24/08/2026 as 09:46

ENTREVISTA

Tricologia: quando a saúde dos cabelos revela o que acontece no organismo

Para falar sobre os avanços da área, os principais fatores relacionados à queda de cabelo e a importância do diagnóstico individualizado, conversamos com o médico sergipano Dr. Delmo Freire,

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A tricologia vem ganhando cada vez mais espaço na medicina ao mostrar que a saúde dos cabelos está diretamente relacionada ao funcionamento do organismo. Queda capilar, afinamento dos fios e alterações no couro cabeludo podem ser sinais de desequilíbrios que vão muito além da estética. Para falar sobre os avanços da área, os principais fatores relacionados à queda de cabelo e a importância do diagnóstico individualizado, conversamos com o médico sergipano Dr. Delmo Freire, que participa, em 2026, de importantes eventos científicos de tricologia no Brasil.

JC SOCIAL - A saúde capilar passou a ser vista de forma mais ampla pela medicina. De que maneira o cabelo pode funcionar como um marcador da saúde geral do organismo?
DR. DELMO FREIRE - O cabelo muitas vezes conta uma história antes mesmo de o paciente perceber que alguma coisa mudou no organismo. O folículo capilar é uma estrutura muito ativa e sensível a alterações hormonais, nutricionais, metabólicas, inflamatórias e emocionais. Por isso, uma queda de cabelo nem sempre é apenas um problema do couro cabeludo. Em alguns pacientes, ela pode acompanhar deficiência de ferro ou outros nutrientes, alterações da tireoide, perda rápida de peso, estresse intenso, mudanças hormonais ou processos inflamatórios. É justamente essa visão que vem mudando a medicina capilar. Não devemos olhar apenas para o fio que está caindo, mas tentar compreender o ambiente biológico no qual esse fio está crescendo. O cabelo não substitui exames ou uma avaliação médica, mas pode ser um sinal importante de que algo merece ser investigado.

JC SOCIAL  - A queda de cabelo pode ter diversas causas, como alterações hormonais, estresse, deficiência nutricional e doenças da tireoide. Como identificar quando uma queda é considerada normal e quando é necessário procurar um especialista?
DR. DELMO FREIRE - Todos nós perdemos fios diariamente porque o cabelo possui um ciclo natural de crescimento e renovação. O que chama atenção é uma mudança em relação ao padrão habitual daquela pessoa. Quando o paciente começa a perceber muito mais cabelo no banho, no travesseiro ou na escova, nota redução do volume, alargamento da risca, entradas aumentando ou áreas do couro cabeludo ficando mais aparentes, vale investigar. Também é importante observar a duração. Uma queda intensa e persistente, principalmente quando acompanhada de coceira, descamação, dor, vermelhidão ou falhas localizadas, merece avaliação médica. Mais importante do que tentar estabelecer um número exato de fios por dia é entender o que mudou naquele paciente e por quê.

JC SOCIAL - Nos últimos anos, novas tecnologias passaram a auxiliar no diagnóstico e acompanhamento das doenças capilares. Quais são os principais avanços e como eles contribuem para um tratamento mais preciso?
DR. DELMO FREIRE - Estamos vivendo uma fase muito interessante da medicina capilar. Hoje conseguimos ampliar e documentar o couro cabeludo, avaliar características dos folículos e dos fios e acompanhar objetivamente a evolução ao longo do tratamento. A tricoscopia digital, a fotografia padronizada e sistemas de análise de imagem por IA permitem comparar diferentes momentos e identificar alterações que muitas vezes seriam difíceis de perceber apenas a olho nu. Ao mesmo tempo, exames laboratoriais e, em casos selecionados, biópsia e avaliação histopatológica ajudam a esclarecer diagnósticos mais complexos. A tecnologia melhora nossa capacidade de medir, comparar e tomar decisões.

JC SOCIAL  - Existe uma relação entre alimentação, metabolismo, microbiota intestinal e saúde dos cabelos? O quanto os hábitos de vida podem influenciar na queda e na qualidade dos fios?
DR. DELMO FREIRE - Existe uma relação importante, mas precisamos ter cuidado para não simplificá-la. Não significa que toda queda de cabelo começa no intestino ou que mudar a alimentação resolverá qualquer doença capilar. O folículo precisa de energia, proteínas, vitaminas e minerais para manter sua atividade. Alterações nutricionais, dietas muito restritivas, emagrecimento acelerado e algumas alterações metabólicas podem interferir no ciclo capilar. A microbiota intestinal também ganhou espaço nas pesquisas porque participa de mecanismos relacionados à absorção de nutrientes, metabolismo e regulação imunológica. Por isso, alimentação, sono, atividade física, controle do estresse e saúde metabólica não devem ser vistos como detalhes. 

JC SOCIAL  - Por que o diagnóstico precoce é tão importante em algumas doenças capilares e quais problemas podem surgir quando a queda de cabelo é ignorada ou tratada apenas com produtos estéticos?
DR. DELMO FREIRE - Porque queda de cabelo é um sintoma, não um diagnóstico. Duas pessoas podem apresentar uma queixa muito semelhante e ter doenças completamente diferentes. Existem condições em que o folículo apenas muda temporariamente de fase e existe possibilidade de recuperação. Em outras, principalmente algumas alopecias inflamatórias e cicatriciais, pode ocorrer destruição permanente do folículo. Nesses casos, o tempo faz diferença. O risco de tratar tudo apenas com shampoo, vitaminas ou produtos cosméticos é melhorar algum aspecto do fio sem identificar a doença que está acontecendo no couro cabeludo. Quanto mais cedo entendemos a causa, maiores são as possibilidades de preservar os folículos ainda viáveis e escolher o tratamento adequado. Na medicina capilar, muitas vezes preservar é tão importante quanto recuperar.

JC SOCIAL - O senhor participará de importantes eventos científicos de tricologia em 2026. Quais novidades e conhecimentos pretende compartilhar com outros profissionais e qual é a sua visão sobre o futuro da medicina capilar?
DR. DELMO FREIRE - Participar desses encontros é uma oportunidade de compartilhar experiência, mas também de ouvir, aprender e confrontar nossas práticas com aquilo que está sendo produzido cientificamente no Brasil e no exterior. Tenho me dedicado especialmente a uma visão mais integrada da saúde capilar. O futuro da medicina capilar será cada vez menos sobre tratar apenas a queda e cada vez mais sobre entender por que aquele cabelo está caindo, naquele paciente, naquele momento. É esse olhar que pretendo levar aos encontros científicos de 2026 e, principalmente, continuar trazendo para os pacientes que confiam no nosso trabalho.