02/02/2026 as 13:07

ENTREVISTA

Maíra Carvalho une música, território e identidade cultural

Com uma obra que dialoga com ancestralidade, educação cultural e pertencimento, a artista reflete sobre seu processo criativo e os caminhos que orientam sua produção.

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Cantora, compositora e multiartista sergipana, Maíra Carvalho constrói uma trajetória marcada pela relação entre música, território e identidade cultural. Seu trabalho dialoga com uma linguagem contemporânea e autoral, que transforma memória e cotidiano em criação artística. Atualmente, Maíra se dedica à produção do EP “Nordeste em Notas", projeto que amplia narrativas sobre o Nordeste e reposiciona Sergipe dentro da diversidade cultural da região. A canção “Sergipanidade”, que integra o EP, sintetiza esse percurso ao reunir símbolos, personagens e manifestações culturais do estado em uma narrativa musical que projeta Sergipe para além de suas fronteiras. Com uma obra que dialoga com ancestralidade, educação cultural e pertencimento, a artista reflete sobre seu processo criativo e os caminhos que orientam sua produção.

JC SOCIAL – Sua trajetória passa pela música autoral, por diferentes linguagens artísticas e por uma forte conexão com a cultura sergipana. Como você define hoje a essência do seu trabalho artístico?

MAÍRA CARVALHO – Meu trabalho musical tem como essência inspirar pessoas e empoderar mulheres, fortalecendo identidades e raízes culturais. Por meio da música, busco sensibilizar para o cuidado com o meio ambiente, romper preconceitos e estimular o autoconhecimento. Minhas canções convidam à resiliência, à esperança e à valorização da própria história, transformando vivências em voz, pertencimento e consciência coletiva.

JC SOCIAL – A música “Sergipanidade” se consolidou como um marco na sua produção este ano e tem Sergipe como tema central da canção. Em que momento esse processo deixou de ser apenas um exercício criativo e passou a assumir um caráter afetivo e identitário?

MAÍRA CARVALHO – Sempre tive uma inquietação sobre a necessidade de valorizarmos mais a nossa cultura e o nosso estado. Ao viajar por outras regiões do Brasil, percebia que, ao dizer que era do Nordeste, raramente Sergipe era citado. Essa ausência me fez refletir sobre o quanto ainda precisamos lembrar, a nós mesmos e aos outros, da riqueza cultural que temos. A partir disso, passei a pesquisar mais profundamente sobre a minha cultura e sobre Sergipe, movimento incentivado pela minha família, especialmente por “mainha”, que é historiadora. Dessa forma, a canção Sergipanidade nasceu no projeto de extensão Nosso Som, da Universidade Federal de Sergipe, onde encontrei o espaço para transformar identidade e afeto em música.

JC SOCIAL – O processo de criação de “Sergipanidade” também envolveu diálogo com coletivos, grupos culturais e diferentes territórios do estado. Como essas trocas e encontros influenciam sua forma de criar e de se posicionar como artista?

MAÍRA CARVALHO – Ter contato com todas essas pessoas me fez sentir profundamente honrada e ampliou ainda mais meu respeito por quem fortalece e mantém viva a nossa identidade cultural, seja por meio do folclore, da cultura popular, da renda irlandesa ou de tantas outras expressões tradicionais. Esse convívio me fez compreender a importância de manter consciência sobre o papel que exerço enquanto artista e de conduzir meu trabalho com responsabilidade, honestidade e verdade. Entendo também que o fortalecimento da cultura acontece de forma coletiva. Quando nos unimos, criamos caminhos para que mais artistas ocupem seus espaços, tenham voz e sejam devidamente reconhecidos e valorizados.

JC SOCIAL – O EP “Nordeste em Notas” propõe ampliar narrativas sobre o Nordeste a partir de um olhar sergipano. Que reflexões e inquietações conduzem esse projeto?

MAÍRA CARVALHO – O EP “Nordeste em Notas” nasce com o objetivo de romper estereótipos historicamente associados ao Nordeste e ao povo nordestino. O projeto busca levar informação e ampliar o olhar sobre a diversidade da região, evidenciando que, apesar das semelhanças, cada estado possui suas próprias singularidades culturais, sociais e identitárias. A canção “Nordeste Real”, por exemplo, nasce de uma vivência pessoal marcada por um comentário preconceituoso, posteriormente transformado em resposta por meio da música, ao questionar estereótipos que associam o Nordeste à fome e à escassez. Já Sotaques propõe um olhar sensível sobre a diversidade nordestina, destacando a pluralidade de vozes, linguagens e identidades como parte essencial dessa riqueza cultural.

JC SOCIAL – Olhando para os próximos passos, quais caminhos você pretende seguir na sua carreira e como esse compromisso com identidade, território e cultura deve permanecer nos seus trabalhos futuros?

MAÍRA CARVALHO – Meu objetivo é levar o show “Nordeste em Notas”  para o mundo, ao mesmo tempo em que sigo compondo e apresentando canções alinhadas ao meu propósito de vida: fazer com que as pessoas reconheçam o próprio valor, persistam em seus sonhos e compreendam que merecem existir com dignidade e felicidade. Por meio da música, busco provocar questionamentos e reflexões sobre temas que promovam a justiça social e o fortalecimento humano, coletivo e cultural.