25/05/2026 as 09:58
ARTIGODaniel Francisco dos Santos é professor e psicólogo possui graduação em Psicologia e Filosofia é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe
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Espero que o frio não me castigue na longa e entediante espera da conexão — pensou o jovem psicanalista. Por um lapso de memória, esquecera seu casaco sobre a cadeira na casa do pai. A visita ao pai doente, no final de semana, fora proveitosa, reveladora e marcada, como sempre, por uma frieza descomunal. O momento do retorno era almejado com considerável expectativa. Queria escapar daquele lugar o mais rápido possível.
No saguão do aeroporto, tipos curiosos iam e vinham de todos os lados. Passos apressados, passos lentos. Sorrisos no rosto de alguns, tristeza no semblante de outros. Contudo, a indiferença e a apatia constituíam a principal característica fisionômica da grande maioria ao consultar o oráculo contemporâneo: o celular.
Duas notícias chamaram a atenção do jovem psicanalista na comunhão daquele paciente ritual de espera.
A primeira informava que a escolhida para ser a principal âncora da cobertura da Copa do Mundo seria uma influencer, ex-namorada do principal jogador da seleção, que também estaria presente no evento. A notícia fora festejada por alguns, que mantinham a curiosidade alimentada pelas fofocas mais escabrosas do espetacular mundo virtual. Contudo, a mesma notícia fora lamentada por outros, em razão da superficialidade da escolha, que parecia mirar mais a leviandade do gosto estético do que o jornalismo sério, comprometido com a formação e com a informação.
A segunda notícia apontava a indignação de uma colunista diante do negacionismo científico e do uso da informação como instrumento de manipulação das massas por meio da difusão ideológica. O sentimento de indignação referia-se ao surto do vírus ebola, que mais uma vez devastava vidas na África. Em razão do negacionismo científico, amigos e familiares de um morto haviam entrado em conflito com as forças policiais ao reivindicarem o enterro do corpo. Estava cientificamente comprovado — e fundamentado na experiência recente — que, no último surto de ebola no país, o aumento do contágio e do número de mortos ocorrera justamente em decorrência do contato de parentes e amigos com corpos ainda altamente contagiosos.
Essas duas notícias ligavam-se por um único fio: a manipulação ideológica operada pelo algoritmo.
Na contemporaneidade, sob o primado do algoritmo, pode-se pensar em um novo tipo de inconsciente: um inconsciente cibernético, ou ciber-inconsciente, tal como Walter Benjamin outrora pensara o inconsciente ótico produzido pela ampliação técnica do cinema. Agora, a dinâmica psíquica expande-se para o ciberespaço, ambiente em que o controle do superego se encontra consideravelmente afrouxado, enquanto a materialização e a efetivação das normas e regras sociais são atenuadas no âmbito da experiência. O mundo empírico, portanto, verte-se no mundo cibernético como uma antessala da execução de múltiplas modalidades de violência e desinformação: discursos de ódio, feminicídio, negacionismo científico, entre outras formas de agressão simbólica e concreta.
O jovem psicanalista lembrou-se de seu antigo professor de Filosofia. Recordou o quanto ele, aproveitando-se do encantamento que exercia sobre os alunos, disseminava negacionismo, preconceito e desinformação.
O celular, como fiel companheiro do homem contemporâneo, atesta a incidência cada vez mais intensa da tecnologia, quase como uma extensão não apenas do corpo humano, mas também da subjetividade. Com efeito, o aparelho eletrônico funciona como um prolongamento das capacidades humanas, abrangendo desde recursos vinculados a um ideal de bem-estar — como plataformas de streaming e aplicativos voltados à saúde mental — até a circulação incessante de informações, trends e vídeos que, orquestrados pela personalização algorítmica, capturam indivíduos depressivos, isolados e atravessados por um profundo sentimento de não pertencimento social, tornando-os presas fáceis das ideologias de massa.
Tais elementos conectam-se por um fio comum a partir da explicação que Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), oferece acerca do funcionamento dos indivíduos inseridos em grupos e coletividades. O psicanalista afirma que opera, no homem disposto na massa, um rebaixamento da censura imposta pelo superego aos impulsos inconscientes. É como se houvesse uma suspensão parcial do acordo tácito estabelecido desde a entrada na civilização, quando os indivíduos abriram mão de seus impulsos agressivos para adentrar o mundo da cultura, tal como descrito em O Mal-Estar na Civilização.
Ao investigar por que os homens, quando estão em grupo, sentem-se autorizados a fazer coisas que dificilmente fariam sozinhos, Freud percebe que os indivíduos em massa encontram a censura imposta pelo recalque significativamente rebaixada. Desse modo, o caminho para a liberação das pulsões agressivas torna-se amplamente aberto.
