14/09/2026 as 10:03

ENTREVISTA

“Se não tem água, não tem conta”, Ricardo Marques

Na entrevista a seguir, ele resume em uma frase o que espera deixar como marca de seu governo, caso seja eleito.

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Em entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade, o candidato do PL ao Governo de Sergipe, Ricardo Marques, defende um modelo de fiscalização mais rígido sobre a concessão da deso e promete tarifa social para quem mais precisa. Mas a conversa vai muito além do saneamento: o candidato detalha o diagnóstico que pretende fazer logo no primeiro dia de governo, revela como pensa a expansão de hospitais regionais sem repetir o erro de “unidades com placa bonita e corredor vazio” e apresenta a política de fila zero para a saúde pública. Marques também fala sobre segurança, valorização das polícias, mobilidade na grande Aracaju e sua proposta para o interior do estado, batizada de Sergipe irrigado. Declarado apoiador de Jair Bolsonaro, o candidato explica por que não pretende transformar o palácio do governo em “palanque permanente” para a disputa nacional, como pretende negociar com a assembleia legislativa sem “fisiologismo” e como avalia sua posição nas pesquisas eleitorais, hoje distante da liderança. Na entrevista a seguir, ele resume em uma frase o que espera deixar como marca de seu governo, caso seja eleito.

JORNAL DA CIDADE - O senhor vem de uma trajetória política ligada principalmente a Aracaju. Por que o eleitor do interior deveria acreditar que Ricardo Marques conhece e está preparado para governar os 75 municípios de Sergipe?
RICARDO MARQUES – Porque governar Sergipe não é governar apenas Aracaju. E eu tenho plena consciência disso. Tenho percorrido os municípios, conversado com prefeitos, vereadores, produtores rurais, comerciantes, trabalhadores e, principalmente, com pessoas que muitas vezes sentem que o Governo do Estado só aparece no interior em época de eleição. Eu conheço os problemas de Aracaju, mas também conheço a realidade de quem mora no sertão, no agreste, no Sul e no baixo São Francisco. Sei que a falta de água em um povoado não pode ser tratada da mesma maneira que um problema de mobilidade na capital. Quero ser governador dos 75 municípios, não apenas dos maiores. O tamanho de um município não pode determinar o tamanho da atenção que ele recebe do estado.

JC – Qual seria a primeira medida de seu governo no dia seguinte à posse?
RM – Eu começaria fazendo um grande diagnóstico administrativo e financeiro do Estado. Quero saber exatamente quanto o Estado arrecada, quanto gasta, onde existem desperdícios, quais contratos precisam ser revistos e quais serviços públicos estão funcionando mal. A partir daí, estabeleceríamos metas objetivas para cada secretaria, com acompanhamento público dos resultados. O cidadão precisa saber onde o dinheiro dele está sendo aplicado e o que está recebendo em troca.

JC – Seu plano prevê novos hospitais regionais. Quais regiões receberiam essas unidades, quanto elas custariam e como o senhor pretende evitar que se transformem em estruturas caras, mas sem profissionais e atendimento adequado?
RM – A expansão da rede será definida a partir de critérios técnicos: população atendida, distância até os serviços de referência, demanda reprimida e capacidade instalada. A prioridade será fortalecer a regionalização da saúde, especialmente nas áreas mais distantes de Aracaju. E antes de inaugurar qualquer prédio, vamos garantir três coisas: profissionais, equipamentos e custeio. Não quero inaugurar hospital com placa bonita e corredor vazio. Quero inaugurar unidades que façam cirurgia, tenham diagnóstico, especialistas e resolvam o problema do paciente na região onde ele mora.

JC – O senhor tem criticado problemas na saúde pública. Qual é hoje, na sua avaliação, o maior gargalo do sistema estadual: falta de médicos, filas, gestão, infraestrutura ou financiamento?
RM – O maior gargalo é gestão, ou falta dela. Nós temos problemas de financiamento, de infraestrutura e de falta de profissionais, mas muito dinheiro público pode ser desperdiçado quando não existe gestão eficiente. A fila é o exemplo mais evidente. O cidadão não quer saber se o problema está na secretaria, no hospital ou no contrato. Ele quer fazer sua consulta, seu exame e sua cirurgia. Vamos criar uma política de Fila Zero, integrando informações, regulando melhor os serviços e comprando capacidade quando a rede pública não conseguir atender a demanda. Saúde pública precisa ser medida pelo tempo que o cidadão espera e pelo resultado que recebe, não pela quantidade de recursos anunciados pelo governo.

