17/08/2026 as 08:50

ENTREVISTA

Corrida de rua: até onde o treino pode ir sem comprometer a saúde?

Para falar sobre os benefícios da corrida, os cuidados necessários e os limites entre treinamento e excesso, conversamos com o médico Rafael Cerqueira, especialista em performance masculina e medicina do esporte.

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A corrida de rua vive um verdadeiro boom, conquistando cada vez mais adeptos que buscam saúde, bem-estar e também desafios pessoais. Mas, antes de aumentar a distância ou acelerar o ritmo, é importante entender se o organismo está preparado para acompanhar a evolução dos treinos. O excesso de exercício, especialmente quando não é acompanhado por recuperação adequada, alimentação equilibrada e acompanhamento profissional, pode provocar sinais como fadiga persistente, queda de desempenho, alterações hormonais, redução da libido e perda de força. Para falar sobre os benefícios da corrida, os cuidados necessários e os limites entre treinamento e excesso, conversamos com o médico Rafael Cerqueira, especialista em performance masculina e medicina do esporte.  À frente de um trabalho marcado pela dedicação, atualização constante e um olhar diferenciado para a saúde e a performance masculina, Dr. Rafael Cerqueira também vive um momento especial na carreira. No próximo dia 20, o médico inaugura sua nova clínica, no Empresarial Jardins, no bairro Jardins, em Aracaju, dando início a um novo ciclo profissional, com a proposta de oferecer um atendimento ainda mais personalizado e voltado à qualidade de vida, saúde e performance de seus pacientes. Confira a entrevista:

JCSOCIAL - Dr. Rafael, a corrida de rua ganhou muitos adeptos nos últimos anos. Quais são os principais benefícios da prática para a saúde e quais cuidados uma pessoa deve ter antes de começar a correr regularmente?
DR. RAFAEL CERQUEIRA - A corrida ajuda no controle da pressão arterial, colesterol, glicemia e peso, além de melhorar o condicionamento, sono, disposição e saúde mental, reduzindo o risco de doenças crônicas. Mas é fundamental respeitar o nível de condicionamento. Quem está sedentário deve começar de forma progressiva, alternando caminhada e corrida. Antes de iniciar, especialmente após os 35 anos ou na presença de fatores de risco, é importante avaliar a saúde e a necessidade de avaliação médica. Tênis adequado, hidratação, alimentação, fortalecimento muscular e recuperação também são essenciais para correr com segurança.

JCSOCIAL -  Existe uma ideia de que quanto mais uma pessoa treina, melhor será sua performance. Em que momento o excesso de treino pode começar a prejudicar o organismo?
DR. RAFAEL CERQUEIRA -
Um dos grandes erros de quem busca performance é acreditar que quanto mais treinar, melhor. O treino é o estímulo, mas a evolução acontece quando o corpo consegue se recuperar. Quando a carga aumenta e a recuperação não acompanha, o atleta treina mais e rende menos: o pace piora, o esforço aumenta e a recuperação fica mais lenta. Alterações do sono, irritabilidade, cansaço persistente, dores musculares, perda de motivação e lesões recorrentes são sinais de alerta. Mais treino não significa mais performance. Alimentação, sono e descanso também fazem parte do treinamento.

JCSOCIAL - Fadiga constante, queda de força, piora do desempenho e redução da libido podem ser sinais de que o corpo não está conseguindo acompanhar a carga de treinamento?
DR. RAFAEL CERQUEIRA - Sim. Esses sinais podem indicar um desequilíbrio entre a carga de treinamento e a capacidade de recuperação do organismo, principalmente quando persistem mesmo após alguns dias de descanso. Mas nem sempre a causa é apenas o excesso de treino. É importante avaliar outros fatores que interferem diretamente na performance, como qualidade do sono, alimentação, disponibilidade de energia, estresse, anemia, alterações hormonais e outras condições clínicas. Quando o rendimento cai de forma persistente, o ideal é investigar a causa antes de simplesmente aumentar a carga de treinamento.

JCSOCIAL - Como o excesso de exercício pode afetar os hormônios, especialmente a testosterona, e quais sinais devem servir de alerta para o atleta?
DR. RAFAEL CERQUEIRA -
O exercício bem dosado é um grande aliado da saúde hormonal. O problema surge quando há excesso de treino associado a pouca recuperação, sono inadequado e baixa disponibilidade de energia. Nesse cenário, o organismo pode entrar em estresse fisiológico prolongado e reduzir funções como a produção de testosterona. Alguns sinais de alerta são queda persistente da performance, fadiga, recuperação lenta, alterações do sono e do humor, perda de força e massa muscular, lesões recorrentes e redução da libido. Nos homens, a diminuição das ereções matinais também merece atenção.

JCSOCIAL - Qual é a importância da recuperação, do sono e da alimentação para quem pratica corrida? É possível treinar muito e evoluir pouco justamente por não dar ao corpo tempo suficiente para se recuperar?
DR. RAFAEL CERQUEIRA -
Você pode ter uma excelente planilha de corrida, mas, se dormir mal, se alimentar de forma inadequada e não respeitar a recuperação, provavelmente vai evoluir menos do que poderia. O sono é fundamental para a recuperação muscular, o sistema nervoso, a regulação hormonal e até a percepção do esforço. Já a alimentação fornece energia e nutrientes para sustentar os treinos e reparar os tecidos. Um erro comum é perceber a queda no rendimento e aumentar ainda mais o treino. Se o problema for falta de recuperação, mais volume e intensidade podem piorar o desempenho. 

JCSOCIAL - Para quem está empolgado com as corridas de rua e pretende aumentar distância e intensidade, qual seria a sua principal orientação para buscar performance sem colocar a saúde em segundo plano?
DR. RAFAEL CERQUEIRA - Minha principal orientação é: não tenha pressa para correr mais rápido ou mais longe. Dê tempo para o corpo se adaptar. É comum começar nos 5 km e rapidamente querer chegar aos 10 km ou à meia maratona, mas músculos, tendões, ossos e articulações precisam de tempo para acompanhar essa evolução. Volume e intensidade devem aumentar de forma progressiva, com fortalecimento, alimentação, hidratação, sono e recuperação. E não ignore sinais como dor persistente, queda de rendimento, palpitações, tontura ou dor no peito. Performance não é só baixar o pace, é correr melhor e continuar saudável.