Theodor Adorno, em seu ensaio Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista, atento às discussões sobre o conteúdo dos panfletos dos agitadores fascistas norte-americanos, percebe que estes “baseiam-se obviamente mais em cálculos psicológicos do que na intenção de angariar seguidores através da colocação racional de fins racionais”. Da expulsão dos judeus do território americano à defesa de campos de concentração para alienígenas, o objetivo dos agitadores fascistas consistia em proporcionar um clima de agressividade emocional e irracional por meio de discursos repetitivos, monótonos e pobres em ideias — elementos indispensáveis, segundo Adorno, à técnica propagandística fascista.
Sobre a manipulação fascista, Adorno escreve que “o demagogo fascista, que precisa angariar o apoio de milhões de pessoas para objetivos altamente incompatíveis com seus próprios interesses racionais, somente pode fazê-lo ao criar artificialmente o vínculo que Freud está procurando”.
O primeiro elemento unificador das massas é a libido. Freud demonstra que a identificação libidinal unifica a massa em torno da figura do líder. Para tanto, a natureza do conteúdo da propaganda fascista não necessita de argumentos racionais, uma vez que ela se apavora diante do pensamento discursivo. O demagogo fascista pretende mobilizar os aspectos irracionais, inconscientes e regressivos da turba de seguidores. Nessa direção, o perfil do líder demagogo, escreve Adorno, é de caráter oral, marcado por uma compulsão para falar incessantemente e enganar os outros. Longe de ser um sujeito ilustrado, o líder pensa por estereótipos, respira e vive em sua visão de mundo mesquinha, ranzinza e limitada. Se quisermos, de fato, procurar as verdadeiras fontes do líder demagogo fascista, devemos buscar elementos que não sejam a erudição, mas a linguagem desprovida de significação racional, que, de forma quase mágica, possibilita as regressões mais arcaicas dos indivíduos.
O segundo elemento consiste na técnica da personalização, que apresenta o líder como uma figura popular, humilde, gentil e semelhante ao homem comum, um “cidadão de bem”. Nessa direção, “[...] um dos dispositivos básicos da propaganda fascista personalizada é o conceito do pequeno grande homem, uma pessoa que sugere tanto onipotência quanto a ideia de que é apenas mais um do povo” .
A técnica da personalização permite que o homem médio projete no líder seus desejos e anseios mais íntimos. O narcisismo opera, então, como uma liga afetiva que conecta os indivíduos às ideologias mais violentas e irracionais.
O ciber-inconsciente e o inconsciente ótico
Walter Benjamin apresenta o conceito de inconsciente ótico em A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica (1935). Segundo o filósofo, uma das funções sociais mais importantes do cinema consiste em criar um equilíbrio entre o homem e o aparelho técnico. A câmera, com seus recursos de aproximação, desaceleração e montagem, revelou aspectos da realidade antes invisíveis ao olhar humano.
Benjamin afirma que o cinema possibilitou “a experiência do inconsciente ótico”, do mesmo modo que a psicanálise permitiu a experiência do inconsciente pulsional. O cinema introduziu uma brecha na experiência ordinária da realidade ao ampliar tecnicamente a percepção humana.
Nessa direção, Benjamin considera que a tecnização poderia funcionar como uma espécie de imunização contra as psicoses de massa, uma vez que certos filmes possibilitariam uma descarga catártica de impulsos agressivos e fantasias sadomasoquistas. O espectador realizaria em fantasia aquilo que poderia, de outro modo, manifestar violentamente na realidade.
O ciber-inconsciente, entretanto, opera de maneira distinta. Ele emerge no ambiente virtual dominado pelo algoritmo, alimentado continuamente pelos dados fornecidos pelos próprios usuários. Perfis de consumo, traços psicológicos, hábitos cotidianos e preferências subjetivas tornam-se matéria-prima para os grandes conglomerados tecnológicos. O algoritmo deixa de ser apenas uma ferramenta técnica para transformar-se em operador da subjetividade contemporânea.
Diferentemente da catarse cinematográfica pensada por Benjamin, os impulsos agressivos mobilizados pelos algoritmos frequentemente conduzem à materialização da violência no mundo concreto. As redes sociais e os dispositivos digitais não apenas permitem a fantasia, mas organizam, amplificam e direcionam afetos destrutivos para a ação efetiva.
A personalização algorítmica opera, assim, como uma atualização radical da técnica de personalização analisada por Adorno. Se antes a figura do líder mantinha certa distância simbólica, agora ela se dissolve na intimidade contínua do espaço virtual. O algoritmo conhece desejos, medos, ressentimentos e frustrações dos indivíduos, direcionando conteúdos cada vez mais ajustados aos seus impulsos inconscientes.
As ideologias de massa encontram, portanto, nas redes digitais, um terreno fértil para a disseminação da violência cotidiana. O sujeito contemporâneo, isolado e deprimido, encontra no ciberespaço não apenas entretenimento e pertencimento, mas também mecanismos de identificação regressiva e manipulação afetiva.
— Atenção, senhores passageiros com destino a Aracaju: embarque imediato no portão 37.
— Estou atrasado! Preciso desligar o celular!