro, a ABIH-SE, desde o início do ano, está percorrendo o país divulgando Sergipe. Estamos trazendo, também, Famtours e Press Trips. Faremos duas grandes caravanas em um raio de 500km nesse segundo semestre. O Sebrae e a Fecomércio têm sido grandes parceiros nessas ações.

 

JC MUNICÍPIOS -   Uma pesquisa inédita divulgada pelo Ministério do Turismo (MTur) revelou que Fortaleza (CE), Maceió (AL) e Natal (RN) foram as três capitais do Nordeste que lideraram o ranking dos locais mais procurados pelos turistas nacionais para as férias de junho e julho. Faltam opções ao turista que vem a Sergipe? Como o estado pode competir diretamente com destinos mais famosos, como as praias cearenses e alagoanas? Faltam investimentos em pontos turísticos ou em divulgação dos que já são conhecidos?

A.C.F - Considero que são três os pilares básicos para o destino ter sucesso. Infraestrutura hoteleira, temos a mais nova e a melhor das capitais do NE. Mão de obra capacitada, o estado tem mão de obra capacitada e recebe muito bem o turista. Roteiros turísticos, temos uma bela orla, temos as belas praias do litoral sul, temos os Cânios, temos turismo rural, além do histórico e religioso em Laranjeiras e São Cristóvão. Podemos avançar muito ainda nesses pilares, mas o que é preciso é planejamento, investimentos em divulgação e união de todos os setores envolvidos.

 

JC MUNICÍPIOS -   Sergipe possuiu hoje uma das passagens aéreas mais caras de toda região Nordeste. Além disso, as obras de duplicação da BR 101 já duram anos e acabam repelindo turistas que viajam de carro. Esses problemas demonstram o quanto o estado tem se isolado turisticamente, ao longo dos anos, do restante da região? E o Prodetur?

A.C.F. - Passaram anos planejando e esperando que um único Programa, o Prodetur, resolvesse todos os problemas do Turismo em Sergipe. Foi dito, essa semana, que o Prodetur acaba em agosto próximo. Não vimos efeitos práticos no aumento de demanda turística por causa das poucas ações do programa, pelo contrário. Temos que pensar o Turismo agora sem o Prodetur, do zero. Em relação aos preços das passagens é um fator comercial e não é apenas Sergipe que sofre com isso. Graças ao empenho do Governador Belivaldo Chagas, o voo Azul Aracaju-Salvador já iniciou a partir de 1º de julho e outros poderão acontecer. São ótimas notícias. Em relação a BR 101, encontramos muitas dificuldades em divulgar o destino em cidades ao norte do nosso estado por causa das péssimas condições dessa rodovia. Esse é um grande gargalo da área.

 

JC MUNICÍPIOS-       Como o investimento privado, por meio de parcerias público-privadas, poderia alavancar o turismo em Sergipe?

A.C.F - Essas parcerias não são só exitosas para o turismo, mas para todas as áreas. Falando especificamente na nossa, poderiam ser feitas parcerias público-privadas para o Centro de Convenções, para a Administração da Orla de Atalaia, para o São João da Orla a exemplo de cidades como Campina Grande e Caruaru, para a criação de um Calendário Turístico, para o Teatro Tobias Barreto... Essas ações iriam dinamizar o setor, gerar empregos e renda além de economizar recursos públicos.