JC – Seu programa prevê mapear áreas de risco climático e socioambiental em todos os municípios. Como essa proposta se transforma em obras concretas de prevenção, sobretudo diante das enchentes e dos problemas de drenagem?
RM – O mapa é o primeiro passo, depois de identificar as áreas de risco, vamos estabelecer prioridades de intervenção: drenagem, contenção de encostas, recuperação de canais, limpeza e ampliação de sistemas de escoamento e obras de infraestrutura. Também vamos criar uma política estadual de prevenção e resposta rápida a desastres.

JC – O senhor defende uma mudança na gestão da segurança pública. O que faria nos primeiros seis meses para reduzir a criminalidade sem transformar a política de segurança apenas em discurso de endurecimento penal?
RM – Segurança pública precisa de autoridade, inteligência e prevenção. Nos primeiros seis meses, eu faria um diagnóstico territorial da criminalidade, reforçaria o policiamento nas áreas mais críticas, ampliaria o uso de inteligência e integração entre as forças de segurança e cobraria metas objetivas de redução dos crimes. Também precisamos investir em investigação. Não adianta apenas prender. É preciso identificar quem comete o crime, desmontar organizações criminosas e garantir que os processos tenham provas suficientes para resultar em condenação. Ser firme contra o crime não significa ser irresponsável. Significa proteger o cidadão de bem e garantir que o criminoso saiba que haverá consequência.

JC – Qual é sua proposta para as polícias Civil e Militar, especialmente em relação a efetivo, carreira, salários e condições de trabalho?
RM – O policial precisa ser respeitado pelo Estado. Vamos trabalhar com planejamento de efetivo, concursos quando houver necessidade, valorização das carreiras, melhores condições de trabalho e equipamentos adequados. Também precisamos discutir uma política permanente de valorização salarial, dentro da responsabilidade fiscal. Não existe segurança pública de qualidade tratando o policial como despesa.

JC – Como candidato do PL, qual será o espaço de uma eventual agenda conservadora no seu governo? Questões como família, educação, costumes e segurança terão políticas específicas?
RM – Meu governo será comprometido com liberdade, responsabilidade, família e respeito às escolhas individuais. Na educação, vamos priorizar alfabetização, aprendizagem, disciplina, valorização dos professores e preparação dos jovens para o mercado de trabalho. Na assistência social, vamos trabalhar para que o Estado ajude quem precisa, mas também para criar caminhos de autonomia. E na segurança, teremos uma posição muito clara: o cidadão honesto terá no Governo do Estado um aliado. Não quero que o Estado diga às famílias como elas devem viver. Quero que o Estado garanta condições para que elas possam viver com liberdade e dignidade.

JC – Qual será sua relação com o ex-presidente Jair Bolsonaro e com o bolsonarismo caso seja eleito? O senhor pretende trazer essa agenda nacional para o governo de Sergipe?
RM – Tenho respeito e gratidão pelo presidente Bolsonaro e pelos milhões de brasileiros que representam esse movimento. Mas o Governo de Sergipe precisa cuidar de Sergipe. Vou defender os princípios que acredito, liberdade econômica, segurança, responsabilidade fiscal, família e respeito à propriedade, mas não vou transformar o Palácio do Governo em palanque permanente para disputa nacional. Minha prioridade será o sergipano. Quero trazer de Brasília aquilo que for bom para Sergipe, independentemente de quem esteja no poder.

JC – O PL representa uma oposição forte ao governo Lula. Caso o senhor seja eleito e Lula permaneça presidente, como pretende garantir recursos federais para Sergipe sem transformar a relação institucional em uma disputa ideológica?
RM – Se Lula for presidente, eu vou tratar o presidente da República como presidente da República. Se outro presidente estiver lá, será da mesma maneira. Não vou deixar de buscar uma obra para Sergipe porque o dinheiro vem de um governo de esquerda. Da mesma forma, não vou aceitar que um recurso seja condicionado a apoio político. Vou bater na porta dos ministérios, do Congresso e de qualquer órgão federal para buscar investimentos.

JC – O senhor já criticou a privatização da Deso? Qual é exatamente sua posição hoje sobre o modelo de saneamento e abastecimento de água de Sergipe?
RM – Minha preocupação nunca foi defender uma empresa estatal simplesmente por ser estatal. Minha preocupação é defender o consumidor. Água é serviço essencial. O que não podemos aceitar é uma família pagar uma conta cada vez mais cara e continuar tendo problemas de abastecimento. Vou fiscalizar rigorosamente o contrato de concessão, cobrar metas de universalização, qualidade e continuidade e defender uma política de tarifa social para quem realmente precisa. Minha posição é simples: se não tem água, não tem conta. O cidadão não pode pagar por um serviço que não recebeu.

