15/04/2026 as 10:48

ENTREVISTA

Priscilla Navas lança “Mulher Ausente: derivações quase poéticas”

A escritora sergipana constrói uma obra que mergulha em temas como identidade, silêncio e continuidade.

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A poesia de Priscilla Navas nasce do encontro entre a vida prática e a escuta sensível do mundo. Servidora pública há duas décadas, bacharela em Direito e autora de “Versos para acalmar o vento” (2025) e “Mulher Ausente: derivações quase poéticas” (2026), ambos pela Editora Patuá, a escritora sergipana constrói uma obra que mergulha em temas como identidade, silêncio e continuidade. Sua escrita, marcada pela delicadeza e densidade, revela uma voz feminina contemporânea que transforma inquietações em linguagem e faz da poesia um espaço de reflexão, travessia e permanência.

JC SOCIA - Seu novo livro, “Mulher Ausente: derivações quase poéticas”, aprofunda uma investigação sobre identidade e silêncio. O que motivou esse mergulho mais íntimo?
PRISCILLA NAVAS – Karina, depois do lançamento do primeiro livro, em março do ano passado, e do qual eu sempre falava como um filho único, minha produção de poesias mudou um pouco. Eu me senti mais segura e madura para mergulhar em questões mais complexas da feminilidade e maternidade, para fazer uma investigação de mim como se fosse uma lapidação. Muitas vezes a prosa poética ajudou a burilar pensamentos, emoções e sentimentos, e eu me deixei correr no ritmo dessa busca.

JC SOCIA - Em sua trajetória, há um diálogo entre a objetividade da vida institucional e a sensibilidade da escrita. Como esses dois universos se encontram na sua poesia?
PRISCILLA NAVAS – Eu sou servidora pública desde muito jovem. Ainda que sendo uma parte pequena e sem destaque da engrenagem, rs, isso moldou um pouco o que sou e me tornei como pessoa, mulher, mãe.

Em regra o serviço público tem toda uma lógica de cumprir metas que o nome do cargo já impõe: servir, fazer o melhor trabalho possível para o estado e os cidadãos, a preocupação com ética, respeito e resultados positivos. Não é que seja algo repetitivo e sem criatividade, mas há uma métrica diferente para aferir satisfação pessoal versus vitória/estabilidade profissional. Como tudo na vida, esta escolha tem seus ônus e desvantagens.

Com os livros eu quis fugir da objetividade do meu trabalho, da austeridade do ambiente e relacionamentos mais formais. Acho que fui atender a um chamado da menina lá atrás, uma estudante que queria ser jornalista, conhecer o mundo, ler muitos livros e escrever como os autores que admirava. Embora seja difícil me dividir em tantas e ainda dar conta desse mundo tão novo, eu nunca estive tão realizada.

JC SOCIA - A ausência parece ser um elemento central em sua obra. Como você transforma essas lacunas em matéria poética?
PRISCILLA NAVAS -  Acho que aqui eu preciso voltar um pouquinho no tempo. Em 2022, com a chegada aos 40 anos, algo em mim mudou. Melhor dizer: algo transbordou. Eu era uma mulher feliz e realizada, mas não me sentia presente de verdade em nenhum papel social que desempenhava. Me cobrava muito na maternidade, em estar disponível para o casamento, aproveitar meus pais, me destacar de alguma maneira no trabalho, e sempre um sentimento de incompletude/impotência me tomava. Talvez eu devesse pensar menos sobre isso e focar em tudo o que eu já tinha realizado, mas eu não conseguia. Foi aí que a escrita entrou: pra me salvar dessas sensações, ser ferramenta, um jeito de eu investigar meus vazios.

JC SOCIA - Sua escrita transita entre delicadeza e densidade. Esse equilíbrio é intencional ou surge de forma espontânea no processo criativo?
PRISCILLA NAVAS – Todo mundo tem camadas. Tem dias que eu consigo ir mais fundo em mim, e em outros eu quero investigar o laço que envolve as pessoas. Por vezes a palavra nomeia coisas invisíveis, e aquilo, muito simples, já foi a mágica que eu buscava. A sua pergunta é poesia.

JC SOCIA - Como foi o processo de construção deste segundo livro em relação ao primeiro? Há continuidades ou rupturas que você destacaria?
PRISCILLA NAVAS – Há continuidades e rupturas. No primeiro eu era uma poeta experimental, muito livre e curiosa. Agora acho que fiquei menos ingênua, embora continue sonhadora. Tenho tentado, mais do que aprimorar técnica, ficar mais atenta ao que me toca de verdade num texto, num poema ou livro. Os Versos para acalmar o vento foram uma entrada no mar, um mar cheio de ondas perigosas, e a Mulher Ausente mergulha as ondas procurando o fundo do oceano.

JC SOCIA - Como você enxerga o papel da poesia hoje, especialmente como forma de resistência e expressão feminina contemporânea?
PRISCILLA NAVAS – Acho que estamos chegando, umas mais tímidas e outras mais confiantes, mas vamos tomar o espaço que sempre foi nosso por direito. Estamos ocupando as prateleiras das livrarias, vencendo prêmios, participando de feiras literárias. Somos a maioria como leitoras e queremos nos enxergar nas páginas que nos encantam e comovem.