12/08/2026 as 10:40

ARTIGO

Mais uma eleição: o real problema da democracia

Frederico Alves de Almeida Aragão, psicólogo (CRP 19/2849), formação em teologia, mestre em filosofia, professor de psicologia no ensino superior, atua como psicólogo clínico e já atuou no CRAS, CREAS, CASA LAR e SISTEMA PRISIONAL.

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Arrisco-me a dizer que este será o texto mais polêmico já publicado por mim. O motivo? A preguiça! Não a minha, mas a nossa. Calma! Preciso que você assuma o compromisso de ler este texto até o fim e deixe para emitir uma opinião somente depois de lê-lo por completo. Eu não gostaria de ter que pedir o óbvio — ler algo até o final para, só então, entender do que o texto trata —, mas essas orientações estão diretamente ligadas ao problema apresentado no título deste artigo.

Vamos ao que interessa: anunciei que falaria sobre o real problema da democracia e, para começar, preciso citar pessoas que parecem ter algum crédito perante a humanidade no que se refere ao pensamento sobre o mundo, as pessoas e a sociedade:

“Nós, que somos de outra crença, nós, para quem o movimento democrático não é meramente uma forma de degradação da organização política, mas uma forma de degradação, ou seja, de apequenamento do homem, sua mediocrização e rebaixamento de valor: para onde temos nós de apontar nossas esperanças?” — Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal, § 203.

Em seguida, Platão:

“A liberdade em excesso, portanto, não conduz a mais nada que não seja a escravidão em excesso, tanto para o indivíduo como para o Estado.” — Platão, A República, Livro VIII, 564a.

“É natural que a tirania não se estabeleça a partir de nenhuma outra forma de governo senão da democracia.” — Platão, A República, Livro VIII, 564a.

Minha intuição sugere que muitos, ao lerem este texto, devem ter ficado com a impressão de que minha intenção é propor um movimento antidemocrático. Calma! Lembra que eu disse que você precisaria ler até o final para entender o ponto? Pois é! O que eu, Nietzsche e Platão queremos dizer é que a democracia é uma bomba embrulhada em um papel de presente bonito, elegante e caro. Tentarei explicar, da melhor forma possível, o porquê.

Grosso modo, a prática da democracia pressupõe a prevalência da maioria. Uma eleição, por exemplo, tem como ganhador aquele que obtém, no mínimo, 50% mais um dos votos válidos, ou seja, a maioria decide quem representará aquele grupo de pessoas por determinado período. O que poderia haver de ruim nisso?

A ideia de uma maioria que decide o futuro de todos realmente soa como algo justo. O problema é justamente essa tal maioria. Outro pressuposto básico da ideia de bem comum é entender que a maioria sabe o que é melhor para todos. Permitam-me apresentar um exemplo excelente, didático, mas polêmico: considere um país no qual 90% da população seja racista e exista um candidato que pareça corresponder a esse tipo de ideal/comportamento do grupo majoritário. Parece óbvio que esse candidato seria eleito e teria como pauta ou compromisso político propostas racistas, não é verdade? Mas lembrem-se: foi a maioria que o elegeu. Agora, substituam a maioria racista por uma maioria formada por pessoas que apoiam o crime organizado. Tentem imaginar também uma maioria composta por pessoas favoráveis ao assassinato de crianças com algum tipo de deficiência...

Confesso que não quis avançar nos exemplos, já que isso provocaria um enorme mal-estar em mim e, espero, em você também. Entretanto, como chegamos até aqui, penso que a lógica segundo a qual a maioria determina o futuro de todos parecia justa, mas carrega inúmeros problemas.

O próximo ponto é o seguinte: você deve imaginar que essa lógica é conhecida por muitas pessoas, inclusive por aquelas que desejam tirar proveito dela. Se existe um grupo de pessoas no mundo que compreende essa lógica, não é difícil imaginar como ele pode beneficiar-se disso. E a estratégia é simples! Essa MINORIA de pessoas, movida pelo desejo de manipular a política mundial, vende seus ideais como se fossem o melhor para TODOS.

“Conheçam o PARTIDO ROXO, aquele que garantirá que você não precise trabalhar para garantir seu sustento. Basta votar no Partido Roxo, e você terá garantido o dinheiro para sua alimentação. Com o programa Fique em Casa e Coma à Vontade, você poderá ficar despreocupado em relação aos estudos e ao trabalho. Nós garantiremos seu futuro!”

Não sei como isso pode soar para vocês, mas, para mim, esse é o mais claro exemplo de manipulação a partir de uma necessidade humana básica associada à tentação do comodismo. Já consigo imaginar que esse exemplo cause desconforto e até mesmo julgamentos a meu respeito. Bem, talvez isso fosse inevitável.

Para mim, assim como para Nietzsche e Platão, a democracia seria, então, um modelo de gestão válido à medida que as pessoas tivessem interesse por política, ética, economia... E não, não me refiro ao academicismo nem às discussões entediantes de tantos especialistas e cientistas políticos. Refiro-me a uma sociedade madura e preocupada com o bem maior.

Vivemos um momento em que as pessoas não sabem mencionar sequer o nome de uma proposta formal presente no plano de governo de seu candidato. Esquecemos quem é o vice-presidente da República e em quem votamos na última eleição. Essa é a receita perfeita para a MANIPULAÇÃO por parte daqueles que se interessam pelo sistema, em detrimento daqueles que pensam que política é perda de tempo.

Há uma frase atribuída a Platão que diz, resumidamente, o seguinte: “Você pode não gostar de política, mas está condenado a ser governado por quem gosta”.

Espero que você não tenha caído na cilada de pensar que criticar a democracia significa flertar com o autoritarismo. Caso tenha pensado assim, sinto informar que você também foi manipulado. O melhor cenário para o autoritarismo é uma “democracia” meramente formal. Ou seja, ninguém acreditará que está sendo manipulado se tiver votado em seu opressor.

A democracia é um cavalo de Troia para aqueles que sucumbem à preguiça. Entretanto, também é o cenário ideal para uma sociedade formada por pessoas que decidiram não terceirizar a responsabilidade por suas próprias vidas em nome de uma preguiça disfarçada de confiança.