JC – Aracaju é seu principal território político. Que projeto específico o senhor pretende implementar para a capital e qual problema da Grande Aracaju seria sua prioridade absoluta?
RM – A prioridade absoluta será mobilidade e integração metropolitana. Milhares de pessoas moram em uma cidade, trabalham em outra e enfrentam diariamente congestionamentos, transporte precário e perda de tempo. O Governo do Estado precisa assumir sua responsabilidade metropolitana. Precisamos integrar transporte, planejamento urbano e infraestrutura entre Aracaju e os municípios da Grande Aracaju. Não adianta cada prefeitura resolver seu problema isoladamente. A população se desloca pela região inteira.

JC – E no interior: qual será sua primeira grande política regional e como distribuir investimentos sem privilegiar apenas os maiores municípios?
RM – Minha primeira grande política regional será voltada para água, irrigação e desenvolvimento econômico. Sergipe tem regiões com enorme potencial produtivo, mas muitos produtores ainda convivem com falta de água e dificuldade de acesso a tecnologia e crédito. Quero implementar o Sergipe Irrigado, ampliando a infraestrutura hídrica, a irrigação, o crédito e a agroindustrialização. E a distribuição de investimentos será baseada em critérios objetivos: população, vulnerabilidade, déficit de infraestrutura e potencial econômico. Município pequeno não será município esquecido.

JC – Sua candidatura tem uma proposta de ruptura com o atual governo. O que exatamente o senhor faria e que considera indispensável para Sergipe?
RM – A ruptura que eu proponho é principalmente com uma cultura política. Precisamos deixar para trás a ideia de que o Estado existe para acomodar grupos políticos. Quero um governo que cobre resultado, reduza desperdício, facilite a vida de quem trabalha e empreende e entregue serviços públicos melhores. Sergipe precisa deixar de comemorar pequenas melhorias como se fossem grandes conquistas. Precisamos pensar grande. Água para quem não tem. Saúde para quem espera. Segurança para quem está com medo. Emprego para quem precisa trabalhar. Essa é a ruptura que eu proponho.

JC – Uma das dificuldades de um governo de oposição é montar uma base política na Assembleia Legislativa. O senhor governaria negociando com partidos? Até onde iria essa negociação?
RM – Vou dialogar com todos. Governar exige capacidade de diálogo. Mas diálogo não significa fisiologismo. Eu posso negociar projetos, ouvir deputados, aceitar sugestões e construir maioria em torno de propostas importantes para Sergipe. O que não vou negociar é dinheiro público em troca de apoio político. Meu compromisso é com o interesse público.

JC – Segundo as pesquisas mais recentes, como a Quaest, a sua candidatura aparece com 5%. Como pretende ampliar esse eleitorado e chegar ao segundo turno?
RM – Nós ainda estamos construindo nossa candidatura e apresentando um projeto para o sergipano. Existe um número enorme de eleitores que ainda não decidiu seu voto e, principalmente, muita gente que está cansada da velha política, mas ainda não encontrou uma alternativa. Eu quero conversar justamente com esse eleitor. Não vou prometer aquilo que não posso entregar. Vou apresentar propostas, mostrar os problemas que precisam ser enfrentados e construir uma candidatura competitiva município por município. Cinco por cento hoje não determina o resultado da eleição, sem contar que temos crescido nas últimas pesquisas; na última a que tive acesso, atingimos 12,9%. Pesquisa temos para todos os gostos e públicos. Não guio minha campanha somente por elas.

JC – Qual é o eleitor que o senhor considera decisivo para sua candidatura: o eleitor bolsonarista, o eleitor insatisfeito com o governo estadual, o eleitor de Aracaju ou o eleitor do interior? Por quê?
RM – O eleitor decisivo é aquele que ainda não decidiu. Nós não podemos tratar o eleitor como propriedade de nenhum grupo político. Quero o voto do bolsonarista, mas também quero o voto de quem nunca votou em Bolsonaro. Quero o voto de Aracaju e o voto do interior. Minha candidatura é maior do que uma bolha política. O nosso desafio é transformar a insatisfação existente em esperança e confiança em um novo projeto para Sergipe.

JC – Se tivesse de resumir sua candidatura em uma única bandeira – aquilo que o governo Ricardo Marques deveria ser lembrado por fazer – qual seria?
RM – Fazer o sergipano voltar a ter orgulho de ser sergipano. Essa seria a marca do nosso governo. Fazer a água chegar. Fazer a consulta acontecer. Fazer a polícia estar na rua. Fazer a estrada funcionar. Fazer o empreendedor conseguir abrir sua empresa. Fazer o dinheiro público chegar onde precisa. O sergipano não precisa de um governo que faça propaganda de tudo. Precisa de um governo que resolva. E é para isso que eu quero ser governador.